Francisco Balestrin, do SindHosp: “O hospital do futuro será um hub de saúde”

Francisco Balestrin, do SindHosp: “O hospital do futuro será um hub de saúde”

Quando se pensa em saúde, é muito comum que venha […]

By Published On: 19/12/2022

Quando se pensa em saúde, é muito comum que venha à mente a figura do médico ou de um hospital – ou os dois ao mesmo tempo. Foi assim que a maioria da sociedade se acostumou, pois na maioria das vezes é só quando aparece alguma dor, desconforto ou outro problema que as pessoas procuram assistência. A mudança de perspectiva – de olhar para a promoção da saúde ao invés da doença – está em curso, pelo menos do lado das empresas e profissionais do setor. Mas a sociedade está preparada para isso? Este foi um dos temas que Francisco Balestrin abordou no novo episódio do Futuro Talks.

O especialista em saúde pública com mais de 40 anos de atuação no setor é, atualmente, presidente do Sindicato dos Hospitais, Clínicas, Laboratórios e Demais Estabelecimentos de Saúde do Estado de São Paulo, SindHosp, e do conselho do Colégio Brasileiro de Executivos da Saúde, o CBEXs. Ao longo da conversa, ele abordou a necessidade de formação dos profissionais para esse novo cenário – muito mais ligado ao contexto de tecnologia e dados –, a tendência de times assistenciais, a importância da certificação de qualidade assistencial e as prioridades para os novos governos.

Balestrin também explorou como será o hospital do futuro, que segundo ele deverá ser uma instituição muito mais inserido em um hub de saúde, como parte de uma rede assistencial formada por instituições de diversos níveis – da alta complexidade ao atendimento primário –, descentralizando e distribuindo as responsabilidades. Confira a entrevista a seguir:

Há um relatório da McKinsey que diz o seguinte: ao combinar a telemedicina com a adaptação do ambiente domiciliar, conforme as necessidades do paciente, o cuidado será centralizado em casa e não mais no hospital. Como você enxerga o futuro dos hospitais?

Francisco Balestrin – Esses estudos são feitos desde 2013, 2014. Existem outros que vão em direção a isso que a McKinsey colocou, mas eu acho que nós temos que posicionar e adequar para as nossas realidades. Eu digo ‘nossas realidades’, porque o Brasil não é uma realidade só. O principal estudo que fala a respeito disso foi feito em Barcelona, onde se definiu 14 itens específicos de como seria o futuro do hospital e o hospital do futuro. Entre outras coisas, coloca-se também que nesse mundo de saúde digital, é claro que você vai ter esses instrumentais todos, no sentido de que você possa aumentar o acesso do cidadão, sem que necessariamente ele precise se dirigir e se direcionar às instituições de saúde. Mais do que isso, você tem outros aspectos que tem a ver com o fato de que não precisa ser atendido em instituições de referências. Essas instituições de referência serão hubs, que terão ligados a eles um conjunto grande de outras instituições de menor complexidade e, ligadas a essas, outras instituições de atendimento mais primário. Isso tudo porque, no fundo, o hospital do futuro tem que estar dentro de uma rede assistencial. Será impossível você encontrar instituições como nós temos hoje no nosso país, por exemplo, onde você tem uma instituição absolutamente isolada. Isso não há de acontecer, isso é o ponto de vista do futuro.

Talvez o espaço físico perca um pouco o protagonismo para que a rede em volta dele seja mais relevante para acompanhar toda essa jornada do paciente? É esse o desenho do hospital do futuro?

Francisco Balestrin – É esse o desenho que se espera mesmo. Quando você vai para locais como a Europa, Estados Unidos e mesmo aqui, nos centros tecnológicos e técnicos que nós temos no nosso país, nós conseguimos fazer isso. Mas em rincões onde você tem uma ausência até sanitária, você não pode levar esse modelo a ferro e fogo. Então, o nosso país, cheio de contrastes e contradições, vai conviver com modelos que são altamente tecnológicos e nós sabemos quais são os hospitais, onde a medicina no nosso país acontece exatamente igual ou melhor do que em países de primeiro mundo. Por outro lado, vamos continuar a ter esse processo em que a instituição faz parte da vida do cidadão. Tem um aspecto do hospital do futuro que precisamos trazer sempre que é a questão da discussão do profissional de saúde que vai estar nessa nova instituição.

