Como o modelo de pagamento fee for service funciona e quais são as alternativas

Modelo prioriza a quantidade e não a qualidade dos serviços, o que traz ao mesmo tempo vantagens e desvantagens.

               
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O setor de planos de saúde realizou 1,3 bilhão de consultas médicas, exames, terapias, cirurgias e procedimentos odontológicos em 2020, segundo a Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS). Todos esses serviços custaram cerca de R$ 188 bilhões às operadoras no ano. Mas como esses valores são calculados e cobrados? No Brasil, o modelo de remuneração mais adotado para serviços de saúde é o fee for service, que em português significa pagamento por serviço.

Como o próprio nome diz, o fee for service é um modelo de pagamento funcional que tem base no serviço realizado. Desse modo, a remuneração é feita de acordo com o que foi utilizado no atendimento. Isso inclui consultas, exames, materiais, medicamentos, diárias do hospital e recursos humanos, entre outros que vêm especificados e discriminados em uma fatura.

Quando um paciente procura uma emergência de hospital reclamando de dores abdominais, por exemplo, a operadora vai remunerar a instituição pela consulta médica e por todos os exames e procedimentos que os profissionais do local acharem que devam ser realizados. E esse pagamento independe se há diagnóstico correto ou tratamento adequado. 

Assim, o fee for service prioriza a quantidade, e não a qualidade dos serviços. Isso traz ao mesmo tempo vantagens e alguns desafios.

Destaques do fee for service

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Existem três destaques no modelo fee for service. São elas:

  • Pagamento justo: o pagamento é feito pelo que foi realmente utilizado. Por esse motivo, é considerado por especialistas como um dos modelos mais justos financeiramente.
  • Controle de estoque: existem valores fixos para cada material usado. Como a lista de materiais é uma condição obrigatória num estabelecimento de saúde, os mesmos podem usar como base a própria fatura para fazer o gerenciamento do estoque.  Com isso, existe uma facilidade maior em saber onde está a demanda: o que é mais e o que é menos utilizado nos atendimentos.
  • Solidez no mercado: como é o método mais praticado no país, não existe resistência nenhuma na sua utilização. É uma forma segura de se relacionar com os fornecedores, parceiros e pessoas contratadas, pois ela fornece uma quantia fixa para o hospital funcionar por determinado tempo ou período.

Desafios do fee for service

Ao mesmo tempo em que o modelo pode ter suas vantagens, ele também pode premiar o desperdício. Isso porque ele remunera por serviço executado, ignorando os resultados clínicos.

Um estudo realizado pelo Instituto de Estudos de Saúde Suplementar (IESS) em 2017 mostrou que quase R$ 28 bilhões dos gastos das operadoras com exames e contas hospitalares naquele ano foram consumidos de forma indevida por fraudes ou desperdícios com procedimentos desnecessários. E o modelo fee for service pode contribuir para esse tipo de problema. 

Por isso, podem aparecer alguns desafios, como:

  • Estímulo a serviços não necessários: como o pagamento é feito proporcionalmente ao serviço que é realizado, pode ocorrer de o corpo clínico decidir realizar exames ou procedimentos no paciente que não seriam tão importantes naquele momento. Dependendo da instituição, pode haver um estímulo de realizar o máximo de exames e procedimentos possíveis, com o objetivo de não apenas facilitar o diagnóstico, mas também aumentar a lucratividade do estabelecimento.
  • Maior custo aos planos de saúde: o desafio anterior gera esse segundo problema. A operadora pode pagar por procedimentos que o paciente não precisa ou que poderiam ser considerados dispensáveis. Esse panorama pode influenciar no valor que o cliente paga no seu plano de saúde. Isso porque os reajustes anuais estão ligados aos custos das operadoras de saúde suplementar.
  • Pouco estímulo à saúde preventiva:  a medicina preventiva integra bons hábitos alimentares e exercícios físicos, que sempre focam para uma vida mais saudável e evita muitos problemas de saúde. Com esse tipo de pagamento, existe um incentivo muito baixo para essa prevenção e para a promoção da saúde.
  • Quantidade em detrimento da qualidade: outro desafio que vem à tona é que em função do pagamento ser realizado por quantidade de atendimentos, surge um incentivo grande a esse número de assistências, que visa consequentemente uma quantidade também maior de pagamentos. Dessa forma, o foco na quantidade acaba sendo muito mais prioritário do que o foco na qualidade, como um atendimento mais humanizado, por exemplo, que acaba demandando mais tempo e atenção.
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Alternativas ao modelo fee for service

Nos últimos anos, há um grande debate sobre encontrar alternativas viáveis ao fee for service para a remuneração. Esses modelos existem e costumam ser mais utilizadas em outros países. Dependendo da área de atendimento, em diversos locais pode haver uma combinação entre um método e outro. 

De acordo com especialistas, para saber se a quantidade, qualidade e performance dos atendimentos estão suficientemente adequados, é preciso contar com a tecnologia que possua os dados dos indicadores e realize relatórios com base nos processos decisórios. Dessa forma, pode-se verificar qual modelo é mais indicado para ser utilizado em cada área da saúde no país. 

Então, conheça as alternativas para o modelo fee for service:

Pagamento por performance

Essa é uma das formas de remuneração mais usadas e conhecidas mundialmente. Pode ser nomeado de P4P. Esse modelo sugere uma efetiva melhora na qualidade dos atendimentos que são realizados nos estabelecimentos de saúde. O pagamento é feito em sintonia com os resultados avaliados, que são comparados aos indicadores traçados. Ou seja, se o indicador avaliado é o índice de cálculo renal na população, o débito pode ser maior se a taxa diminui, e menor se mais pessoas estão sofrendo com essa doença. É um cálculo de proporção, onde cada meta recebe um peso que induzirá na quitação final. 

Pagamento por orçamento global ajustado

Esse modelo prevê que o pagamento mensal seja realizado se baseando no histórico de recebimentos de cada estabelecimento de saúde. Dessa forma, um valor global é definido. Esse valor liquida todos os serviços prestados. Há ainda chances de ser ajustado em caso de aumento de demanda nos atendimentos e procedimentos mais complexos.

Pagamento por bundle ou episódios

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Esse modelo é recomendado para uma linha de tratamento mais específica ou uma condição clínica. Assim, ela é ideal para situações em que as variáveis são menores. No pagamento por bundle ou episódios, um pacote é fechado e nele serão incluídos todos os processos necessários para a realização do atendimento, incluindo materiais, medicamentos e honorários médicos.

As áreas de ortopedia, ginecologia, obstetrícia ou oncologia, por exemplo, são especialidades que se encaixam perfeitamente no pagamento por bundle.

Pagamento por capitation

Nesse modelo, uma determinada quantia é repassada ao centro de saúde. Este por sua vez, irá fazer a administração desse valor para prosseguir realizando os atendimentos e procedimentos necessários. A instituição precisa manter os indicadores positivos. Da mesma forma, também deve se responsabilizar se o valor pago não for satisfatório para cobrir os custos.

Pagamento por DRG

A partir da formação do DRG com base nos índices de saúde do paciente, o pagamento é feito por episódio de tratamento. Isso é, com valores diferentes, de acordo com a categoria de diagnóstico.

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