Especial: Nordeste atrai inovação em saúde

Hub ICC Biolabs e Distritos de Inovação em Saúde são exemplos de polos inovadores que demostram o potencial da região

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Não é exagero mencionar que a região Nordeste é um verdadeiro vulcão em erupção no segmento de inovação em saúde e tecnologia. Dois exemplos recentes ilustram isso: o capacete ELMO, desenvolvido com recursos locais e que reduz em até 60% a necessidade de intubação orotraqueal em pacientes com Covid-19, e a utilização da pele de tilápia para recuperação de queimaduras. Neste contexto, o surgimento de startups tem se intensificado nos últimos anos, em movimentos que aliam iniciativas públicas e privadas em prol da aceleração de empresas de base tecnológica, com modelos de negócios inovadores e que têm potencial para se transformar em verdadeiros gigantes.

Somente no Ceará, de janeiro a julho deste ano foram injetados mais de R$ 4 bilhões de reais na área da saúde, de acordo com a Secretaria da Fazenda e o Sistema de Gestão Governamental por Resultados do Estado. A cadeia produtiva do setor é tida como o primeiro de 11 clusters prioritários para o aporte de recursos, na visão de desenvolvimento do Estado, à frente de energias renováveis e rede de segurança hídrica. Este ambiente fértil permitiu a instalação, pela iniciativa privada, do Hub ICC Biolabs, criado pelo Instituto do Câncer do Ceará (ICC) e estrategicamente localizado dentro do ambiente físico do Hospital Haroldo Juaçaba, unidade hospitalar do Grupo ICC.

Ao longo de quatro anos de atuação, o ICC Biolabs já possui mais de 13 startups no portfólio, captou mais de R$ 1 milhão em editais de fomento para o apoio às iniciativas e tem uma gama de mantenedores, como investidores-anjo, além do próprio grupo. Dentro do hospital, as ideias criadas podem ser testadas e validadas in loco, acelerando o processo de criação, pivotagem e aceleração, característico do modelo de negócio das startups.

Uma jornada empreendedora no Nordeste

Segundo Marina Lecas, gerente do ICC Biolabs, o hub tem uma jornada personalizada, diferente do que é praticado no mercado. Dentro de cada fase, são tratadas etapas específicas, orientando e direcionando o modelo de negócio da startup, testando e validando o market fit e escalando a solução desenvolvida: “Quando cheguei ao ICC Biolabs, um dos maiores desafios era entender a necessidade de cada startup. Quais eram suas maiores dificuldades? Em que fase cada uma estava? Como cada empreendedor se sentia? Muitos deles são médicos e possuem pouco contato com o mundo dos negócios e suas tecnicidades”.

As condições favoráveis de negócios, a riqueza em capital humano dos estudantes e acadêmicos cearenses e a disposição por inovar facilitaram uma rápida resposta em momentos de crise, como a pandemia do SARS-CoV-2. O desenvolvimento de soluções que mitigassem o impacto do vírus no Estado e fossem escaláveis para o País e para o exterior movimentaram cérebros já ansiosos por entregar resultados à sociedade, como lembra Lecas:

“Logo no início da pandemia, sabíamos que era nosso dever atuar de alguma forma para ajudar as equipes de saúde. Com isso, contamos com a parceria do Programa Corredores Digitais, onde juntos imprimimos mais de 4.500 máscaras faciais (face shields). Além disso, uma provocação interna da equipe assistencial do Hospital Haroldo Juaçaba nos levou à prototipação e criação de um mecanismo chamado conector lambda, que facilita a utilização de aerossol para o paciente internado em UTI, diminuindo os níveis de infecção e descarte de material. Essa foi nossa primeira patente em conjunto”.

Soluções inovadoras

Em outra frente de desenvolvimento de tecnologias de combate aos impactos da pandemia, o capacete ELMO foi criado a partir de uma força-tarefa que uniu grandes players do mercado local contra a crise sanitária que se avistava, ainda no começo de 2020. Cooperaram, além da Fundação Edson Queiroz e da Escola de Saúde Pública do Ceará, um pool de instituições públicas e privadas, como a Secretaria da Saúde do Estado, a Fundação Cearense de Apoio ao Desenvolvimento Científico e Tecnológico (Funcap), a Universidade Federal do Ceará (UFC), a Federação das Indústrias do Estado do Ceará (FIEC), o Serviço Nacional de Aprendizagem Industrial (Senai/CE) e a Esmaltec, empresa do Grupo Edson Queiroz.

Os frutos dessa parceria já são colhidos: 60% a menos de pacientes intubados, com mais conforto e segurança no manejo de casos de média gravidade. Em sua estrutura, o ELMO envolve toda a cabeça do paciente e é fixado no pescoço em uma base que veda a passagem de ar. Com a aplicação de oxigênio e ar comprimido, o item gera uma pressão positiva (em relação à pressão atmosférica) que ajuda pacientes com dificuldade de oxigenação.

Segundo Vasco Furtado, professor da Universidade de Fortaleza (Unifor), integrante do Laboratório de Pesquisa e Inovação em Cidades (Lapin) e um dos desenvolvedores da tecnologia, “o ELMO é feito com silicone e PVC e isso barateia o tratamento da Covid-19. O capacete também proporciona que o gás carbônico não seja expelido no ambiente, garantindo a segurança dos profissionais de saúde. Estamos em constante processo de adaptação e aprendizagem, como fazem as startups”.

Potencial de expansão é amplo

Se no fim do século XIX o beato Antônio Conselheiro profetizou que “o sertão vai virar mar” e Euclides da Cunha (1866 – 1909) trouxe em “Os Sertões” que “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”, nunca as veredas do sertão e o litoral das capitais do Nordeste estiveram tão prósperos ao desenvolvimento, com investimento estratégico, profissionais de alta qualidade, logística bem trabalhada e parcerias públicas-privadas bem articuladas. Exemplos não faltam.

Dois Distritos de Inovação em Saúde se desenvolvem rapidamente, um deles localizado em Eusébio, na Região Metropolitana, como detalha Carlile Lavor, presidente da Fiocruz Ceará: “Tendo a Fiocruz CE como âncora, o distrito materializa a decisão estratégica de investir em novas tecnologias, contribuindo também para a política de desconcentração do desenvolvimento tecnológico e industrial nacional. Temos disponíveis 23 hectares destinados à implantação de indústrias e para a Fiocruz Bio-Manguinhos”.

Fiocruz Ceará (Nordeste)

A proposta do distrito é ser uma verdadeira cidade inteligente, com infraestrutura que abrigará as indústrias, pesquisadores, servidores e terceiros que irão compor esse ecossistema. Parceiros como a Associação Internacional de Parques Tecnológicos e Áreas de Inovação (IASP) e o Instituto Pasteur já estão inclusos no projeto. De acordo com a Agência de Desenvolvimento do Estado do Ceará (ADECE), o aporte para a implantação do Complexo Tecnológico em Insumos Estratégicos, da Fiocruz Bio-Manguinhos soma R$ 180 milhões, com previsão de mais R$ 680 milhões em investimentos.

Outro distrito, em Fortaleza, no bairro do Porangabussu, tradicional e historicamente “polo da saúde” da capital cearense por abrigar universidades, hospitais e outras instituições, agora integra também o planejamento estratégico integrado para o segmento. Segundo a ADECE, há previsão de investimentos de R$ 299 milhões para o desenvolvimento das atividades e a empreitada já conta com parceiros nacionais e internacionais como Amazon, Philips, IBM e Fundação Dom Cabral.

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