E como será esse profissional?

Francisco Balestrin – Ele vai ter que ser necessariamente diferente não daquilo que ele é hoje, mas da forma como ele é formado e de como ele opera no dia a dia. Primeiro, ele vai ter que ser um profissional ligado às questões tecnológicas; segundo, ele vai precisar ter uma autonomia maior porque vai trabalhar à distância e hoje ele trabalha dentro de instituições onde tem um conjunto grande de pessoas dando suporte a ele; depois, nós, hoje, temos uma carência de profissionais de saúde. Um estudo grande feito pelo Head de Saúde da KPMG mostra que nós vamos ter um ‘gap’ muito grande de profissionais de enfermagem no mundo como um todo nos próximos 5 ou 10 anos. Como é possível fazer isso? Com tecnologia, proporcionando esse acesso através de ferramentas, como a telemedicina, que vai ajudar não só o médico, mas sim o profissional de saúde, a desempenhar a sua função. É importante, neste mundo atual, nós entendermos que a saúde não é feita só pelo médico.

A sociedade começou a perceber o valor dos outros profissionais de saúde além do médico?

Francisco Balestrin – Falamos hoje muito no chamado time assistencial. Imagine um time de futebol. Você tem um centroavante marcando os gols, mas tem uma série de outras pessoas que fazem parte do time e que são igualmente importantes. Não vai ter alguém fazendo gol se esse time não estiver estruturado, preparado, com pessoas treinadas, competentes e com cada um fazendo seu papel. O atendimento aos pacientes também precisa estar dentro de um ambiente de time assistencial, porque quando você se dirige a uma entidade de prestação de serviços de saúde, você sempre vai ter lá uma equipe trabalhando. Muitas vezes você vai ter aí a intervenção do médico quando isso é mais crucial, até porque ele tem formação para fazer essas intervenções, mas não significa que ele deva fazer outras intervenções que sejam mais focadas, por exemplo, na saúde. O médico trabalha hoje muito em cima da doença. Nós precisamos atuar em cima do chamado time da saúde. E os novos hospitais vão fazer parte exatamente disso, dessas redes de saúde.

E por que que eles vão se inserir nessas redes?

Francisco Balestrin – Porque muito daquilo que é importante em uma rede assistencial, desenvolvimento tecnológico, formação de recursos humanos, desenvolvimento de inovações, eles acontecem dentro dos hospitais, porque são os locais mais adequados para que isso ocorra. É lá que tem concentração de recursos humanos, que estão os melhores salários, que, de alguma forma, as pessoas estão concentradas, focados dentro dessa percepção. Inclusive processos assistenciais. Você vai criar processos assistenciais que vão ser utilizados pelas redes dentro das instituições hospitalares. Antigamente se falava muito na chamada rede hospitalocêntrica, que no fundo tinha mais a ver com uma ambiência ideológica entre aqueles que frequentavam o mundo do sanitarismo e aqueles que frequentavam o mundo da assistência direta. Isso acabou, porque se percebeu que a saúde não é propriedade de uma ou de outra visão. A saúde é um percurso horizontal que começa na promoção, vai para a prevenção, para assistência direta, que é quando você, de alguma forma não obtém sucesso nem na promoção na prevenção, e a doença aparece. Por último, você tem a chamada recuperação, que são para aquelas pessoas que já saíram do hospital e precisam de algum grau de reabilitação. Hoje também se coloca dentro desse mesmo ambiente de horizontalização tudo aquilo que você faz de atenção e de atendimento paliativo aos clientes. A saúde tem que necessariamente ter essa percepção. E o profissional de saúde também tem que mudar e cada vez mais vai aprender a trabalhar dentro do time assistencial.

A sociedade está disposta a mudar a mentalidade para aceitar ser atendido ou acompanhado por um time? Do ponto de vista de quem fala sobre saúde, como motivar ou ensinar para as pessoas que esse é o novo caminho e que talvez seja mais sustentável.

