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Eliézer Silva, do Einstein: “Tecnologia possibilita transformar dados em ação”

Em entrevista ao Futuro da Saúde, o médico do Einstein, Eliézer Silva, explora o impacto da evolução da digitalização na saúde e o que ainda está por vir

               

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Das últimas décadas para cá a evolução tecnológica foi exponencial. Empresas e instituições passaram a investir de forma contínua para aprimorar processos e ganhar eficiência com o uso de ferramentas digitais. Por mais que essa transformação digital já estivesse nos planos, a pandemia de Covid-19 acelerou a digitalização em praticamente todos os setores da economia mundial, incluindo a saúde. E vem mais por aí. É o que aponta Eliézer Silva, diretor do Sistema de Saúde do Hospital Israelita Albert Einstein.

Em entrevista ao Futuro da Saúde, o médico abordou esse cenário e mostrou o impacto da tecnologia em diversos aspectos: na melhoria da prática assistencial, no uso de dados para tomada de decisões – inclusive de políticas públicas –, na rápida difusão de informação, na atualização de conhecimento, nos prontuários eletrônicos e até mesmo na possibilidade de cirurgias robóticas à distância com a chegada do 5G.

Ele destaca que a tecnologia oferece também uma oportunidade de aumento de acesso – tanto de informação quanto de formas de atendimento: “A digitalização tem nos permitido encontros em tempo real, atendendo às necessidades mais imediatas. Hoje, o paciente pode utilizar instrumentos em sua casa para monitorar sinais vitais importantes e transmitir esses dados para profissionais de saúde. Isso, antes, era impensável”. Confira a entrevista completa:

Como a tecnologia tem transformado a saúde?

Eliézer Silva – Existem três pontos fundamentais que, sem a tecnologia, não seriam possíveis: a democratização do acesso à informação, a facilitação da prática assistencial em larga escala e a capacidade de armazenamento e análise de dados. As plataformas, agora, permitem uma difusão ampla e rápida da informação, além da capacidade de atualização, que antes era um processo bastante lento: era preciso esperar as publicações mais recentes de livros ou revistas. Com a tecnologia, mais pessoas têm acesso à informação, de forma mais rápida e mais barata. Da mesma forma, mudaram as formas que os cuidados de saúde são providos  às pessoas. Embora haja relatos de atendimentos remotos no passado, a digitalização hoje nos permite encontros em tempo real, atendendo às necessidades mais imediatas. Assim, o paciente pode utilizar instrumentos em sua própria casa para monitorar sinais vitais importantes e transmitir esses dados para profissionais de saúde. Isso, antes, era impensável. E, graças à capacidade de armazenamento, processamento e análise de dados, conseguimos transformar conhecimento em ação.

É esse o papel do Big Data na saúde?

Eliézer Silva – Sim. Conseguimos obter e utilizar dados populacionais e rapidamente estabelecer intervenções que possam impactar positivamente a vida das pessoas. Em 2020, por exemplo, em meio à Covid, a Coreia utilizou dados de geolocalização de celular  de exames de PCR em tempo real para identificar pessoas com testes positivos e seus contatos. A partir desses dados era possível rastrear a doença e informar a população, em tempo real, sobre os riscos de ter contraído Covid, se era preciso realizar o teste nos contatos e, eventualmente, orientar isolamento ou distanciamento social. Ou seja, transformaram  dados em conhecimento e conhecimento em política pública.

Como o 5G vai impactar ainda mais a digitalização da saúde?

Eliézer Silva – O 5G permite uma velocidade maior de transmissão de dados e diminui o tempo de latência. Se eu estou fazendo uma consulta online, acompanhando um paciente de baixa complexidade e nossa comunicação funciona, eu não preciso do 5G. Mas se eu estou dentro de uma ambulância, atendendo um paciente grave, que está apresentando sinais de arritmia, por exemplo, e eu preciso da ajuda de algum especialista para me ajudar a tomar uma decisão em tempo real, o 5G é fundamental. As cirurgias robóticas à distância também só serão possíveis se tivermos latência muito baixa na transmissão de dados e alta capacidade de controle da ferramenta. Os procedimentos se beneficiariam muito do 5G nesses casos, porque os movimentos serão mais precisos e o toque mais real. Esse será um passo importante com a ajuda da tecnologia.

Quais exemplos práticos da tecnologia em saúde vivida no dia a dia da prática clínica?

