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Ensino na saúde: instituições miram em educação continuada e jornada do médico

Com número crescente de formandos em medicina, o mercado se torna cada vez mais acirrado e a educação continuada passa a ser uma necessidade

               
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O setor da saúde está aquecido em diversas frentes, seja na movimentação de fusões e aquisições de empresas visando sua expansão na assistência, seja no segmento de educação médica. Nos últimos 10 anos, 173 faculdades de medicina foram abertas no Brasil. No total, já são pelo menos 353 instituições de ensino que oferecem a opção de curso para graduação. Apenas em 2020, durante a pandemia, 24.587 médicos se formaram – somando cerca de 500 mil profissionais ativos na profissão.

Mesmo diante do alto volume, o curso ainda é um dos mais procurados e concorridos do país: na USP, uma das principais universidades públicas brasileiras, a relação candidato-vaga é de 124,8 – no vestibular de 2022 da Fuvest foram 15.224 inscritos. Nas faculdades particulares, que podem custar cerca de 10 mil reais por mês, o cenário não é muito diferente.

Alta dedicação e baixo índice de abandono

Medicina é considerada a “joia da coroa” das instituições de ensino. Afinal, o curso tem duração mínima de seis anos e baixo índice de abandono – em 2018 ficou abaixo de 1% nas universidades federais, de acordo com o MEC.

“Você atende um aluno disposto a ficar seis anos na instituição, no mínimo, e estudar em período integral. É um aluno que busca a medicina por uma vocação, então ele se esforça ao máximo – não só ele, mas também toda a família”, avalia Guilherme Soárez, CEO da Inspirali, braço de Saúde da Ânima Educação, que tem cerca de 10 mil alunos.

Para ele, foram essas características de “joia da coroa” que chamaram a atenção do mercado nos últimos anos. No final de 2021, a DNA Capital, companhia global de investimentos em saúde, se comprometeu a investir R$ 1 bilhão por 25% do capital social da Inspirali.

A fidelização e a possibilidade de acompanhar o médico por toda sua jornada, da matrícula como estudante de medicina à aposentadoria, também são atrativos desse mercado. Isso porque, mais do que a oferta de cursos de atualização, é possível disponibilizar outros produtos para a base. Essa é, por exemplo, a tese da Afya, que tem investido sistematicamente em serviços digitais para médicos, com a aquisição de healthtechs que facilitem essa jornada.

Necessidade de estar atualizado

Muitos estudantes de medicina, ao finalizarem a graduação, veem como única forma de especialização a residência médica. É um cenário deve se agravar nos próximos anos também pelo enorme contingente de estudantes que estão se formando: esse número é 44% maior do que as vagas de residência disponíveis.

André Raeli, diretor de educação continuada da Afya, explica que muitos precisarão de mais de uma especialização e outros ainda vão precisar empreender para manter o padrão de vida que esperam da carreira médica. “Se hoje temos um grande excedente de candidatos por vaga de residência, a demanda por outros formatos de educação continuada deverá aumentar muito”, projeta.

“Por exemplo, o Programa Mais Médicos aumentou substancialmente o número de vagas em medicina nos últimos anos. E, agora, os alunos desses programas deverão entrar para um mercado que terá uma dinâmica bem diferente de tempos atrás. São médicos que precisarão estudar ao longo de suas carreiras, incansavelmente”, completa.

Por isso, não dá mais para afirmar que a educação médica continuada é um diferencial, mas sim necessidade. De acordo com dados do estudo Demografia Médica no Brasil 2020, feito em colaboração pelo Conselho Federal de Medicina (CFM) e a Universidade de São Paulo (USP), o médico hoje chega a ter até seis vínculos empregatícios ou mais para garantir uma boa remuneração.

“Em cinco anos, o percentual de profissionais médicos com seis ou mais vínculos empregatícios mais que triplicou, além de um aumento da jornada de trabalho semanal neste mesmo período. Logo, buscar uma outra fonte de receita, através da formação acadêmica de uma subespecialidade, ou mesmo pela atuação numa área intervencionista, se faz muito presente”, explica Raeli.

Júlio Braga, coordenador da comissão de ensino médico do Conselho Federal de Medicina, CFM, complementa esse cenário que justifica um mercado acirrado: “Nos planos de saúde, por exemplo, houve expectativa de aumento de contratação por parte da população. Mas a crise econômica não permitiu, de forma a absorver também esses médicos. E no serviço público, a maioria dos estados e municípios não aumentou investimento nos últimos anos. Ou seja, mesmo tendo mais médicos, não teve mais investimento. Nem o setor privado ampliou a contratação, nem o público”.

Jornada completa

Outro aspecto valorizado dentro deste segmento de educação é que a jornada do estudante não se resume ao período que cursa a faculdade. Em um cenário cada vez mais competitivo, maior tem que ser o investimento em um currículo diferenciado, que gere habilidades que vão além do básico aprendido na faculdade, independentemente se o caminho escolhido para o futuro seja por meio da residência ou da pós-graduação.

Maurício Lima, fundador da Sanar, acredita que investir na continuidade dos estudos também é impactar a vida do médico no sentido de trazer novas habilidades e conhecimentos que abrem fronteiras para o profissional: “A medicina tem um nível de atualização muito alto. A educação continuada permite que esses médicos, que precisam se diferenciar, adquiram habilidades que permitam a eles estar em melhores empregos”.

