Francisco Balestrin, presidente do SindHosp: “Falta visão de horizontalidade na saúde”

Na entrevista do mês, Balestrin explora a falta de visão horizontal da saúde, os gargalos da formação o impacto da atenção primária nas instituições

               
98

Ao mesmo tempo em que a quantidade – e a qualidade – de informações técnicas e especializadas em saúde são cada vez mais necessárias, existe uma demanda tão ou mais importante de se ter uma visão generalista e ampla do que é saúde. Este foi apenas um dos pontos apontados por Francisco Balestrin, presidente do Sindicato dos Hospitais, Clínicas, Laboratórios e Demais Estabelecimentos de Saúde do Estado de São Paulo, SindHosp, e presidente do conselho de administração do Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde, o CBEXs.

O médico e especialista em saúde pública é o entrevistado do mês de dezembro em Futuro da Saúde. Com mais de 40 anos de atuação no setor da saúde, ele abordou os gargalos da formação em medicina, a visão horizontalizada e verticalizada da saúde, o avanço da atenção primária e como isso impacta os negócios de hospitais e da saúde suplementar, o desafio de equilibrar a gestão financeira com a qualidade clínica e o papel das healhtechs no possível aumento do acesso.

Ele acredita que as pessoas terão um olhar mais crítico depois dos desafios vividos nos últimos anos: “A pandemia trouxe uma mudança importante, que é o fato de que as instituições passaram a olhar para o cliente de uma forma empoderada. O cliente de saúde hoje sabe que alguma coisa tem que mudar nas instituições de saúde, que elas precisam olhar para ele de uma forma diferente”. Confira os principais trechos da entrevista:

Qual o principal gargalo da formação em medicina hoje no Brasil?

Francisco Balestrin – Na faculdade de medicina o estudante não tem a visão de como funciona o sistema de saúde. Esse é um aspecto que ainda hoje é predominante na formação do profissional médico no nosso país. Com exceção de metodologias de ensino diferentes, mais aprimorados e adequadas, não vejo um mergulho do profissional de saúde, de um modo geral, e nem do médico, naquilo que realmente significa o sistema de saúde, o mercado de trabalho, as relações que ele precisa ter. Isso é muito ruim.

O que precisa ser feito para mudar esse cenário?

Francisco Balestrin – Nosso ensino é extremamente técnico e individualista. Você aprende uma especialidade, mas existe uma realidade de saúde pouco compreendida. Em 2013, quando estava na International Hospital Federation, convidamos para um congresso o ministro da saúde da Noruega, país com um dos melhores IDH do mundo. E qual foi a resposta? Ele disse: “olha, eu queria entender por que vocês me convidaram para falar sobre saúde em um congresso mundial de hospitais. Eu sou apenas o ministro da saúde”. Na hora ficamos perplexos, mas ele justificou dizendo que saúde é um item horizontalizado. Saúde também é ter estradas adequadas, educação, política nutricional, segurança pública, lazer. É um conjunto de coisas que faz a sociedade ser sadia. É olhar o cidadão antes dele ficar doente. Porém, nós vemos a saúde de forma verticalizada aqui no país.

“Temos profissionais de saúde de primeiro mundo, mas do ponto de vista de entendimento de saúde, falta a visão da horizontalidade. Não basta você comprar uma passagem de primeira classe ou de classe executiva. Você precisa saber o que está fazendo dentro desse avião”.

Nesse contexto, a atenção primária aparece cada vez mais na pauta da saúde. Qual sua análise sobre essa tendência?

