Covid-19 e o impacto na obesidade infanto-juvenil

Em congresso da Abeso, especialistas debateram as consequências da pandemia e a relação da Covid-19 com a obesidade em crianças e adolescentes

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Em congresso da Abeso, especialistas debateram as consequências da pandemia e a relação da Covid-19 com a obesidade em crianças e adolescentes

A pandemia de coronavírus trouxe diversas consequências para a saúde das crianças e dos adolescentes, nem sempre diretamente relacionadas à Covid-19. O isolamento, a interrupção das aulas presenciais, a falta de contato com colegas foram alguns dos elementos que contribuíram com o impacto para esse público. O tema foi amplamente debatido em uma das mesas do XIX Congresso Brasileiro de Obesidade e Síndrome Metabólica (CBOSM), realizado entre os dias 22 e 25 de setembro. No painel “O impacto da pandemia de Covid-19 sobre a obesidade infanto-juvenil – Análise de um ambulatório de obesidade em hospital terciário”, os médicos Flávio Milman Shansis, Luciana Verçoza Viana e João Regis Ivar Carneiro trouxeram elementos sobre essa realidade. Confira os principais pontos:

O isolamento social, a saúde mental e a obesidade

O debate começou com a palestra de Flávio Milman Shansis, médico psiquiatra e presidente da Associação de Psiquiatria do Rio Grande do Sul. O discurso do especialista teve como foco ressaltar principalmente a relação entre o impactos na saúde mental do isolamento social durante a pandemia da Covid-19 e como esse fator poderia influenciar em quadros de obesidade.

Shansis afirma que o distanciamento e isolamento levaram muitas pessoas a desenvolver ou aumentar sintomas ansiosos e depressivos. “A depressão é uma doença sistêmica, inflamatória e crônica”, explica o psiquiatra. Levando essa informação em consideração, a pandemia também acabou por incitar alimentações pouco balanceadas, com grande presença de alimentos ultra processados, além de diminuir a prática de exercícios físicos.

A pergunta a ser decifrada agora, segundo o psiquiatra, é “o quanto esse estado inflamatório crônico [relacionado à obesidade] pode estar diretamente vinculado ao aumento de casos de suicídio quando comparado às pessoas que não possuem esse estado crônico?”. A questão tem sido analisada pelo especialista em um estudo em parceria com outras instituições científicas.

O paciente com obesidade internado

A endocrinologista, Luciana Verçoza Viana, chamou a atenção para cenário atual da epidemia de obesidade. De acordo com ela, mais de 20% dos pacientes internados em Unidades de Terapia Intensiva possuem o IMC (índice de massa corporal) acima de 30.

Nessa situação, segundo Viana, o paciente internado com obesidade pode ter mais complicações devido a sua própria condição, como maior frequência de transtornos de humor, diminuição da eficácia dos medicamentos e aumento do risco de hepatite medicamentosa — tudo isso devido ao excesso de tecido adiposo.

Esse paciente também tem mais risco de desenvolver doença renal crônica ou aguda, e doenças cardiovasculares. Há ainda as complicações com as vias aéreas, o que pode dificultar a intubação.

A especialista conclui que essas alterações fazem com que os pacientes com obesidade sejam mais propensos a hospitalizações, aumento de necessidade de terapia intensiva, morte e complicações a longo prazo que atrasarão sua recuperação.

A obesidade combinada à infecção por Covid-19

O médico endocrinologista, João Regis Ivar Carneiro, ressalta que, em casos de infecção pelo SARS-CoV-2, o excesso de peso foi apontado como fator de risco em estudos recentes. Carneiro conta que a obesidade está diretamente ligada aos casos de mortalidade e pode ser ainda mais impactante nos jovens, mesmo que estes não apresentem outras comorbidades.

A mortalidade por Covid-19 associada à obesidade é justificada pela resposta imunológica disfuncional devido às características inflamatórias da doença. Isso porque a obesidade é uma doença crônica e que causa inflamações no organismo. Assim, o estado inflamatório é impulsionado pela infecção do coronavírus.

As evidências atuais ainda apontam que outras doenças, como hipertensão e diabetes, podem ser elementos de propagação da inflamação, devido à presença da proteína ACE2, que permite a entrada do vírus na célula. Em complemento a essa questão, “o indivíduo obeso tem uma carga viral maior e pode ser um transmissor em potencial do coronavírus”, explica Carneiro.

A conclusão do especialista, é que a solução para minimizar as dificuldades destes pacientes seria trabalhar com uma equipe multidisciplinar, visto que diversos elementos estão conectados à obesidade e à Covid-19.

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