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Fusões, aquisições, joint ventures: novos negócios aquecem o mercado da saúde em 2022

Negociações movimentam o mercado brasileiro de planos de saúde, hospitais e empresas do setor que apostam em inovação e tecnologia gerar novas possibilidades de expansão

               
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Se por um lado a alta da inflação tem gerado crise em alguns setores da economia, o mercado da saúde está aquecido. Nos últimos anos, apesar dos desafios impostos ao setor por conta da pandemia, as negociações foram movimentadas e a expectativa é que continue assim.

Somente em 2021, foram 55 aquisições que movimentaram 15 bilhões de reais. “Foi um ano recorde pro setor de saúde, seguindo 2020 que já havia sido um ano excelente. Destas 55 aquisições, 41 delas foram operações domésticas e quatorze aquisições foram realizadas por empresas estrangeiras que adquiriram companhias do segmento de saúde brasileiras”, afirma Fernando Kunzel, economista e co-fundador da consultoria L6 Capital Partners.

Já logo no início do ano, o Conselho Administrativo de Defesa Econômica (CADE) aprovou em definitivo a fusão entre o Grupo NotreDame Intermédica (GNDI) e a Hapvida, operação que havia sido anunciada ao mercado no primeiro semestre de 2021. 

Outro movimento em curso é em relação à Amil. Em janeiro, a United Health, dona da Amil, anunciou que planeja abandonar todas as suas operações no Brasil. O possível comprador da empresa ainda está indefinido, mas discussões sobre o tema ocorrem nos bastidores. Um capítulo à parte dessa história é que, nesta semana, a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) barrou a venda da Assistência Personalizada à Saúde (APS), operadora de saúde que controla 337 mil planos de saúde individuais da Amil, para a empresa de investimentos Fiord Capital.

“Temos vários movimentos acontecendo e teremos tanto fusões e aquisições em prestadoras e operadoras de serviços, quanto muitas empresas novas no mercado. Isso porque teremos uma mudança importante na saúde nos próximos anos, um movimento de mudança mesmo da lógica do sistema de saúde” analisa a médica e executiva que atuou na regulação da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) e foi diretora executiva da Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), Martha Oliveira. Para Martha, ainda há muito espaço para a chegada de novas empresas, com novos modelos de negócios para empresas já atuantes no mercado.

Alianças estratégicas

Os modelos de novos negócios passam por fusões, aquisições e também alianças estratégicas entre empresas. No começo de 2021, surgiu a Kortex Ventures, uma joint venture entre o Grupo Fleury e Grupo Sabin, dois dos maiores grupos de medicina diagnóstica do país, em uma operação que iniciou com um aporte de R$ 200 milhões para alocar em startups de tecnologia em saúde, as healthtechs. No fim do ano, o Fleury fez nova parceria, desta vez com o Hospital Albert Einstein. A joint venture originou a Gênesis, empresa com foco em pesquisas científicas e desenvolvimento de testes genéticos.

Em comunicado enviado à imprensa, o diretor-superintendente da Medicina Diagnóstica e Ambulatorial do Einstein, Dr. Eliézer Silva, disse  que: “A combinação de duas organizações líderes na área de genômica, tanto do ponto de vista assistencial quanto científico e de reputação, resultará na criação de novos serviços e testes que darão suporte ao desenvolvimento de medicina de precisão, que é uma das tendências importantes da medicina no país. A operação nasce a partir das atuações de excelência do Einstein e do Grupo Fleury nesta área, que é crucial para a nova prática médica”.

Para José Antonio Diniz de Oliveira, co-fundador da Conectgene, empresa especializada em testes genéticos, essa parceria deve ser considerada uma boa notícia para o mercado brasileiro, já que “vão criar uma empresa que vai atuar na área da genômica, uma área em que o Brasil está muito atrasado em relação aos países mais desenvolvidos”. Ele acrescenta que o Projeto Genoma Humano, que mapeou todos os nossos genes, trouxe avanço significativo para várias áreas, mas é na área da saúde onde mais crescem as possibilidades de implementação, seja no diagnóstico, no prognóstico e tratamento, de maneira mais especial na oncologia.  “Há artigos que vaticinam que em 3 ou 4 anos não será possível oferecer uma boa clínica médica sem o auxílio da genômica”, aponta.