Francisco Balestrin – No setor privado, todas as operadoras funcionam dentro de uma lógica de seguro, em que são agentes financeiros de pagamento de sinistros na saúde. É mais ou menos como as seguradoras de carros, esperar a ocorrência para depois pagar o sinistro. Por todos os setores, existe essa perspectiva empresarial. A perspectiva das operadoras de plano de saúde sempre foi arrecadar mais do que pagar, mas elas perceberam que no ritmo atual de sinistralidade é impossível seguir assim. As pessoas ficam cada vez mais doentes, a sociedade está envelhecendo. Então, desse ponto de vista econômico-financeiro, existem dois caminhos: ou você diminui os gastos ou aumenta as receitas. E para aumentar as receitas, só tem dois jeitos: ou você confia que vai conseguir negociar bem os reajustes, coisa que todos nós sabemos que está cada vez mais inviável, ou você confia que vai conseguir aumentar a sua carteira vendendo cada vez mais, o que no atual cenário de forte concorrência também não é uma coisa tão viável. Com tudo isso, fica claro que será preciso trabalhar na ponta da despesa, exatamente aquilo que a saúde pública sempre fez. Tentar diminuir os agravos antes que eles sejam necessários.

Como ficam os médicos neste cenário? O médico especialista vai perder espaço para outro profissional que olhe o todo?

Francisco Balestrin – Depende do desenho do mercado. Se você der incentivos econômicos assimétricos, como hoje, provavelmente gerará um desequilíbrio, porque hoje o especialista recebe em cima dos procedimentos que faz, que são mais caros do que aqueles dos médicos de atenção primária. E existe outro fator: fala-se em torno de quarenta mil médicos formados hoje por ano. Um número muito alto. Desses, dez mil fazem residência médica. Você tem um conjunto muito grande de profissionais médicos que não têm residência e que são teoricamente talhados para esse tipo de assistência. Por que teoricamente?

“Porque esta medicina [com foco em atenção primária] às vezes é muito mais complexa que a medicina de especialidade. Quem faz esse tipo de medicina tem que ter uma ampla visão, holística, do sistema de saúde. Tem que saber um conjunto muito grande de outras coisas”.

E os hospitais? Se o foco será na atenção primária, como você vê os hospitais nesse cenário de olhar mais para a prevenção?

Francisco Balestrin – Nas vésperas das eleições de 2014 eu era presidente da Anahp e fizemos um projeto de saúde para o Brasil, onde compilamos um desenho do modelo de saúde teórico que precisaria acontecer, e oferecemos aos então candidatos à presidência. Era como uma cebola, em que no núcleo estava o cliente ou paciente. Quando esse usuário se conecta com o sistema de saúde, ele olha três coisas: se vai ser bem atendido pelo recurso humano, médico ou enfermeira, se a estrutura física é adequada e se os dados e informações de histórico estavam disponíveis. Em outras palavras, ele quer ver o médico, local arrumado e chegam assim: “Doutor, o senhor tem toda a minha história aí nesse computador”. Isso é o limite do olhar do cidadão seja quando ele vai ser atendido por um especialista ou por um clínico geral na medicina primária. Só que para que isso aconteça são necessárias várias coisas.

Quais?

Francisco Balestrin – Primeiro, ter bem claro o modelo assistencial, que defina como vamos atender as pessoas, pois se não tiver um modelo, você não sabe o que fazer. Depois você precisa ter um modelo de organização para literalmente organizar esse atendimento, contratar pessoas, etc. Depois você vai precisar de um modelo de gestão. Outra coisa é o financiamento geral do sistema. De onde é que vem o dinheiro da saúde? E há também a necessidade de política pública focada no complexo médico-hospitalar: temos que fazer produtos químicos, equipamentos, pesquisa, porque se não fizermos isso, não vamos conseguir alcançar sucesso nas outras coisas. Voltando para sua pergunta, e os hospitais? Bem, os hospitais têm que fazer parte disso. Na época desse desenho que entregamos aos candidatos, vimos o sistema de saúde da Catalunha, porque lá funciona assim. Tem uma proposta, modelo, estrutura, organização, financiamento e desenvolvimento de pesquisas tecnológicas para que esse sistema funcione. Como eles conseguem? Eles são hubs de assistência à saúde, raramente você tem um hospital isolado.

