Eleuses Paiva, secretário de saúde do Estado de São Paulo: “Com a regionalização vamos fazer uma gestão mais eficiente e personalizada”

Eleuses Paiva, secretário de saúde do Estado de São Paulo: “Com a regionalização vamos fazer uma gestão mais eficiente e personalizada”

No mais recente episódio de Futuro Talks, Eleuses Paiva falou sobre a regionalização da saúde em São Paulo, a criação da tabela SUS Paulista, a redução das filas de cirurgias eletivas e o combate à dengue

By Published On: 25/03/2024
Eleuses Paiva, secretário de saúde do Estado de São Paulo, em entrevista ao Futuro Talks

A gestão da saúde pública no Brasil carrega desafios complexos. Enquanto existem diversos problemas para resolver ao mesmo tempo, a escassez de recursos faz com que os gestores tenham que ser eficientes e saibam priorizar as ações, de preferência baseado em dados. Esse foi um pouco do teor da conversa com Eleuses Paiva, secretário de saúde do Estado de São Paulo, no mais recente episódio de Futuro Talks.

Mesmo estando no comando da unidade federativa mais rica do país, Paiva evidenciou que a questão do acesso também ocorre no estado. “A população da região de Ribeirão Preto, por exemplo, tem mais acesso do que os do Vale do Ribeira”, exemplificou. O secretário afirmou que, quando assumiu a pasta, ficou impressionado com a falta de dados que existiam.

Neste contexto, São Paulo tem tentado liderar um processo de regionalização da saúde. Segundo ele, a parceria que o Estado fez com a Organização Panamericana da Saúde ajudou a traçar um verdadeiro diagnóstico da situação – trabalho que, segundo ele, foi feito a muitas mãos, com participação dos secretários municipais. A avaliação foi um ponto que contribuiu até mesmo para a definição da Tabela SUS Paulista. A ideia, de acordo com Paiva, é remunerar melhor os mais de 7 mil procedimentos, de forma que os hospitais e serviços “produzam” mais e tenham ocupação adequada, que possibilite o andamento da fila de pacientes.

Ao longo da conversa, Paiva detalhou as estratégias para diminuição da fila de cirurgias eletivas no SUS, falou sobre as ações no combate à dengue – e da vacina do Instituto Butantan, que ele espera estar pronta para aplicação na população perto do último trimestre do ano. O secretário também explicou as decisões que levaram às movimentações sobre prevenção do HPV e explorou a questão da digitalização da saúde.

Confira a entrevista a seguir:

Dado recente aponta que internações por dengue ou Covid aumentaram nos hospitais privados de São Paulo. Se a situação está assim na saúde privada, como está a situação na saúde pública de São Paulo?

Eleuses Paiva – O que vemos no setor privado é muito similar na saúde pública. Mas com mais dados. Falamos de Covid e dengue, mas tem a influenza que nos preocupa. Inclusive, sobre o número de casos graves, quando comparamos influenza e Covid, a influenza ainda tem um número maior. O Instituto Butantan, há duas semanas, já começou a enviar os lotes de vacina de influenza para o Ministério da Saúde. Acredito que vacina de influenza, nos próximos dias, teremos em todos os postos de saúde aqui do Estado de São Paulo. Em relação à dengue, estamos fazendo a lição desde 2023. No segundo semestre de 2023, o Estado de São Paulo foi o primeiro que alocou estruturas sentinelas. Foram mais de 70 estruturas sentinelas para monitorarmos o foco de mosquitos e o vírus que estava circulando no Estado. Isso nos levou a ter uma previsão do que teríamos em 2024 e uma série de atitudes foram tomadas. Se compararmos todos os estados com limites geográficos com São Paulo, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Goiás e Mato Grosso do Sul, o número de casos é cinco, seis vezes maior proporcionalmente por 100 mil habitantes que São Paulo. Isso mostra que conseguimos tomar uma série de atitudes para poder mudar o ângulo de crescimento dessa curva de epidemia.

Tem mais dados sobre dengue?

