Estudo brasileiro usa telemedicina para reduzir sequelas neurológicas em recém-nascidos com asfixia

Estudo brasileiro usa telemedicina para reduzir sequelas neurológicas em recém-nascidos com asfixia

Um estudo brasileiro utilizou um sistema de telemedicina para monitorar […]

By Published On: 08/02/2023

Um estudo brasileiro utilizou um sistema de telemedicina para monitorar o cérebro de 872 recém-nascidos com casos de asfixia em 32 hospitais do Brasil e, assim, ajudar as equipes médicas a reduzirem os riscos de sequelas neurológicas nesses bebês. Trata-se da maior amostra já analisada no mundo e os resultados serão apresentados na sexta-feira, 10 de fevereiro, na 14th International Newborn Brain Conference (INBBC), pelo brasileiro Gabriel Variane, médico pediatra neonatologista e CEO da PBSF, responsável pela pesquisa.

Os pesquisadores compararam os resultados com o que já se tem na literatura existente e levantaram dados importantes. Das 872 crianças acompanhadas, 33,9% tiveram crises convulsivas e, dentre elas, em 72,3% das vezes essas crises só foram identificadas por meio do monitoramento cerebral. O estudo também identificou que as crises aconteciam mais comumente e a maioria também acabava dentro do primeiro dia de vida, sendo que 61% ocorriam dentro do período característico da segunda onda de lesão, entre 6h e 24h.

Em entrevista ao Futuro da Saúde, Variane indica que o estudo se torna relevante por alguns pontos: “Primeiro, não existem estudos com coortes tão robustas olhando especificamente para os achados de monitoramento cerebral. Além disso, nós adicionamos todo esse sistema de telemedicina que homogeniza o cuidado, leva atendimento altamente especializado 24/7. Como terceiro ponto interessante, existe uma discussão de que em países que não sejam super desenvolvidos como Estados Unidos, Canadá, Inglaterra, não existe nenhum relato robusto de monitoramento cerebral nessa população. Nós viemos de um país de renda média, pela classificação internacional, e trouxemos a maior coorte já descrita no mundo”.

Dentre os 32 hospitais brasileiros, espalhados pelas cinco regiões do país, que tiveram o sistema aplicado, cerca de metade são públicos e a outra metade privados. Contudo, o CEO da PBSF destaca que o modelo de assistência aplicada utiliza exatamente o mesmo protocolo de atendimento para o bebê com asfixia em qualquer hospital de qualquer região, desde o que possui mais recursos até aquele que possui um porte menor: “Quando utilizamos esse modelo de ensino longitudinal centralizando os dados e condutas específicas em uma equipe centralizada, nivelamos os cuidados por cima. Você realmente tem os mesmos protocolos e que são preconizados pelos melhores hospitais do mundo”.

Segundo ele, no mundo, nascem com asfixia cerca de 1,2 milhão de crianças, sendo essa a terceira principal causa de morte em bebês, e um percentual relevante evolui com sequelas como paralisia cerebral, cegueira, surdez, deficiência cognitiva, dentre outras. No Brasil, ele aponta que as estimativas giram em torno de 20 a 30 mil recém-nascidos com asfixia anualmente.

Tecnologia ajuda a reduzir o risco de sequelas neurológicas

Este cenário motivou a criação da PBSF (Protegendo Cérebros e Salvando Futuros, em tradução do inglês), que nasceu como um projeto voltado para o uso de tecnologia e inteligência para prevenção dessas sequelas em bebês de alto risco utilizando um sistema de telemedicina para prestar assistência às UTIs neonatais ao redor do país. A PBSF se tornou uma empresa em 2016 e realiza atualmente o monitoramento de mais de 7 mil crianças.

A equipe envolvida atua monitorizando o cérebro dessas crianças de risco com metodologias específicas que conseguem ver a atividade elétrica do cérebro. Segundo o CEO da PBSF, “existe uma central de monitoramento com uma equipe médica remota 24/7, durante os 365 dias no ano, responsável por monitorizar aquela criança, por avaliar os achados e discutir o caso clínico com toda a equipe. Muito do nosso trabalho vai dessa questão de treinamento, capacitação, discussão dos casos clínicos, apoio com o time, mas também da parte do monitoramento cerebral”.

Dentre as patologias monitorizadas, uma das doenças mais importantes é chamada de asfixia perinatal, que é a falta de oxigênio ocorrida um pouco antes, durante ou imediatamente após o nascimento do bebê. A manifestação neurológica da asfixia perinatal é denominada encefalopatia hipóxico isquêmica, que foi o foco do estudo em questão, intitulado “Monitoramento cerebral de neonatos com encefalopatia hipóxico-isquêmica submetidos a hipotermia terapêutica”. Esse estudo fez um recorte de bebês acompanhados desde julho de 2017 até o final de 2022, fazendo o monitoramento e aplicando essa terapia.

A hipotermia terapêutica é o tratamento utilizado para os bebês com casos de asfixia. “No momento que o bebê nasce, se eu faço o diagnostico de asfixia, eu vou promover o resfriamento do corpo dele a uma temperatura entre 33 e 34 graus por 72 horas seguidas. A partir daí, nós promovemos um reaquecimento lento e gradual. Quando fazemos isso, protegemos muito o cérebro deles”, explica Gabriel Variane. Ainda, o pediatra neonatologista indica que a falta de oxigênio promove a primeira onda de lesão cerebral, que é como uma “pancada” no cérebro, o que gera uma inflamação que, após horas, ocasiona uma segunda onda de lesão cerebral, esta mais crítica. Nesse sentido, a hipotermia terapêutica diminui a inflamação e atenua essa segunda onda, evitando repercussões.

Quanto ao monitoramento e a sua importância, Variane indica que, segundo diversos estudos, um grande percentual desses bebês que possuem essa condição vão ter crises convulsivas. Como agravante, ele expõe que “como as conexões cerebrais são muito imaturas, entre 80 e 90% das vezes que esses recém-nascidos convulsionam, eles não vão piscar o olho, nem mexer um dedo, sendo literalmente impossível saber se o bebê está convulsionando, a menos que nós façamos esse monitoramento”, indicando assim o benefício do uso desse sistema de telemedicina.

Próximos passos

Quanto a próximos estudos, a equipe ambiciona acompanhar a performance dessas crianças com 2, 3 anos de vida para entender os riscos de sequelas a partir das descobertas no monitoramento cerebral, além de se voltar para o cuidado de outras populações de risco como bebês prematuros, com infecções, má formação cerebral, entre outros aspectos.

Além disso, haverá um foco ainda maior em tecnologia. Como o estudo gerou um extenso banco de dados de monitoramento cerebral neonatal, Gabriel Variane entende que isso cria uma “oportunidade de trabalhar com ferramentas que hoje estão super em pauta, como machine learning e inteligência artificial para criação de algoritmos e ferramentas para fazer o diagnóstico cada vez mais precoce e preciso dessas condições, prevenindo que aquela criança tenha uma sequela neurológica permanente”.

Paola Costa

Estudante de Jornalismo da Cásper Líbero e graduada em Relações Internacionais pela UNIFESP. Compõe o time de redação do Futuro da Saúde desde setembro de 2022. Email: paola@futurodasaude.com.br

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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