Francisco Balestrin – Para fazer esse raciocínio, precisamos voltar para os primeiros momentos de pandemia, onde uma série de coisas aconteceu. Nos demos conta de que as pequenas ‘tecnologias’ eram tão ou mais importantes que as grandes tecnologias, como o uso de máscara, a lavagem de mãos, uso de álcool e assim sucessivamente. A segunda percepção foi que a gente viu que existe um certo grau de solidariedade entre os cidadãos. Mais do que solidariedade, uma interdependência. Isso gerou, entre outras coisas, uma curiosidade em relação à saúde, porque até então, a curiosidade das pessoas meramente era o câncer, a doença mais grave que gerava exatamente essas preocupações de ter o seu especialista. Mas a gente também começou a valorizar um infectologista, passamos a valorizar todo o time de pessoas que de alguma forma se interpunham neste atendimento. Vocês se lembram o que acontecia há 1000, 900, 700 dias atrás? Filas, tragédias. E sentimos o papel da enfermagem e dos outros profissionais de saúde. Ou seja, o time assistencial começou a se valorizar exatamente nesse atendimento de massa. Mas o cidadão também passou a ter uma percepção de que saúde era uma coisa importante para ele, não só no período que você discute eleitoralmente as questões no nosso país, mas também naquele que tinha a ver com o dia a dia. Por que eu nunca aprendi na escola, ou por que os meus filhos não aprenderam a questão de saúde? Isso é uma questão que a gente tem que se perguntar. O fato de não conhecer saúde enquanto um tema educacional, infelizmente faz com que nós tenhamos essa visão que é quase uma visão de WhatsApp, que agora é o grande elemento de formação e de fonte de consulta das pessoas.

E deve ser visto com preocupação, certo?

Francisco Balestrin – Claro, nós vimos o que passamos. O país das fake news… acho que o mundo virou, não é? Mas aqui para nós, os resultados foram mais deletérios. Por tudo aquilo que passamos nesse período, era de se esperar que o cidadão entendesse que saúde é uma coisa fundamental para ele; para os pais e para as mães, que vacinação era importante; que as meninas tinham que ter assistência e conhecimento das ações ginecológicas; que os meninos tinham que conhecer todas as patologias urológicas que, eventualmente, poderiam fazer parte do dia a dia. É claro que é importante você ter, por exemplo, um Outubro Rosa, mas isso não significa que a nossa sociedade entenda isso só de tempos em tempos. Só se faz mamografia em outubro? Só se tem preocupação urológica em novembro? Esse não é aspecto que seria esperado em uma sociedade que tem conhecimento. Achei que nesses 1000 dias de pandemia nós íamos ter um estímulo da cidadania em relação à discussão de saúde. Mas no fundo, nós passamos 90 dias de campanha política sem que o tema saúde tenha voltado à baila. Não se discutiu saúde, a única coisa que se discutiu foi a compra de vacinas, se ela foi bem ou mal encaminhada, mas isso não é discutir saúde.

Como você viu esse momento eleitoral?

Francisco Balestrin – Saúde é o tema número 1 de preocupação das pessoas, mas não é o tema número 1 de atuação das políticas públicas. Por quê? Eu não sei. Certa vez perguntei para um político o que dava mais trabalho para ele, saúde ou educação? Ele falou: educação. “Porque quando as pessoas ficam doentes…”, e aí já vem a primeira percepção de novo das pessoas: saúde só existe quando alguém fica doente, aí que vira preocupação, antes não é. Você vê que a preocupação ainda é a doença, só que a doença, da forma como vemos hoje no dia a dia, é uma questão individual. Quando alguém fica doente, o dano é individual, porque assim vê a sociedade. Quando você fala de educação, o menino precisa ir para a creche, ir para uma escola próxima da região onde ele mora, precisa ter a vaga garantida. E se isso não acontece, isso é um dano coletivo para a família, porque a mãe não pode trabalhar, o avô fica preocupado, o pai às vezes tem que faltar no trabalho para poder levar a criança na escola ou ficar porque a creche não está funcionando.

