Entidades criticam pesquisa do CFM sobre obrigatoriedade da vacinação contra Covid em crianças

Entidades criticam pesquisa do CFM sobre obrigatoriedade da vacinação contra Covid em crianças

Órgão afirma que cunho de pesquisa é apenas "exploratório"; sociedades consideram pesquisa um "despropósito" e reafirmam evidências científicas

By Published On: 12/01/2024

Nesta semana, o Conselho Federal de Medicina (CFM) anunciou uma pesquisa para avaliar a percepção dos médicos brasileiros sobre a obrigatoriedade da vacinação contra a COVID-19 em crianças de 6 meses a 4 anos e 11 meses. O questionário foi publicado no site do órgão e solicita contribuições mediante preenchimento do registro médico. O objetivo, segundo o CFM é “exploratório”, apenas para conhecer a percepção dos médicos, segundo nota divulgada nesta sexta-feira.

O órgão também alega que não existe contestação quanto a eficácia da vacina em si. De acordo com a nota, o CFM afirmou que a decisão decorre de “inúmeros pleitos encaminhados à autarquia buscando conhecer o posicionamento do CFM sobre esse tema, pois a bula da vacina disponibilizada pelo fabricante condiciona sua venda à prescrição médica”.

“Abordagens semelhantes foram usadas pelo CFM em outros temas, como telemedicina e publicidade médica, entre outros, oferecendo subsídios à autarquia e aos tomadores de decisão”, afirmou o Conselho.

Reação das sociedades médicas

A medida foi criticada pelas principais entidades médicas responsáveis por protocolos e orientações sobre  a imunização do país. “Perguntar aos médicos brasileiros que não são especialistas de um tema específico é um despropósito. Não faz sentido fazer esse tipo de pesquisa com todos os médicos”, explica Renato Kfouri, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm). Em nota, a SBIm reafirmou dados científicos que atestam a eficácia e a segurança da vacina contra a COVID-19 e trouxe ainda informações  que respaldam a obrigatoriedade da vacinação. E conclui que: “A SBIm entende que a pesquisa realizada pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) não trará nenhum benefício à sociedade, uma vez que — ao equiparar crenças pessoais à ciência — pode gerar insegurança na comunidade médica e afastar a população das salas de vacinação”.

O presidente da SBIm também reforça a importância de se atentar aos dados, relembrando uma recente pesquisa no periódico Annals of Internal Medicine. O estudo epidemiológico demonstrou a eficácia da vacina em crianças e adolescentes durante as ondas delta e ômicron, com base nos EUA, representando quase 4% da população pediátrica do país.  Neste estudo em crianças, a recepção da vacina C19 foi associada a uma forte proteção contra infecções, doença grave e internamento na UTI.

 Em 2019, a Organização Mundial da Saúde (OMS) reconheceu a hesitação vacinal como uma das principais ameaças à saúde global, destacando seu potencial para reverter o progresso contra doenças evitáveis por vacinas. A importância e benefícios da vacinação são temas frequentemente destacados por especialistas em saúde. A vacinação é considerada a forma mais eficaz e segura de adquirir proteção contra doenças infecciosas. A OMS ainda ressalta que a vacinação anualmente evita milhões de mortes, sublinhando seu papel crucial na proteção da saúde pública. 

 Alberto Chebabo, presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia (SBI), afirmou que as evidências científicas devem ser as considerações principais. “A SBI apoia integralmente as decisões do PNI/MS sobre a inclusão da vacina de covid-19 no calendário vacinal de rotina das crianças. A SBI tem assento no Comitê Assessor em Imunização do MS e votou favoravelmente pela Incorporação desta vacina no calendário vacinal básico. Essa decisão se apoia em evidências científicas sólidas mostrando a eficácia e segurança da vacina nesta faixa etária. Além disto, no Brasil, apenas em 2023 houve 135 óbitos de crianças de 0 a 4 anos por Covid, sendo está a principal causa de óbitos de doenças imunopreveníveis no Brasil. Esta faixa etária é a segunda em óbitos por SRAG por covid no Brasil, só ficando atrás do grupo com 60 anos ou mais”, escreveu em comunicado enviado ao Futuro da Saúde. 

 O assunto deve continuar repercutindo nas próximas semanas. O CFM informa que a pesquisa será conduzida virtualmente, durante quinze dias. Os resultados ficarão disponíveis no site.

Larissa Crippa

Estudante de Jornalismo pela ESPM-SP, com experiência em emissora e produções freelance. Compõe o time de redação do Futuro da Saúde desde outubro de 2023.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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