Eleuses Paiva – Vou te dar alguns importantes. Nós estamos vivendo a 11ª semana epidemiológica, comparado ao ano de 2024. Eu gosto de comparar muito o ano de 2024 com o ano de 2023. Em 2023, na 11ª semana epidemiológica, nós tínhamos 203 mil casos notificados no Estado de São Paulo. Agora, em 2024, um ano depois, nós temos 531 casos. Ou seja, duas vezes e meia maior, se formos ver os confirmados. Quer dizer, uma coisa é caso notificado, outra coisa é aquele notificado que confirmou, nós fizemos exame e confirmou para a dengue. Em 2023, nós tínhamos 95.861 casos. Agora, em 2024, mesma semana epidemiológica, 215.707. Praticamente duas vezes e meia. Aí vamos ver as mortes. Em 2023, 107 mortes. Se tivesse a mesma perspectiva, duas vezes e meia, nós estaríamos falando algo em torno de 260, 270 mortes. No entanto, 66 mortes [nota da edição: a entrevista foi gravada em 15 de março]. O que significa? Que todo aquele trabalho que fizemos, principalmente de capacitação de rede, profissionais de saúde, da atenção básica dos municípios, surtiu efeito. Quando se faz a lição de casa, se tem resposta. E a saúde é assim, precisamos agir cientificamente e tecnicamente para tomar as atitudes na hora certa.

Quando você traz a questão da capacitação, é a ideia de reconhecimento dos sintomas, de atender logo o paciente que chega para ser hospitalizado, justamente para reduzir a mortalidade?

Eleuses Paiva – Quando levei esses dados para o governador, em outubro de 2023, eu falei: “Governador, a epidemia em 2024 vai ser severa, nós estamos tomando tais e tais atitudes”. Ele falou: “Chama todas as secretarias”. Quando entramos em 2024, usamos toda a estrutura da Secretaria de Educação para capacitar os profissionais para poder chegar nas crianças, nos adolescentes, para virarem os “soldadinhos da dengue”. Até porque, não vai dar certo se não conseguirmos motivar a sociedade. Porque 75%, 80% dos focos estão nas residências. Mas tem 20% fora, em praças e prédios. Por isso, o poder público também tem que estar investindo. E, desta forma, a Secretaria de Segurança Pública conseguiu mobilizar as Forças Armadas e o Exército. Além da Defesa Civil, Área Social, Secretaria da Mulher, quer dizer, todo o governo do Estado de São Paulo se mobilizou.

Como foi essa capacitação?

Eleuses Paiva – No primeiro momento, o foco foi a capacitação desse time. Para soltar o time na rua, era necessário capacitação. No segundo momento, tomamos uma atitude, pela primeira vez aqui no Estado de São Paulo, que depois outros estados também começaram a fazer, que foi colocar a nossa sala de situação. O que é a sala de situação? Nós temos um portal, e nesse portal vemos como está a situação da dengue em tempo real no Estado de São Paulo. No site, é possível acompanhar por cidade, o número de casos notificados, confirmados, graves e de óbitos. Ou seja, temos um mapa de todo o Estado de São Paulo. A dengue não evolui exatamente igual em todas as cidades. Estamos começando a montar uma gestão personalizada por região, conforme as necessidades. O que é importante? Primeiro, fazer o diagnóstico. Temos toda a rede de laboratórios pronta para poder responder o mais rápido possível. Para isso, estamos automatizando o Instituto Adolfo Lutz. Exames que demoravam em torno de 4, 5 dias, agora levam 24, 36 horas, melhorando toda a parte laboratorial. Segundo, a resposta ao paciente. Diagnóstico precoce, exames, não só de confirmação, mas também de hemograma, uma série de exames para dar conduta. Essa é ainda a grande arma que temos. Tentando diminuir o número de casos graves. E nos casos graves, temos que dar suporte na rede hospitalar. Através desse portal, vemos quais os locais têm o maior número de casos graves para poder aumentar a rede hospitalar e a capacidade de receber UTI e leitos de enfermaria. Assim, melhoramos o suporte da atenção básica, de hospitalar e capacitamos o profissional.

E o fumacê?

