Femtechs conquistam espaço e prometem ser um mercado promissor

Estima-se que o Brasil tenha 23 startups focadas em mulheres. Entre as categorias, a mais bem explorada até o momento é fitness & bem-estar, com oito empresas – seguido por acesso à saúde, engajamento do paciente, diagnóstico, farmacêutica, medical devices e rede de clínicas.

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Saúde feminina nunca foi prioridade. Essa foi a conclusão do Inside Healthtech Report, relatório publicado em maio deste ano pelo hub Distrito. O estudo foi feito com um zoom nas femtechs, as startups com foco nas mulheres, e mostrou que elas se apresentam como uma tendência – mas nem sempre foi assim.

Os números oferecidos pelo relatório reforçam isso: apesar de oscilar bastante, hoje existem cerca de 23 startups no Brasil focadas em mulheres. Entre as categorias, a mais bem explorada até o momento é fitness & bem-estar, com oito empresas – seguido por acesso à saúde, engajamento do paciente, diagnóstico, farmacêutica, medical devices e rede de clínicas.

Entre os nichos mais explorados, no Brasil e fora dele, dois opostos se destacam: infertilidade e controle de natalidade. Como uma tendência aparece a menopausa, um tabu mesmo nos dias de hoje. Na análise de Lilian Natal, head da Distrito, “existe um gap em todas as áreas quando falamos em saúde da mulher. O investimento em pesquisa e tecnologia ainda é muito baixo no Brasil. Quando você olha para isso, vê grandes oportunidades em diversas áreas”. 

O objetivo dessas femtechs é o mesmo: com inovação e tecnologia, atender desafios sem resposta no mercado convencional.

Corpo feminino precisa de olhar individualizado

femtechs saúde da mulher

Apesar das variações hormonais e biológicas entre os sexos, por muitos anos o corpo feminino foi estudado como um corpo masculino menor. Isso porque muitas pesquisas realizadas ao longo dos anos não eram protagonizadas por mulheres. Assim, na hora de pôr um produto no mercado, ele era testado com corpos masculinos. Depois, era mudada a dosagem, assumindo que o corpo feminino era igual, mas com menos peso.

“Os corpos femininos, pelas variações hormonais, trazem maior variabilidade nos resultados. Então é mais caro incluir ratos e corpos femininos [nos testes]. Foi aí que nasceu esse viés. Se os hormônios traziam diferença nos resultados, no mundo real também há variação de reações”, explica Stephanie Von Staa Toledo, criadora da Oya Care, uma clínica virtual ancorada na saúde preventiva da mulher.

A ideia de fundar a femtech nasceu quando Stephanie tinha 30 anos, morava fora do Brasil e caminhava para o terceiro burnout. Há um ano, após muito observar no exterior, ela decidiu que o primeiro foco da sua empresa seria a fertilidade. A Oya Care oferece o exame HAM, que mostra a dosagem do hormônio antimülleriano, o principal indicador de reserva ovariana. Em outras palavras, é o “estoque” de óvulos que a mulher ainda possui. O valor pago também inclui uma consulta com especialista, que ajuda a paciente a decidir o melhor a ser feito naquele momento.

“As mulheres estão adiando a gravidez e isso é nacional, não é um recorte de classe social específica. Hoje temos o dobro de mulheres que se tornam mães acima dos 30 anos do que tínhamos há dez anos. E a nossa biologia não é hiper preparada para sermos mães acima de uma certa idade. Nossa fertilidade acaba cedo, no ponto de vista da vida hoje. Estamos vivendo esse comportamento social muito no escuro”, avalia Stephanie. 

Segundo ela, esse movimento de emancipação feminina é importante: “A medicina tratou muito a mulher como uma média. Por exemplo: a mulher acima de 35 anos tem dificuldade para engravidar. Mas a média é um conceito matemático e tudo o que seu corpo não é, é a média. Seu corpo é o seu corpo e é preciso um olhar individualizado para uma questão tão séria”.

Femtechs: potencial de mercado de US$ 50 bilhões

As observações de Stephanie no mercado internacional não foram à toa: o número de femtechs chega a 200 no mundo todo. Essa quantidade pode até parecer baixa. Mas, quando vista a longo prazo, é nítido que o cenário amadureceu bastante nos últimos anos.

Foi apenas há 11 anos, em 2010, que as primeiras startups que trabalham com saúde da mulher no Brasil foram criadas – antes mesmo do termo femtech ser cunhado, em 2013, pela empreendedora alemã Ida Tin, criadora do aplicativo Clue. Hoje, o potencial de mercado até 2025 é de US$ 50 bilhões no mundo, conforme projeções da consultoria Frost&Sullivan.