Esses efeitos ainda não estão tão claros na saúde?

Francisco Balestrin – É um custo individual. Isso só mostra que saúde não tem esta repercussão que nós achamos que tem. Muitas vezes nós só falamos sobre isso, então achamos que o mundo gira ao redor da saúde. Mas no fundo, o que acontece é que a sociedade, os políticos, os gestores, não acham isso.

E o que nós temos que fazer para eles acharem?

Francisco Balestrin – Começar uma nova geração de pessoas que passem a entender saúde como uma questão do dia a dia delas. É o que faziam, por exemplo, os padres jesuítas quando eles queriam mudar a filosofia das famílias indígenas que estavam aqui. Eles pegavam os curumins, jovens crianças, e ensinavam a escrever, ensinavam preceitos religiosos etc., e quando elas iam para família, levavam isso. Teoricamente, se esperava que esta geração já estivesse preparada para isso e que elas teriam alguma influência em casa. Aliás, quando eu estava na Anahp, a gente tentou fazer um projeto. Em 2006, o Brasil perdeu miseravelmente a Copa do Mundo. Fui conversar com o pessoal da CBF. Perguntei “nós temos como ajudar? Queríamos fazer a mesma coisa que fizeram na Alemanha”. Os jovens meninos e meninas alemães na mais tenra idade começaram a participar de projetos organizados pela federação alemã, um projeto educacional. As crianças gostam de futebol e querem aprender, mas elas vão ter que estudar, ter condições de saúde adequadas, condições de alimentação adequada. Eles montaram clusters de formação de jovens que, para aprender futebol, tinham que ter todas essas outras condições e nós iríamos entrar exatamente com o aspecto hospitalar, de saúde. Conversamos com várias instituições em diferentes estados brasileiros, e nesses estados onde a CBF fosse montar uma academia de futebol, você teria exatamente eles estudando na escola, haveria um boletim adequado, uma condição de alimentação e de saúde. Já estávamos fazendo um programa de saúde para meninas e meninos aprenderem sobre todos os problemas que poderiam enfrentar do ponto de vista de saúde, de vacinação etc.

E isso avançou?

Francisco Balestrin – Para quem assistir aquele filme “FIFA” que está na Netflix, vai ver que era um projeto que estava avançando, foi legal, mas aí todo mundo foi preso e o projeto parou. Mas esta semente está aí. Quem quiser criar uma geração de novos e valorosos brasileiros e brasileiras, temos caminhos para fazer isso.

Mas de modo geral, você acha que a gente caminhou bem ao longo desses últimos tempos? O que precisamos fazer para avançar mais?

Francisco Balestrin – O que nós evoluímos? Pensando em um iceberg, tudo que está acima do nível do mar, nós evoluímos. Nós evoluímos na discussão de tecnologia. Na discussão do mercado privado de saúde, enquanto um evento econômico, financeiro, industrial, de uma forma muito positiva, a ponto de que hoje nós temos um mercado de capitais que sustenta esse tipo de divisão. Avançamos no desenho de profissionalização deste mercado. Avançamos na formação de profissionais médicos, de outras especialidades e visões. Temos boas universidades. Por outro lado, abaixo desse nível do mar, temos exatamente tudo isso ao contrário. O que é que se espera de um profissional de saúde? Que ele tenha não só uma formação técnica, mas também uma formação um pouco mais holística. A visão da sociedade, a visão da empatia, a visão da compaixão, do entendimento. Eu acho que nós perdemos bastante nesse período por conta da estrutura de formação médica da faculdade de medicina, onde ela se transformou em uma formação como outra qualquer. Não gostaria que o profissional médico fosse formado como outro profissional qualquer, porque eu posso ter um filho que seja atendido por alguém, eu posso ser atendido por alguém. Então, quando você espera encontrar um profissional médico, você está esperando encontrar alguém que vá, em primeiro lugar, lhe dar guarida e vai ter um entendimento seu. Hoje, da forma como essa formação está acontecendo, ela tem muitos gaps. Todos esses que eu falei, mas eu diria que o principal é exatamente o gap onde o profissional médico perdeu a sua competência técnica e tecnológica. Eu não estou criticando o profissional médico do modo geral, mas estou dizendo que na formação ele está perdendo isso.