Eleuses Paiva – Outro ponto é o fumacê. O Estado de São Paulo adquiriu 700 máquinas. Capacitamos os profissionais conforme os pedidos das prefeituras. Em conversa com o governador, expliquei que nada disso vai dar certo se os municípios não tiverem recursos para poder estar alocando e fazendo o necessário. Na primeira semana que tivemos em São Paulo mais de 300 casos por 100 mil habitantes, o que já é considerado uma epidemia, o governador fez questão de repassar 205 milhões de reais aos municípios do Estado de São Paulo, justamente para cada município ter recursos para estar começando com insumos, contratação de recursos humanos e a readequação da rede. Outra novidade é que liberamos repelentes para gestantes. Calculamos algo em torno de 50, 60 mil gestantes, hoje, no estado. Estamos começando a abrir uma licitação e acredito que nos próximos 30 dias vamos oferecer via atenção básica, no estado de São Paulo, repelente para as gestantes, que é uma população vulnerável.

Não tem como falar de dengue sem falar de vacina. Como está o desenvolvimento da vacina do Instituto Butantan?

Eleuses Paiva – A solução para fazer, inclusive, o bloqueio de futuras epidemias, com certeza é a vacina. A vacinação é a grande ferramenta que temos em saúde pública para evitar epidemias como a da dengue. Nós temos dengue, Chikungunya, Zika vírus. Toda a arbovirose. Hoje, o que nós temos no mercado é uma vacina adquirida pelo Ministério da Saúde, uma vacina feita em duas doses. Portanto, todo o estudo dessa vacina foi feito a partir da segunda dose, para ver a antigenicidade e o nível de cobertura. E esse é o primeiro grande problema que temos. Porque a primeira dose, depois que você aplica, a segunda dose tem um espaço de 90 dias. Por exemplo, quem recebe a vacina final de março, em junho receberá a segunda dose. Mas a cobertura vacinal adequada é a partir de 30 dias da segunda dose, ou seja, estamos falando de uma cobertura adequada para agosto.

Ou seja, para a epidemia do ano que vem.

Eleuses Paiva – Exato. Essa vacina é importante e vai ter um impacto em 2025. O que estamos fazendo em paralelo? O Butantan está há cerca de uma década e meia com o projeto de uma vacina, que agora estamos terminando a terceira fase e as respostas são muito satisfatórias. Essa vacina, ao longo de mais de uma década, podemos afirmar que é segura. E com uma resposta de eficácia muito boa, da ordem de 80%.

“Essa vacina devemos levar, provavelmente, no mês de junho, julho, um pedido à Anvisa. Esperamos que até outubro ou novembro, ela esteja disponível no mercado.”

Essa vacina é de dose única?

Eleuses Paiva – Dose única. Essa é a grande vantagem. Vacina de dose única, começando cobertura 15 dias após a aplicação da dose. Uma resposta relativamente rápida. Estamos focados em aplicar os recursos necessários para conseguirmos fazer um bloqueio no ano de 2025.

Haverá capacidade produtiva para essa produção em escala nacional?

Eleuses Paiva – Estamos com esse foco. Eu vou dar uma variável muito grande, mas em torno de 15 a 50 milhões de doses, temos condições de estar alocando para o ano que vem. A ideia é chegar pelo menos a 40% para poder fazer uma cobertura. Teremos uma ferramenta importante para fazer o bloqueio de dengue no estado de São Paulo a partir de 2025.

Mudando de assunto, como São Paulo tem enfrentado a questão dos procedimentos represados e as respectivas filas?

Eleuses Paiva – Quando assumimos o governo, tivemos reunião com o governador para ver como estava a saúde do estado de São Paulo. Estava colapsando. Por que colapsando? Porque passamos 24, 30 meses, toda a saúde pública e privada focada em Covid e era o que realmente tinha que ser feito. Isso não foi apenas no Brasil, mas no mundo. Só que as outras doenças, elas têm um ciclo natural e continuam. O que acontece? Quando tiramos o foco de Covid, aqueles casos que normalmente são casos crônicos, a maioria deles vão se tornando agudos. As pessoas, para poder ter acesso, tanto o público como o privado, iam via urgência e emergência. Como a urgência e emergência sobrecarregava, as cirurgias eletivas não tinham espaço, porque aquilo que seria cirurgia eletiva, virava urgência e era atendido. Esse era o quadro que encontramos. Além disso, havia praticamente oito mil leitos fechados no estado de São Paulo.