Tendência de crescimento horizontal e vertical

Além do crescimento horizontal, com fusões e aquisições, Martha pontua o aumento da verticalização nos planos de saúde — quando os planos de saúde constroem sua própria rede de hospitais, clínicas e laboratórios como forma de garantir mais eficiência e menores custos. “Temos acompanhado o aumento da verticalização, que vamos continuar a ter, mas ela atende apenas uma parte do público e, por isso, vão existir vários outros modelos de operadoras”, analisa. Ela acredita que irão acontecer algumas reorganizações dos prestadores de serviço em saúde, justamente pelas inovações que o setor apresenta. “Passamos por muitos anos de estagnação no setor, o mercado estava acomodado. Nesses próximos anos a gente terá uma série de inovações e novos negócios que já começaram a mexer com o setor”.

Fusões como a do GNDI e Hapvida, segundo José Antonio Diniz, são exemplos que seguem essa nova tendência de crescimento. “A fusão de Hapvida e GNDI foi precedida por uma série de aquisições feitas pelos dois grupos antes de o CADE aprovar a referida fusão dos dois grandes grupos, o que lhes assegura algo em torno de 17% do mercado em termos de números de vidas. Sem contar que se trata de operadoras que já atuavam de forma fortemente verticalizada. Como possuem a característica comum de oferecerem planos de saúde com ticket médio baixo, penso que vão crescer ainda mais em número de vidas, tanto organicamente como em aquisições de operadoras menores”, pondera.

‘Redes virtuais’

Essa movimentação de grandes players do setor influencia também outras esferas, em outras escalas e em segmentos adjacentes como a própria tecnologia dentro da área do setor de saúde e acaba estimulando, e também pressionando, outras empresas a fazerem o mesmo. Alguns são desbravadores que acabam sendo seguidos por outros. “Um exemplo disso, são operadoras colocando alguns players de prestação do serviço como players muito preferenciais. Então a operadora se pauta em um determinado hospital para montar toda a estrutura do plano de saúde, que é o que a gente está chamando no mercado de redes virtuais”, explica Martha.  

Outro aspecto dessa verticalização exposta por ela é quando uma operadora monta uma rede, de uma forma que ela não está comprando um prestador de serviço, mas está criando uma relação tão forte quanto. O mercado está chamando esse tipo de negócio de verticalização sem muro ou verticalização virtual, que é o caso, por exemplo, dos hospitais Oswaldo Cruz e Albert Einstein. Eles fizeram acordos com algumas operadoras que criam produtos que são pautados nessa relação, como QSaúde e Alice.  

O que vem pela frente: ‘onda de consolidação’

Segundo o economista e sócio-fundador da L6 Capital Partners, empresa de assessoria e consultoria focada em fusões e aquisições, Fernando Kunzel, esses movimentos no setor devem continuar a crescer nos próximos anos e se tornarão cada vez mais comuns. Isso só foi possível depois da permissão, em 2015, para que companhias no Brasil pudessem ser controladas por capital estrangeiro. Para ele, ainda tem muito espaço no mercado, de empresas 100% nacionais para serem compradas.

“No Brasil o mercado da saúde está concentrado entre 20 e 25% na mão de grandes grupos entre 75% e 80% pulverizados ainda, ou seja, demonstrando ainda uma alta capacidade de consolidação. Isso sem falar em outros tantos segmentos da saúde. Está começando a onda de consolidação”, afirma.

Em 2022, na opinião de Kunzel, o mercado segue aquecido. “Começamos o ano com o ‘pé direito’ com a aprovação da joint venture entre a Hapvida e o Grupo Notre Dame Intermédica (GNDI), já tivemos anúncios da Matter Dei fazendo aquisições, da Rede D’Or fazendo aquisição de um hospital no Mato Grosso, com certeza as empresas de capital aberto estão com muitas operações no seu pipeline e, por sua vez, os próprios empresários estão vendo que pode ser um momento importante para a venda. Então, está se criando um timing perfeito sob a ótica de consolidação deste mercado, não só este ano, mas para os próximos cinco anos”.

Ele complementa que, se não houver nenhum efeito adverso, fora da normalidade, a tendência é muito forte para que cada vez mais esses grupos que estão se transformando agora, como grupos expoentes do segmento de saúde: Dasa, Athena Saúde, Mater Dei e Cora Saúde. “Essa turma começará a dominar  o mercado brasileiro de saúde. Por óbvio, também outros que já estão no segmento há mais tempo, como o Fleury e o Einstein, que tem olhado para alguns recortes na saúde. Então, temos excelentes perspectivas para os próximos anos, nos mais diversos nichos de mercado, desde hospital geral, passando por ‘n’ outros recortes”, finaliza. 

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