Do ponto de vista de negócio, esse cenário ainda é interessante para a saúde suplementar, considerando o foco em atenção primária e atuação em redes de saúde?

Francisco Balestrin – Não vejo alternativa. Hoje você paga um plano de saúde que tem convênio com uma rede de hospitais. E como as pessoas entram no sistema? 35% das demandas do hospital entram pelo pronto-socorro, mas o restante vem pelos consultórios. Quando o paciente vai ao consultório, um médico, que é fidelizado àquele hospital, encaminha-o para lá para uma internação para cirurgia, por exemplo. Se você tem um sistema diferenciado, você capta todas essas pessoas através de toda essa variedade de pontas. Então, se eu fosse operadora de plano de saúde eu faria uma opção para a minha rede, instituições que operassem em rede, porque teria um controle maior de quem está entrando no sistema. Neste cenário, o lado financeiro começa a ditar as regras e por isso você precisa ter quem cuida do paciente, alguém atento às questões de qualidade assistencial. Grandes conjuntos de hospitais hoje buscam acreditação.

Mas alguém exige essa acreditação ou o hospital busca isso por ajudar no seu posicionamento de mercado e qualidade?

Francisco Balestrin – As acreditações são voluntárias. As instituições de alguma forma aprenderam através do tempo que, quando elas trazem uma acreditação, vão melhorar sua estrutura, seus processos e seus resultados. E assim conseguem mais clientes e prestar uma assistência melhor.

“Se você não tiver dentro dos hospitais diretores clínicos comprometidos, donos comprometidos, governança corporativa comprometida, você não vai enxergar resultado nenhum. Enfim, o modelo de atuação em hubs vai progredir, tenho certeza, mas ele ainda precisa melhorar”.

Como você mesmo disse, de um lado é preciso arrumar toda a estrutura do cuidado, mesmo sem boas políticas públicas. De outro lado, existe uma lógica financeira que guia as instituições, com muitas delas abrindo capital. É um quebra-cabeça complexo, pois o dinheiro tem um papel protagonista sem necessariamente estar ligado à qualidade…

Francisco Balestrin – Quando você tem modelos de governança corporativa que são sérios, tem conselhos, tem investidores, esses investidores exigem qualidade. Por quê? Porque o dinheiro é medroso. Então, não interessa ter uma instituição que não venda qualidade também. Esse equilíbrio faz com que, dentro das instituições de saúde, exista basicamente dois tipos de governanças. Este é o segredo. A chamada governança corporativa busca eficiência operacional e financeira. Ela quer resultados. Quem que faz isso? O CEO, o CFO ou o investidor que colocou dinheiro lá dentro. Por outro lado, você tem que ter governança clínica, que envolve médicos, enfermeiras, profissionais de saúde que buscam resultados na correção dos problemas das pessoas. Só é possível ter instituições equilibradas quando esses dois lados trabalham juntos. Se a instituição for muito para o lado clínico, pode quebrar. Se for muito para o financeiro, pode não ter qualidade. Esse é o equilíbrio que a gente tem que buscar.

E qual seria o primeiro passo para atacar pensando na sustentabilidade do setor?

Francisco Balestrin – Primeiro é aprender o que é saúde. Se não conhecer aquilo onde vai atuar na sua amplitude, você vai cuidar apenas do seu próprio interesse. Existe um modelo que está aí há anos, mas que está em um processo de transformação agora. A pandemia trouxe uma mudança importante, que é o fato de que as instituições passaram a olhar para o cliente de uma forma empoderada. O cliente hoje sabe que alguma coisa tem que mudar nas instituições de saúde, que elas precisam olhar para ele de uma forma diferente. Seja aquele cidadão que usa medicina suplementar ou aquele que usa a medicina pública. Minha expectativa é que esse processo gere uma discussão do modelo que tivemos até agora. Claro, também pode não acontecer essa mudança, principalmente no próximo ano, que é eleitoral. Vamos ver se esse empoderamento do cliente veio para ficar.