O que é perder a competência técnica e tecnológica?

Francisco Balestrin – Ele está muito na tecnologia que é a tecnologia armada, que é pedir a tomografia, ressonância, ultrassom etc. Ele se resguarda com o que tem. Mas os instrumentais necessários para usar a tecnologia, a interoperabilidade de dados, a inteligência artificial, a capacidade de usar todas essas coisas para chegar a um diagnóstico, e ao mesmo tempo, conhecer isso é muito aquém ainda.

Ele precisa ter uma retaguarda, um estudo muito grande para conseguir operar toda dessa tecnologia?

Francisco Balestrin – Sim, eu sou usuário de telefone celular, de smartphone, como todos nós somos. Mas assim, se eu fosse um profissional da área, eu teria que saber utilizar todos aqueles atributos técnicos e tecnológicos que você tem no equipamento para poder gerar conhecimento, diagnósticos, uma série de coisas. Você tem muita tecnologia à disposição, mas essa tecnologia às vezes ela é utilizada de uma forma simplória. O ponto de vista de saúde digital é um dos melhores legados que temos nesta modernidade toda, ele precisava ter um olhar diferente para utilizar isso. Tecnologia não é pedir exame. Por outro lado, muitas dessas escolas de medicina não têm aquilo que é fundamental para a formação do médico. Hospitais universitários, professores universitários, conhecimento gerado. Nós temos hoje um número quase inacreditável de faculdades de medicina, mais de 400. Só a Índia tem mais faculdades de medicina do que nós temos. Nós estamos formando algo em torno de 50 mil médicos por ano.

Mesmo assim especialistas apontam que falta médico.

Francisco Balestrin – Eu sinto que esses médicos faltam no que eu chamei de vazios sanitários. E eles faltam basicamente pelo fato de que não existem atrativos educacionais e técnicos para que eles possam estar lá. Mas isso se resolve com a tecnologia. A Organização Mundial de Saúde fala em um médico para cada mil habitantes. São Paulo tem um médico para cada 200 pessoas. No mercado público, se eles não tiverem formação e, consequentemente, opção de mercado, eles vão acabar de alguma forma encontrando subempregos, como acontece às vezes na sua área que é o jornalismo. A grande questão é que nós, profissionais médicos, deveríamos nos preocupar com a formação, com a qualidade do profissional que está do outro lado. Tenho conversado com os nossos colegas médicos, principalmente Associação Médica Brasileira, da Associação Paulista de Medicina, que nós precisamos, de tempos em tempos, checar a qualidade desses profissionais que estão sendo primeiro formados e aqueles que são já são formados. Eu tenho 40 anos de formado. Nunca depois que eu me formei eu fiz alguma avaliação.

O que tem de avaliação é só nas universidades?

Francisco Balestrin – O que você tem é a avaliação do MEC sobre os programas de formação. Mas ela não diz respeito ao médico formado, por exemplo. Isso acontece em todas as outras profissões, mas especificamente, estamos discutindo sobre o médico. É importante que tenhamos uma avaliação da formação do profissional médico durante a sua escola. Que a cada 2, 3 anos ele seja submetido a uma prova. Ao final do curso, ele tem que ser submetido a uma prova de proficiência para provar que ele aprendeu medicina. Porque senão ele vai sair para o mercado e vai poder fazer da ema ao beija flor. Ele vai poder se apresentar para o mercado como cardiologista, neurologista, parteiro, o que ele quiser.

Qual é a dificuldade de criar essa avaliação que você está propondo?

Francisco Balestrin – Consenso. E percepção do quanto isso é importante. Temos forças que se movimentam nisso. Aqui eu estou te dando uma opinião exclusivamente técnica. Porém, você tem uma série de percepções políticas, comerciais, às vezes até técnicas que veem isso de uma forma diferente. Então, falta o consenso e, na minha opinião, falta alguém ou uma entidade, ou um grupo ou algo que levante essa discussão, porque você não ouve essa discussão na sociedade. Eu não vou ver essa discussão, a não ser dentro dos meios acadêmicos, dos meios associativos. As sociedades médicas estão olhando para isso, assim como as entidades médicas, os bons aparelhos formadores de profissionais de saúde. Mas essa não é uma discussão que ainda existe na sociedade como um todo.