A Sanar é uma empresa focada na persona médica do primeiro ao último dia que pisa na faculdade. “Esse é o nosso sonho: ajudar esse profissional a ser melhor, mais eficiente, mais capaz e que erra menos”, diz Maurício. Ele explica que essa jornada profissional, de mais ou menos 40 anos, é heterogênea. “Para cada momento é exigido uma habilidade diferente.”

Para Renato Carrera, gerente médico de programas internos do Instituto Israelita de Ensino, a necessidade de ter o aprendizado acontecendo a toda hora e a todo o momento existe: “Verdades que antes eram assumidas como perenes não são, de fato, perenes. Isso se transforma e se modifica com o passar do tempo. Se a gente não tem contato com essa informação de maneira estruturada, adequada, você perde o curso da história. E isso não é interessante quando você lida com a vida. Ficar defasado, hoje, não é uma opção”.

Velocidade de informação e tecnologia como aliada

O diretor da Afya traz dados ainda mais expressivos sobre a velocidade de informação: “Segundo o médico americano Peter Densen, o domínio humano sobre a sua saúde, em 1950, dobrava a cada meio século. Em 1980, a cada sete anos. Em 2010, a cada 3,5 anos. E ele projetava, para 2020, uma velocidade de 73 dias para esse crescimento exponencial do conhecimento médico.”

Em resumo, isso significa que o calouro de medicina que ingressar em uma faculdade em 2022 terá 30 duplicações de conhecimento ao longo dos seis anos de formação. “Ou seja: o que foi aprendido no primeiro ano da faculdade será uma pequena fração daquilo que se conhecerá em 2027, quando ele se formar”, finaliza.

Neste contexto, ele destaca que a tecnologia garante inúmeros benefícios, como a possibilidade de se manter atualizado de forma mais rápida e a troca de experiências entre profissionais de diferentes locais do país: “O que há alguns anos já se mostrava como uma tendência, em pouco tempo revelou-se uma necessidade. Para um país como o nosso, com extensão territorial, diversidade cultural e social igualmente grandiosas, há várias questões que tornam o debate em torno da formação em medicina bastante complexo”.

Telemedicina fora do currículo das escolas

Investir em especializações e na continuidade dos estudos na área da saúde é também uma estratégia para diminuir essas desigualdades do setor – visto que, com a pandemia, expandiu-se a possibilidade da telemedicina, que ainda não fazia parte da matriz curricular de grande parte das universidades, e outros adventos tecnológicos que ajudam no exercício da profissão.

Guilherme Soárez, CEO da Inspirali, lembra que “o médico formado, antes da pandemia, não sabia o que era telemedicina. Não fazia parte do currículo das escolas. E a medicina demanda aprendizado constante, uma atualização constante. Esse é nosso posicionamento: tornar-se um parceiro de vida desse profissional de saúde nas novas tecnologias e procedimentos, para que ele possa se manter atualizado e fazendo a diferença”.

“Ainda temos uma cultura bastante analógica, mas essa é uma mudança que, se bem administrada, traz benefícios concretos e fundamentais para a medicina do futuro”, completa André Raeli, da Afya.

Divisão desigual

Mesmo com esse boom dos últimos anos e o aumento constante no número de profissionais médicos, o setor parece deixar também uma lacuna cada vez mais aberta: a defasagem geográfica na demografia médica.

Em uma divisão matemática, o Brasil tem hoje 2,4 médicos para cada mil habitantes. Na distribuição geográfica, porém, as regiões Sul e Sudeste têm esse número multiplicado – atingindo índices ainda maiores do que em países da Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE), principalmente nas capitais.

Vitória, capital do Espírito Santo, tem 13,71 médicos para cada mil pessoas – seguido por Florianópolis (10,68), em Santa Catarina, e Porto Alegre (9,94), no Rio Grande do Sul. Ainda entre as capitais, cinco estão com números abaixo dos índices da OCDE, e todas ficam na região Norte: Porto Velho (3,28), em Rondônia, Rio Branco (1,99), no Acre, Manaus (2,30), no Amazonas, Boa Vista (2,32), em Roraima, e Macapá (1,77), no Amapá.

Para André Raeli, da Afya, “essa realidade impacta a saúde da população. Trazendo apenas três exemplos, podemos destacar o fato de não existir nenhum especialista em Medicina de Emergência em Pernambuco, existir apenas um especialista em Genética Médica no Amazonas e um Angiologista registrado no Amapá”.

Por outro lado, a discussão sobre como diminuir essa disparidade não se resume à abertura de novas universidades, já que o número de escolas de médicos cresceram de forma “indiscriminada, rápida e sem planejamento” na visão de Júlio Braga, do CFM. Para ele, há um problema ainda a ser resolvido: a falta de campos de estágio adequados para lapidar o que é aprendido nas universidades:

“Os estudantes têm saído cada vez mais inexperientes, com pouco contato com pacientes, com pouca atividade prática. Então, além de toda a dificuldade de qualidade dos cursos, atividades pedagógicas, houve uma grande restrição dos campos de estágio. E nos campos de estágio não é somente o contato direto com o paciente, é o contato com a supervisão”.

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