Tratamento, acesso e cuidado integral do paciente com câncer de rim

Tratamento, acesso e cuidado integral do paciente com câncer de rim

Março é o mês do Dia Mundial do Rim. Anualmente, […]

By Published On: 15/03/2023
Artigo de Fernando Maluf sobre câncer de rim

Março é o mês do Dia Mundial do Rim. Anualmente, a campanha que defende a “Saúde dos Rins para Todos” informa sobre prevenção, diagnóstico precoce e tratamento adequado para as doenças deste órgão tão importante para o funcionamento do organismo. No Brasil, o Instituto Nacional de Câncer não divulga, em suas estimativas oficiais, os números previstos de novos casos de câncer de rim. A falta de dados e estatísticas sobre uma doença tende a prejudicar a difusão de informações epidemiológicas, a organização de estudos e estratégias de abordagem e cuidados. Calcula-se que as neoplasias renais correspondam a 3% de todos os tumores malignos. A doença é duas vezes mais comum nos homens do que nas mulheres e geralmente acomete pessoas entre os 55 e 75 anos.

Conhecer melhor os pacientes é uma estratégia relevante para propor uma linha de cuidados eficiente. Assim, é possível garantir a “Saúde dos Rins para Todos”. No caso do câncer, por exemplo, são várias as novidades que podem beneficiar milhares de pessoas e garantir melhor qualidade de vida. No entanto, ainda precisamos discutir o acesso a esses avanços e o manejo da doença.

No último congresso da Sociedade Americana de Oncologia Clínica voltado a tumores geniturinários (ASCO-GU) foram divulgados novos tratamentos e combinações de terapias que prometem melhores desfechos e trazem esperança aos profissionais de saúde e aos pacientes. Os trabalhos também evidenciaram a necessidade de um debate maior sobre a promoção dos cuidados e de uma nova abordagem dos efeitos das terapias.

No evento, realizado em fevereiro, foi apresentada a atualização de um importante estudo que comparou a associação do imunoterápico nivolumabe (que bloqueia uma proteína inibitória do tumor frente ao linfócito, estimulando o trabalho da célula de defesa) com o cabozantinibe (bloqueador mais moderno dos vasos sanguíneos que levam oxigênio e alimento ao tumor) versus o uso de sunitinibe, um bloqueador da angiogênese mais antigo.

A pesquisa avaliou em 651 pacientes a combinação no nivolumabe com cabozantinibe frente ao sunitinibe. Os resultados mostraram que a associação reduziu o risco de progressão da doença e morte em 42%. Também houve um aumento da sobrevida global em 30%. A pesquisa ratifica o papel da imunoterapia moderna no tratamento do câncer renal metastático em associação com bloqueadores da angiogênese.

Controle da ansiedade e da fadiga para melhorar o tratamento

Outra pesquisa que mereceu destaque e incluiu a participação de centros brasileiros analisou o papel de técnicas de mindfulness para diminuir ansiedade e melhorar a qualidade de vida dos pacientes com câncer renal avançado, tratados com imunoterapia.

Os pacientes eram atendidos virtualmente, cerca de 30 minutos diários, por pelo menos 4 semanas. O que foi visto é que os sintomas de ansiedade claramente melhoraram, bem como houve melhora dos relatos de fadiga.

Os resultados comprovam que sintomas e efeitos do tratamento podem ser manejados, também, com intervenções de baixo custo e aplicadas remotamente.

As variáveis sociais no acesso aos tratamentos de câncer de rim

Outro estudo muito interessante do ponto de vista epidemiológico avaliou a escolha da estratégia cirúrgica para o câncer de rim. A análise envolveu um banco de dados com mais de 31 mil pacientes e mostrou que indivíduos negros tiveram menos chance de receber o tratamento menos radical. O mesmo foi verificado entre pacientes sem convênio médico ou plano de saúde de menor qualidade.

A estratégia de cirurgia mais conservadora no rim – chamada nefrectomia parcial – apresenta algumas vantagens frente a retirada total do órgão – a nefrectomia radical. Um rim único é associado a um maior número de complicações cardiovasculares e metabólicas, por exemplo.

A nefrectomia parcial está indicada para tumores de até 7 cm e é associada a uma igual sobrevida relacionada ao câncer, mas uma melhor sobrevida global. No entanto, é mais complicada em termos tecnológicos e pode apresentar custos mais elevados.

Os resultados da análise demonstram como a inequidade no acesso à saúde pode ter impacto direto no prognóstico. Questões raciais e socioeconômicas impedem o paciente de receber um tratamento cirúrgico tecnicamente mais complexo e mais caro, mas que poderia evitar diversas complicações a longo prazo.

Fernando Maluf

Diretor Associado do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo, membro do Comitê Gestor do Centro de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein e fundador do Instituto Vencer o Câncer. É formado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde hoje é Livre Docente. Possui Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e especialização no Programa de Treinamento da Medical Oncology/Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em New York.

About the Author: Fernando Maluf

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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    Equipe de jornalistas da redação do Futuro da Saúde.

  • Fernando Maluf

    Diretor Associado do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo, membro do Comitê Gestor do Centro de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein e fundador do Instituto Vencer o Câncer. É formado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde hoje é Livre Docente. Possui Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e especialização no Programa de Treinamento da Medical Oncology/Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em New York.

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