O quanto o olhar do mercado privado poderia contribuir para mudar o cenário de desigualdades e entrar, por exemplo, no SUS?

Francisco Balestrin – Eu vejo de uma forma muito positiva. Sempre achei que esse era um dos caminhos, tanto é que sempre fui a favor das chamadas participações público-privadas, em que instituições públicas poderiam ser gerenciadas por instituições privadas. E isso acontece bastante, mas não em São Paulo. São Paulo sempre fez uma terceirização de gestão através das OS [Organizações Sociais], porque quando você faz uma participação público privada, você tem um desenho onde muitas vezes os investimentos são longos. Consequentemente, quem faz o investimento quer um período maior e tem que ter um compromisso de que esses recursos serão gerados para o pagamento dessa chamada PPP. Só que como você faz um investimento, você precisa primeiro fazer com que isso tenha uma visão de temporalidade. Não dá para fazer um contrato de 2 anos, então você tem que prover e prever isso em 20 anos, 25 anos, 30 anos. Então, você faz projetos financeiros de estado e não de governo, onde, por exemplo, todo o resultado, uma parte das contas de energia elétrica que são pagas para aquele estado ficam reservados para pagar este procedimento ou a participação daquele governo, daquela cidade no Tesouro, daquilo que ele recebe, uma parte aguardada para isso. Mas pode ser que um governo que esteja aqui hoje não queira esse negócio mais para frente, porque ele quer mudar ou porque acha que não vai ter recurso. Isso acontece. Por isso que se optou principalmente por esse projeto de terceirização de serviços de saúde que aqui em São Paulo a gente chama de PPP, mas não é PPP. É uma terceirização. Porque se o próximo governo que entrar quiser acabar com todos esses projetos, ele pode.

Mas está mudando essa visão para olhar para o longo prazo?

Francisco Balestrin – Não tenho visto isso. Eu tenho visto poucos projetos em relação a isso. Todos os grandes projetos não aconteceram, principalmente por conta dessa contradição entre estado e governo, que aliás nós passamos todos esses últimos tempos aí vendo. Então a PPP, que seria talvez uma das alternativas de criarmos uma operação adequada, muitas vezes não sai por conta disso.

Você acha que agora estamos indo por um caminho que a saúde vai ter um protagonismo?

Francisco Balestrin – Lá no SindHosp, resolvemos fazer uma proposta de saúde para entregar para os diversos candidatos ao governo do estado de São Paulo. Essa proposta também serve para o governo federal. A primeira percepção foi que nós precisamos entender quais eram os principais diagnósticos de problemas que existiam no nosso estado. A segunda foi que nós chamássemos um grupo de experts para que eles nos trouxessem essas percepções e junto com eles, nós trouxemos também os candidatos a governador para que eles, antes de qualquer coisa, dissessem qual era a visão de saúde de cada um. Nós começamos a fazer isso em junho de 2021. Ou seja, não foi aquela coisa que as instituições fazem de “vamos fazer uma proposta agora em fevereiro que já está começando o ano” ou “vamos fazer uma proposta agora que o governador está aí”. Não, foi feito exatamente com esse sentido estruturante, que de alguma forma poderia servir como uma trilha de caminhos a seguir. Quando o projeto ficou pronto, entregamos de novo para cada um dos candidatos pessoalmente, e todos se comprometeram a seguir aquelas trilhas. As trilhas não são muito distintas de todas as propostas que foram feitas, porque hoje não há ninguém que não diga que a gente tem que apostar na saúde digital. Nós começamos a nossa conversa com isso. A saúde digital é importante porque ela traz acesso, traz a capacidade das pessoas de serem acolhidas no sistema, traz a capacidade de você fazer com que profissionais, estruturas e desenhos de saúde aconteçam à distância e, mais do que isso, você traz facilidades, como a marcação de consultas, atendimentos na telemedicina, diminuição de filas, gestão de filas. Você não tem ideia da quantidade de procedimentos médicos estão represados nas diferentes regionais de saúde no estado.