Você acha que os candidatos à presidência falarão mais de saúde? A saúde estará mais na pauta do que já esteve em outras eleições?

Francisco Balestrin – Em todas as eleições os candidatos falam de saúde, mas falam coisas que sabem que não vão fazer, porque no dia seguinte da eleição o dia a dia vira um ambiente de trocas políticas. E um ambiente de troca política, de nomeações, não é um ambiente de aprimoramento técnico.

Mas você não acha que as pessoas hoje têm uma massa crítica maior, que entendem um pouco mais na hora de julgar o que os políticos estão falando sobre saúde?

Francisco Balestrin – Espero que sim, que tenham esta visão mais crítica e saibam cobrar mais sobre saúde. E espero que os políticos sejam mais sensíveis e sinceros em relação ao tema.

Inclusive, falando de saúde pública, muita gente passou a valorizar o SUS. Nessas quatro décadas de experiência na saúde você inclusive viu a formação do SUS…

Francisco Balestrin – Todo mundo tinha expectativas naquele instante da formação do SUS, que hoje se mostra um sólido sistema de atendimento. Tanto que todo mundo viu que o SUS deu sustentação a esse atendimento do coronavírus. A grande questão é que sempre que se fala de estrutura, precisa de recurso e gestão. O sistema público tem uma boa estrutura, mas não tem todos os recursos que precisa. E falta gestão também. O setor privado talvez falhe na estrutura de assistência, que o SUS tem, mas possui uma gestão melhor e mais dinheiro. Então, talvez seria positivo se a gente conseguisse trabalhar os benefícios de um e de outro.

Para terminar nosso papo, queria entender sua visão sobre as healthtechs. Muitas startups estão nascendo com esse foco na transformação digital do setor, mas na sua visão o que isso de fato pode gerar de mudança?

Francisco Balestrin – Primeiro, é que vai trazer acesso a quem hoje talvez não tenha. Segundo, vai trazer a oportunidade para que essas pessoas entrem no mundo de acesso com qualidade. Por exemplo, acessando um hospital através do telefone celular. Mas ao mesmo tempo, muita gente ainda sequer tem conhecimento das ferramentas digitais. São Paulo é uma coisa, mas em locais mais distantes as pessoas não têm esse acesso, não têm esse conhecimento. Para dar esse acesso, precisamos oferecer as ferramentas e as condições. Por isso eu acho que parte disso é superficial, pois muita gente vai buscar essas alternativas e não vai conseguir chegar. Eu morei na Bahia e sempre que vejo essas ondas de mudança eu lembro do projeto Tamar lá na Praia do Forte. De cada cem tartarugas que nascem, só uma consegue chegar ao mar. É um pouco do que está acontecendo. Com certeza novas e importantes alternativas vão surgir. Vários negócios vão crescer, mas apenas alguns vão se consolidar.

Por quê?

Francisco Balestrin – Porque eles vão se mostrar mais importantes do ponto de vista de dar acesso com qualidade e com gestão do sistema, isso é fundamental. Por outro lado, falando do cidadão, nós estamos criando agora uma geração de nativos digitais. A gente precisa esperar esse mundo todo acontecer, mas dentro das injustiças sociais que podem acontecer no nosso país, já existe uma injustiça social muito grande. A pior de todas a partir de agora vai ser se a gente não der acesso digital a essas gerações que estão vindo.

“O mundo vai mudar tanto que, se as pessoas não tiverem acesso ao mundo digital, não vão conseguir todos os outros acessos. Isso é fundamental. Voltando ao comecinho da nossa conversa, de entender a amplitude do que é saúde, é importante que as pessoas tenham a visão que, se nós não dermos acesso digital às pessoas, elas não vão conseguir usar um app. E aí de nada adianta você desenvolver isso. Por isso precisamos ter uma visão macro”.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui