Especial healthtechs de planos de saúde – Parte II: olhar a saúde e não a doença

Alice, Qsaúde e Sami oferecem gestão de saúde com foco na prevenção e uso de tecnologia para acompanhar e facilitar jornada do paciente

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Da esquerda para a direita: André Florence (Alice), Anderson Nascimento (Qsaúde) e Vitor Asseituno (Sami)

Nesta segunda e última parte do especial sobre healthtechs de planos de saúde – a primeira parte você pode acessar aqui – três destas novas empresas que oferecem o serviço, Alice, Qsaúde e Sami, contam os motivos que, na visão delas, as tornam diferentes das companhias tradicionais. Um ponto comum chama a atenção: todas posicionam seus serviços como gestão de saúde. Mas o que significa isso?

“Assim como uma gestora de investimento te auxilia na hora de investir seu dinheiro, uma gestora de saúde é responsável por ajudar você a definir suas metas de saúde e dar todo o apoio que você precisa para se manter saudável, indo além da função de apenas tratar doenças”, esclarece André Florence, CEO e cofundador da Alice. “Deslocamos completamente o olhar da ‘doença’ para a ‘saúde’, superando o tradicional ‘seguro apenas para a emergência’ e indo para a ‘saúde baseada em resultados’”.

Esta mudança de olhar não ocorre por qualquer razão. Ao investir em atenção primária e atuar na prevenção, o sistema de saúde se mostra mais sustentável porque evita desperdícios, como aponta Vitor Asseituno, cofundador e presidente da Sami: “Buscamos trabalhar com eficiência ao não apenas endereçar o problema do paciente da maneira correta, mas também no menor tempo e no menor custo possível, sem desperdício de recursos”.

Tudo isso baseado em dados e informação, como exemplifica Anderson Nascimento, vice-presidente executivo da Qsaúde: “Buscamos referências de saúde em outros países e percebemos o quanto a informação, os dados, podem acabar com o desperdício, com o uso desnecessário de recursos e de capital e uso irregular da saúde, exames desnecessários que também são maléficos. Isso tudo se deve à falta de informação”.

Para Florence, da Alice, focar na prevenção e não na quantidade de procedimentos “é uma revolução, pois mensuramos resultados, desfechos clínicos, consideramos a qualidade do serviço prestado ao paciente. Dessa forma, garantimos que todo o sistema trabalhe para tornar as pessoas mais saudáveis”.

O ‘time de saúde’

Alice e Qsaúde oferecem planos individuais diretamente às pessoas, enquanto Sami tem o foco em pequenas e médias empresas – pelo menos por enquanto, segundo seu presidente. O valor mensal varia bastante, de acordo com o tipo de cobertura, idade e os hospitais disponíveis para o usuário. Uma simulação para um homem de 34 anos sai de aproximadamente 350 reais ao mês na Sami, com acesso ao hospital BP, chegando a valores próximos de 1300 reais e 1600 reais, na Alice ou QSaúde, respectivamente, considerando acesso ao Hospital Israelita Albert Einstein. Seja direto ao paciente ou por meio de empresas, há outro ponto comum entre elas: todas oferecem uma equipe de saúde que será responsável por toda a jornada do paciente. “Um CRM para um CPF”, como afirma Nascimento, da Qsaúde.

No modelo atual, não é incomum o paciente lembrar de procurar um médico apenas quando sente alguma coisa. Neste momento ele busca a rede referenciada de seu convênio, seja naquele famoso livrinho de muitas páginas, site ou app, e tenta achar um médico especialista em seu sintoma, um gastroenterologista para um incômodo no estômago, por exemplo. Ele marca uma consulta, muitas vezes pela primeira – e talvez última vez – com aquele profissional, faz uma bateria de exames, retorna, sai com um diagnóstico,recomendações ou somente remédios.

A proposta das três empresas é que cada paciente tenha um time à sua disposição, com profissionais que não mudam. Assim, quando o paciente sentir alguma coisa, ele vai procurar essa equipe, que fará o atendimento primário, sem que ele saia caçando um médico que não conhece. Alice e Sami chamam essa equipe de “time de saúde”. Na Alice, o time é formado por um médico, enfermeiro, nutricionista e preparador físico. Na Sami a formação envolve um médico, um enfermeiro e até três técnicos de enfermagem. A Qsaúde oferece grupos formados por enfermeiros e técnicos de enfermagem, que acompanham e monitoram a jornada de saúde do usuário, junto com os médicos de família da Clinica Einstein, um produto do Hospital Israelita Albert Einstein.

Florence detalha o início dessa jornada do paciente na Alice: “Pelo aplicativo ou site, as pessoas começam montando o seu plano de acordo com suas preferências (hospitais, laboratórios, acomodação etc.). Definidas essas escolhas, é hora de montar seu time de acordo com suas prioridades de saúde – seja dormir melhor ou cuidar de um problema de saúde. Isso também é via app. O membro escolhe o médico, enfermeiro, nutricionista e preparador físico que irão acompanhá-lo pelo resto da vida. Os currículos estão disponíveis online, juntamente com as fotos dos profissionais. Os membros conseguem acessar os profissionais via Alice Agora, um canal de contato em que a comunicação ocorre por texto, áudio ou vídeo chamada, isso todos os dias das 7h às 21h. Seja para tirar dúvidas, fazer agendamento de consultas ou receber atendimento imediato para qualquer queixa”.

Para Asseituno, da Sami, “a proposta é oferecer tratamento proativo e coordenado, avaliando o histórico clínico e considerando outros aspectos que também têm reflexos na saúde, como questões pessoais, contexto social e familiar etc. O paciente não vai mais ter que ficar pulando de especialista em especialista para resolver seus problemas. Quando necessário, o Time de Saúde coordena e orienta o tratamento com outros médicos. Dessa forma, a pessoa não fica ‘solta’ no sistema de saúde, nem faz exames e consultas desnecessárias”.

“O médico tem uma carteira e um time que o acompanha nessa gestão, composto por uma enfermeira e um técnico de enfermagem. Eles são responsáveis pelos assuntos do cliente. Entendem o paciente, o ambiente familiar em que ele está inserido. Eles não têm uma relação somente quando ele está doente. Muito pelo contrário. Eles têm meios de estimular o paciente a manter-se saudável”, explica Nascimento, da Qsaúde. Ele lembra que “se esse paciente precisar de um especialista é claro que é um especialista quem vai direcionar aquela conduta, mas ele não passa a ser dono da saúde daquele paciente. Não é porque você tem um problema no joelho, que a sua saúde como um todo passa a ser conduzida por um ortopedista. Não é porque você se consulta com uma ginecologista que ela é a pessoa mais indicada para pedir os exames cardiológicos dessa paciente”.

Tecnologia a favor dos pacientes

Parece óbvio, mas há muita tecnologia por trás disso. E é nessa área que as “techs” se destacam. Para ter esse controle e prestar um serviço de qualidade baseada em dados, as empresas desenvolveram ecossistemas robustos de modo que o paciente e seu time de saúde tenham acesso rápido e fácil a todo o histórico. “Com o nosso Time de Saúde e o uso de dados sobre o paciente, é possível saber de todo o histórico dessa pessoa, o que nos permite ser mais efetivos na indicação de um especialista ou em apontar um diagnóstico”, afirma Asseituno.

Na visão de Florence, da Alice, “por sermos uma empresa de tecnologia, temos a capacidade de organizar o histórico de saúde e acompanhar a evolução de cada membro e assim oferecer a gestão de saúde personalizada – a partir de seus objetivos de saúde. Os hospitais, laboratórios e especialistas parceiros da Alice estão integrados na plataforma, o que permite fazer a coordenação de cuidado completa de seus membros e consolidar em um único lugar suas informações de saúde”.

Nascimento, da Qsaúde, lembra que há também busca ativa, ou seja, não necessariamente é preciso esperar que o paciente procure ajuda só quando está doente: “A gente tem uma busca ativa no sistema e várias premissas de interação e ação. Às vezes até com alguns pacientes que têm dificuldade para tomar os medicamentos no horário, se se adaptou, se foi bem, se lembrou que não pode tomar com suco. As doenças crônicas descompensadas consomem aproximadamente 60% do valor destinado à saúde. Por isso há todo um cuidado com as medicações para melhorar a saúde dessas pessoas”.

Alguns dados preliminares da Alice comprovam resultados desta atuação. Segundo Florence, 81% reportaram melhorara na saúde mental e 71% apresentaram melhora na qualidade de vida como um todo. Além disso, ele explicou que 85% das queixas de saúde dos usuários são resolvidas virtualmente, o que poupa “as pessoas de terem que ir ao pronto-socorro ou consultas sem necessidade, ou que é mais seguro, mais saudável e não gera desperdício de recursos”.

O público no radar das healthtechs

O público que está buscando estes novos planos é diverso. “Tem desde a pessoa que não tem um plano de saúde, que perdeu o plano pois perdeu o emprego, que quer uma rede de atendimento melhor. São pessoas que não estão satisfeitas com o modelo atual, mas estava nessa rede pois era o que o seu orçamento lhe permitia, mas sempre sonhava em ter o atendimento do Einstein, Oswaldo Cruz, Hcor. Ou já chegou a uma faixa etária em que era colocado para fora por causa dos reajustes”, explica Nascimento.

Mas isso não significa o fim das operadoras tradicionais, segundo o vice-presidente do Qsaúde: “Sempre vai ter o público das grandes operadoras, mas vai ter um público que vai ser mais exigente e não vai aceitar que a operadora entre em contato apenas quando for necessário falar do boleto ou de qualquer outro interesse que seja comercial. Ele vai esperar um pouco mais, vai esperar que o plano esteja realmente cuidando dele, que entenda da saúde e use as informações que tem para cuidar dele. Ele não quer que o plano de saúde seja reativo e só lhe dê a assistência quando ele, por exemplo, enfartar. Ele quer que o plano não o deixe enfartar cuidando dele antes”.

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