Tanto os Estados Unidos quanto a Europa vivem, de fato, um outro momento. Conforme as projeções, pode ser visto como um exemplo do que o Brasil deve enfrentar em breve. Para Stephanie, os três mercados são bem distintos. E nessas diferenças é que estão as oportunidades:

“Na Europa a gente já vê muita femtech de nichos específicos. Uma para ovário policístico, outra para temperatura feminina. Nos EUA a gente vê que quem se sustenta é quem consegue diversificar o portfólio de serviços. A mulher vai para falar de fertilidade, depois para falar de HPV, volta para falar de filhos. Quem faz esse movimento tem mais sustentabilidade econômica a longo prazo. No Brasil, ainda é o começo. Acho que a gente vai começar com coisas nichadas e quem vai se perpetuar é quem conseguir adicionar outros serviços ao portfólio”. 

femtechs saúde da mulher

Mulheres precisam de mais espaço no ecossistema de inovação

Para Lilian Natal, da Distrito, é impossível falar do futuro das femtechs sem falar de espaço no mercado – mais oportunidades para que mais startups criadas e lideradas por mulheres cresçam, se desenvolvam e captem investimento: “No próprio relatório da Distrito você vê que menos de 5% das startups do Brasil inteiro são fundadas por mulheres. Mesmo somando times mistos, ainda dá menos de 10%. Quando você faz um raio X das empresas investidas é pior ainda: 0,04% delas são fundadas exclusivamente por mulheres”. 

Há ainda outro desafio na hora de apresentar projetos focados, principalmente, na saúde da mulher. “Quando você apresenta para um fundo de investimentos formado 100% por homens, há falta de reconhecimento e empatia. As mulheres, em geral, recebem mais perguntas detratoras. Os homens, promotoras. Além desse viés inconsciente, como um homem vai identificar se uma solução para um problema exclusivo da mulher é uma dor para o mercado? Então, as mulheres precisam também preencher mais espaço em todas as cadeias do ecossistema de inovação”.

Femtechs são ponta de iceberg na tecnologia

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As femtechs seriam, então, apenas a ponta de um iceberg muito maior que pede mais fomento de todo um gênero na tecnologia – desde incentivo para que as mulheres optem pelo empreendedorismo, de fato, e não sejam colocadas na modalidade pela falta de opção diante da crise, até construir mecanismos para que elas possam prosperar no mercado. 

É neste lado que atuam iniciativas como aceleradoras e a B2Mamy, uma empresa de educação digital que capacita e conecta mães ao ecossistema de inovação e tecnologia para que elas sejam líderes e livres economicamente. De acordo com Dani Junco, fundadora e CEO da empresa, o jeito que as mulheres encaram a maternidade tem mudado e muitas enxergam nela o momento ideal de dar uma guinada na carreira.

Apesar disso, é um engano afirmar que esse movimento acontece exclusivamente pela vontade da mulher. Um levantamento da Fundação Getúlio Vargas adiciona mais dois pilares: perda de emprego, já que a cada 10 mulheres, 4 perdem a posição no mercado depois de serem mães, e a flexibilidade – já que muitas delas enfrentam uma dupla jornada ao conciliar carreira e filhos. 

“Apesar do empreendedorismo feminino no Brasil ganhar cada vez mais força, faltam incentivos financeiros e apoio no início da ideia. Sem isso é impossível desenvolver as soluções. Existe muito engajamento pelo propósito, mas pouco engajamento financeiro”, observa Dani. Desde 2016, mais de 30 mil mulheres foram capacitadas por meio dos meetups, EAD e programas de aceleração através da B2Mamy. Mais de R$ 6 milhões já foram movimentados na rede.

De olho na família

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Em outro braço das femtechs de saúde está a Bloom, plataforma de cuidado inteligente para mulheres e famílias diversas. Na sua jornada, ela oferece apoio desde o planejamento da chegada de uma criança até os 10 anos de vida dela – seja por métodos tradicionais ou adoção, por exemplo, levando em conta as diferentes configurações familiares.

Apesar de ser uma femtech, o benefício também contempla os homens, lembra Roberta Sotomaior, cofundadora e CEO da Bloom: “Se a gente deixar o homem de fora, vai ser uma ferramenta que só sobrecarrega mais a mulher no cuidado com os filhos”. Tudo isso é aliado a conversas e treinamentos de gestores de empresas, a fim de que cada vez mais o mercado de trabalho enxergue as mulheres e mães como funcionárias tão eficientes e produtivas como antes da maternidade ou como os homens

“O ambiente de trabalho não foi feito para pessoas com famílias. Tem cultura que está tão no piloto automático que nem se questiona mais. Vemos muito isso nos treinamentos com gestores. As mulheres são saídas do mercado. São ambientes que as expulsam pela falta de flexibilidade, as trata como ‘café com leite’ e faz ela acreditar que precisa escolher. Então, deixa de passar projetos, deixa de promover. Isso mexe muito com a autoestima em um momento já de vulnerabilidade”.

Com os gestores de empresas, a intenção é tornar o ambiente de trabalho amigáveis com as famílias: “Nós chegamos como um benefício que cuida dos colaboradores, mas também revoluciona essa cultura na empresa. A gente tem uma certificação para gestores de famílias, fazemos treinamento deles, entregamos conteúdo. Nosso papel é trazer as empresas para essa conversa”.

Futuro da Saúde

Por fim, Futuro da Saúde é um hub de conteúdo digital criado pela jornalista especializada em saúde Natalia Cuminale. Assim, neste site, você encontra mais conteúdos como este sobre inovação e diversos tipos de healthtech. Além disso, você ainda pode conferir o nosso podcast e nos seguir nas redes sociais: Instagram e Youtube.

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