Faltaram respiradores, máscaras, reagentes, remédios… Vamos ter problemas com frascos de vacinas?

A corrida mundial em busca dos mesmos produtos provocou escassez e aumento de preços. Agora, a grande dúvida é se enfrentaremos a mesma guerra quando a vacina estiver disponível.

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Já é possível recapitular com um certo distanciamento o que aconteceu com o mundo quando o coronavírus começou a se espalhar. Os gestores de saúde de grandes instituições brasileiras, assim como o governo, acompanharam a velocidade de disseminação do vírus e tentaram se preparar para o que estava por vir. Foram construídos hospitais-campanha, houve expansão de leitos, compra de respiradores e de equipamento de proteção individual (EPI). A corrida mundial em busca dos mesmos produtos provocou escassez e aumento de preços. Apesar do número crescente de casos no Brasil, o fornecimento de alguns desses itens parece ter se estabilizado. Agora, a grande dúvida é se enfrentaremos a mesma guerra quando a vacina estiver disponível.

Para entender um pouco do contexto desse processo no Brasil e qual o próximo desafio, o Futuro da Saúde conversou com três grandes especialistas do setor: Paulo Fraccaro, superintendente da Associação Brasileira da Indústria de Artigos e Equipamentos Médicos e Odontológicos (ABIMO), Francisco Balestrin, presidente do SindHosp, e Maurício Barbosa, presidente do conselho e fundador da Bionexo.  

O que aconteceu?

Fraccaro – Os mais ágeis e os mais ricos conseguiram comprar o que precisavam e os países que não conseguiram ficaram para trás. O Brasil ainda estava no sistema de licitação pública em que você só paga o que vai comprar 30 dias após receber o produto. Os Estados Unidos pagavam tudo antecipado e compravam tudo. Um respirador que custava cerca de 8 500 dólares cada, chegou a custar 40 mil dólares no final de abril. O preço de uma máscara foi de 80 centavos a 8 reais. E o pior: nem sempre vinham com a qualidade adequada. Tudo isso fruto da necessidade e do desespero. 

Balestrin – O Brasil se afastou de desenhos de relacionamentos multilaterais que tinha com China e Índia. Decidiu focar muito no desenho dos Estados Unidos, que deram exemplo de desrespeito à multilateralidade do mundo. De repente tivemos que nos virar. No Brasil, por sua vez, também ficou cada um por si. O governo não entrou na história. Um grande hospital particular de São Paulo aumentou seu estoque de EPI e não deixou para a Santa Casa de Mogi. E isso vale para todos os estados, que compraram na frente das prefeituras. Vale para a desorganização do nosso governo federal que desconheceu a existência de uma política pública. Todo mundo entrou nesse embate. 

Barbosa – Nos últimos 30 anos, as grandes indústrias globais criaram estruturas de eficiência industrial. Isso que dizer que as grandes corporações construíram fábricas em países como China, Índia e Tailândia. Os grandes insumos básicos são chineses. Não são produtos de alta tecnologia, mas viraram commodities devido à facilidade de isenção e de manufatura por causa da mão de obra barata. Chegou a crise e as fábricas estavam nesses locais. Os países ficaram reféns. Foi por falta de uma política industrial no Brasil que passamos por isso. Outros fatores também contribuíram. Cerca de 85 países fecharam fronteiras. Foi uma somatória de fatores relevante e geométrica que impactou todos os países ocidentais. 

O próximo desafio

Fraccaro – Já alertamos que uma nova história pode acontecer com as vacinas. Se não houver planejamento prévio, vamos ver a mesma situação que enfrentamos com EPI, respiradores e anestésicos. É só pensar que se a vacina tiver duas doses e, se tivermos que vacinar toda a população, seriam 400 milhões de seringas. É preciso ter planejamento. Já alertamos o governo federal. Três empresas fabricam seringas no Brasil, mas a capacidade das fábricas já está sendo utilizada para as campanhas de vacinação que continuam acontecendo. Para fabricar 50 milhões de seringas, por exemplo, seriam necessários, no mínimo, três meses de fabricação.

O Brasil aprendeu?

Fraccaro – O que todo mundo aprendeu? Como é ruim depender de um único fornecedor. Principalmente de um fornecedor que fez aumento de preço violento na fase aguda da pandemia. E que é preciso planejamento. 

Balestrin – A indústria nacional não estava sendo valorizada – e isso não é de hoje. Nos últimos anos, tivemos um encolhimento do nosso parque tecnológico para a produção de materiais e equipamentos. Estávamos seguindo a tendência oposta: abrir as portas para o exterior alegando preço, custo, efetividade e modernidade tecnológica. Não havia uma política de desenvolvimento tecnológico. Então, de um modo geral, tudo aquilo que vinha dentro de uma tendência e a covid-19 acelerou, como a telemedicina, imagino que será mantido pós-pandemia. Agora, aquilo que não estava em um processo de discussão (como a indústria nacional), pode voltar para o antigo normal.

Barbosa – Alguns fabricantes brasileiros começaram a produzir esses equipamentos com uma rentabilidade razoável porque existia uma demanda e a China não tinha. Mas, se não houver uma política nacional, os empresários param de produzir. Um dos grandes ensinamentos dessa pandemia é que a saúde não é só saúde, é geopolítica também, é ambiente de guerra. Se não aprendermos com isso,  se não priorizar, se não financiar a saúde, será um erro.

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