E não tem como nenhum novo governante não olhar para isso.

Francisco Balestrin – Claro. Então ele precisa desta deste ferramental para que ele possa, de alguma forma, produzir coisas que sejam adequadas para o cidadão, porque não adianta você ficar fazendo mais hospital. A gente acabou de começar dizendo que o futuro do hospital vai ser não ser um hospital. Então, por que eu ainda estou fazendo novos hospitais? Esse é um aspecto. O segundo aspecto é a qualidade assistencial. Não adianta de forma nenhuma você dar acesso se esse acesso não for de qualidade. Esta qualidade é fundamental. Nos Estados Unidos, 90% dos seus hospitais são certificados. Eles têm um título, uma acreditação de uma terceira parte que diz que os padrões, as estruturas, os procedimentos, os processos e os resultados assistenciais que acontecem nessa instituição são checados, estão analisados e dentro de rotina. Então, se nada der errado, esse hospital tem qualidade.

Mas no Brasil não temos tantos hospitais certificados assim.

Francisco Balestrin – Nós temos algo em torno de 6200 hospitais. Só 400 são certificados. Você não tem padrão de qualidade, nem público nem privado. Então, por que o Estado não investe em qualidade? Lá nos Estados Unidos, o estado tem dois programas, o Medicare e Medcaid, um para pessoas de mais baixa renda e outro para idosos, que atende mais de 40% da população americana. E para as instituições serem credenciadas, tem que ter acreditação. O próprio estado diz: “Olha, como é que eu vou entregar para você o cuidado do cidadão americano que eu estou pagando, se você não me garantir qualidade mínima?”

Você acha que agora os novos governantes estão olhando para isso? Você acha que estamos mais abertos?

Francisco Balestrin – Enquanto otimismo, eu tenho certeza de que está todo mundo olhando isso, mas seria muito bom que esse meu otimismo melhorasse, que o cidadão começasse a cobrar isso, que através do trabalho da mídia a gente começasse a colocar na cabeça de cidadão a dúvida de “essa instituição é acreditada?”. E que comece a haver uma cobrança sobre o secretário de saúde, o gestor de saúde, do plano de saúde.

Quais pautas a gente tem que ficar de olho na saúde em 2023?

Francisco Balestrin – Sob o ponto de vista de qualidade, o público e o privado são iguais, ambos têm que ser cobrados por isso. Sob o ponto de vista do público, o cidadão precisa cobrar um encaminhamento mais rápido das questões de saúde dele, precisa cobrar que o conceito de saúde é necessariamente diferente do conceito de doença, precisa estar atento ao fato de que a sociedade precisa inicialmente, não ficar doente. Em terceiro lugar, por incrível que pareça, eu acho que o cidadão precisa focar na vacinação. Nós, que já tivemos o melhor programa nacional de imunização, de repente estamos com risco de novo de poliomielite, sarampo, doenças erradicadas, e que são prevenidas através de vacinação. E os pais não têm se dado conta disso, muitos deles têm se informado através desse desenho de fake news e viraram antivacinas. Isso não faz sentido nenhum. É incrível alguém achar que a vacina faz mal. A questão da vacinação, por incrível que pareça, entra como pauta para 2023 e a sociedade tem que cobrar dos governantes e muitas vezes um olhar um pouco mais moderno e científico, de grupos e divisões religiosas que também precisam se iluminar um pouco em relação a isso. Por exemplo, HPV é uma vacina que está à disposição para meninas e meninos e não faz sentido não tomar. Não é só o nosso filho ou o nosso neto ou o nosso sobrinho ou nosso amiguinho, é a sociedade como um todo. Aliás, aquela pauta que eu falei para você que aquele político famoso me disse que a saúde era uma coisa individual, é necessário que ela se torne uma pauta coletiva.

Natalia Cuminale

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, com as reportagens, na newsletter, com uma curadoria semanal, e nas nossas redes sociais, com conteúdos no YouTube.

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