Eliézer Silva – A tecnologia permeia quase tudo. Tarefas simples, como agendar um exame por meio de plataformas digitais, reduz  ruídos da comunicação e o processo fica mais rápido e acurado. A digitalização permite também a rastreabilidade. Por exemplo, uma pessoa marca o exame. Quando chega ao hospital, faz o check-in por meio de um totem e todos os envolvidos naquele processo sabem que você está ali e o que veio fazer. Se, por acaso, no meio do exame for necessário tomar alguma outra atitude, o médico pode, em tempo real, tomar a decisão de fazer uma biópsia, por exemplo, porque ele tem acesso às imagens do exame que está sendo feito. Dessa forma, você não vai precisar voltar e fazer o procedimento de novo para coletar o material. O laboratório de patologia já recebe a notificação de que uma amostra vai chegar por lá, vinda do exame, e quando sair o resultado todos terão acesso, e, dependendo do caso, o retorno pode ser feito por telemedicina. Ou seja, a jornada eletiva é um grande exemplo do que costumamos denominar como “figital”.

E nos casos de emergência?

Eliézer Silva – Temos a jornada de urgência, também permeada pela tecnologia. Vamos supor que você teve um sintoma, acionou a telemedicina e foi indicado que procurasse um pronto atendimento. Nós geramos um QR Code que já classifica o seu risco, se vai precisar de exames e quais são os sintomas. Quando você chegar ao PS, o atendimento será agilizado. Novamente se estabelece o ambiente “figital” — uma jornada iniciada no digital e vai para o mundo físico de forma facilitada. Terminado o atendimento, o médico da telemedicina tem acesso ao diagnóstico e procedimentos feitos e esses dados ficam armazenados. Se, depois de um tempo, você desenvolver os mesmos sintomas e for atendido por outro profissional, ele vai saber exatamente o que houve da primeira vez e poderá tomar decisões mais assertivas.

Todas essas inovações já existiam antes da pandemia ou foram aceleradas por conta dela?

Eliézer Silva – A estruturação da área de Big Data no Einstein é anterior à pandemia. Nossa telemedicina tem mais de dez anos e nosso prontuário eletrônico atual, que é um dos mais robustos do mundo, foi implementado em 2016. Nós temos tudo registrado e integrado por meio de dados. Temos a Central de Monitoramento Assistencial (CMOA), que acompanha processos como deterioração clínica de pacientes e até situações menos complexas, como o atraso na administração de um medicamento. Essa tecnologia está sendo cada vez mais expandida. Quando chegou a pandemia, já tínhamos um histórico de grande investimento em tecnologia e esse foi um diferencial muito grande para lidar com todos os aspectos da crise sanitária. 

Como essa tecnologia se reverteu em ações durante a pandemia?

Eliézer Silva – O Einstein foi o primeiro a validar os testes diagnósticos para Covid-19, bem como utilizou plataformas sofisticadas para reconhecer as variantes e subvariantes do vírus, por exemplo. Nossa área de Big Data desenvolveu diversos modelos preditivos para antecipar a evolução dos casos de Covid e servimos o Ministério da Saúde com essas informações para que o sistema conseguisse provisionar medicamentos, oxigênio e se preparar para a chegada de novos pacientes.

A tecnologia também pode ter um papel importante na ampliação do acesso? Qual a visão do Einstein sobre essa questão?

Eliézer Silva – Recentemente, nós adquirimos um hospital em Goiânia que atende pacientes do sistema de saúde suplementar. Como a missão do Einstein é impactar o sistema de saúde como um todo, logo na sequência, estabelecemos uma parceria com uma instituição pública da região metropolitana de Goiânia, para a qual pudéssemos levar o modelo de gestão e operação do Einstein, como já fazemos em São Paulo. Funciona da seguinte forma: o hospital segue sendo público, mas toda a estrutura é do Einstein. Tudo isso que mencionamos, desde prontuários até processos digitais, levamos tudo para dentro dessas estruturas. Claro que há diferenças orçamentárias, porque dependemos da contrapartida do poder público, mas tentamos fazer o melhor uso do sistema de parceria para o bem-estar da população, para que todas as pessoas tenham acesso ao Einstein por meio de outros modelos, não somente via saúde suplementar. Nosso alcance aumenta se olharmos para o Einstein como um sistema completo, incluindo ensino, pesquisa e inovação, não apenas a parte assistencial. Dessa forma, conseguimos atingir um público cada vez maior que, como destaquei, está na missão do Einstein.

O que ainda pode melhorar, em termos de tecnologia, e como a digitalização pode impactar ainda mais o acesso à saúde no país?

Eliézer Silva – A cada momento que você avança no digital, novas tecnologias vão aparecendo. Existe uma capacidade de inovação de processos que é um aprendizado diário. Imaginamos que nossa área de Big Data vai tornar possível conhecer as pessoas de forma mais acurada e em maior escala. O Einstein, quando foi criado, era de poucos. Quando fomos para o SUS, ele passou a ser de muitos. Com a transformação digital, ele vai ser o Einstein de cada um. Queremos conseguir oferecer o melhor por conhecer melhor. Nós trabalhamos para cumprir exatamente o que está escrito na missão da instituição: levar uma gota de Einstein para cada cidadão brasileiro. Estamos no caminho.

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