Qual foi o diagnóstico do problema?

Eleuses Paiva – Só tem um jeito de diminuir fila: ampliar o acesso das pessoas. Ter uma oferta maior do serviço público. E foi isso que fizemos nos primeiros meses. Focamos em mutirões de saúde no Estado de São Paulo. Começamos pelo que entendemos ser mais grave: oncologia. Tínhamos 1.856 pessoas quando fizemos o primeiro levantamento em janeiro, que esperavam na fila há mais de sete meses para começar um tratamento. O governador pede o foco para a área e repassa um orçamento de 450 milhões de reais para ampliar o acesso à oncologia no estado de São Paulo. Em 90 dias conseguimos que nenhum paciente, na regulação do Estado, esperasse mais do que 60 dias para iniciar o tratamento. Isso com ajuda das UNACONS e dos CACONS, que são unidades de atendimento de oncologia e os centros de atendimento ampliados. E, obviamente, um aporte de recursos para que esse atendimento fosse viável. Além disso, vimos que 47, 48 procedimentos eram os que mais colapsavam a fila. Fizemos mutirão em cima deles. Novamente, oferta de mais de 250 milhões de recursos para focarmos nesses procedimentos. Isso começou a fazer com que as filas fluíssem.

E em outras áreas?

Eleuses Paiva – Foram realizados outros dois diagnósticos. Um, em cardiologia. Tínhamos quatro cirurgias que tinham pessoas esperando e morrendo na fila, na área de cardiologia. Que era a cirurgia de revascularização, os pacientes com consciência coronariana, pacientes com valvulopatia e também congênitas, adulto e infantil. Para essa área foram direcionados mais de 150 milhões de reais para poder ampliar o acesso. E conseguimos reduzir drasticamente essas filas. E por último, ortopedia. Em 35 dias, realizamos mais de 18 mil cirurgias ortopédicas no estado de São Paulo. Chegamos no final do ano e de cirurgias eletivas no Estado de São Paulo fizemos mais de um milhão.

“É o maior número de cirurgias eletivas da história da saúde pública. Se pegarmos eletivas e mais os casos que deram entrada em urgência e emergência, nós vamos chegar a um milhão e sessenta mil cirurgias no estado de São Paulo.”

Mas isso não resolveu todos os problemas, certo?

Eleuses Paiva – Não resolvemos todos os problemas, o que aponta para outro diagnóstico. O Estado de São Paulo, a hora que reduz a fila e coloca num tempo hábil, as pessoas que moram aqui e têm parentes em outros estados e lá não tem atendimento ou estão esperando quatro, cinco meses na fila, eles ligam e falam: “Vem para São Paulo que aqui consegue”. Então, temos a migração de pacientes de outros estados para São Paulo para tratar. Eu já apresentei esse dado ao Ministério da Saúde. Se pegarmos os exames e os tratamentos de alta complexidade, São Paulo é responsável por 50% do Brasil. São Paulo não tem 50% da população. Na realidade temos uma infiltração de outros estados. É nosso dever atender a todos, até porque o SUS é universal. Nós temos que atender a todos, é o direito que a pessoa tem à saúde.

Tem alguma outra especialidade no radar que precisa de foco agora? Oftalmologia?

Eleuses Paiva – Oftalmologia está no radar E estamos começando a discutir a regionalização da saúde, alinhando com todos os municípios do Estado de São Paulo, em cada região, um convênio com repasse, inclusive, de recursos. Mas cada município está apresentando para nós o que está ofertando de serviço ao SUS. E qual é a lógica disso? Se cada município passar a oferta, nós também temos a oferta do que o Estado de São Paulo faz. Logo, conheço a demanda histórica. Se eu conheço a oferta e a demanda, tem-se a velocidade de atendimento. Com a velocidade de atendimento, olhamos por região, qual setor precisa de mais investimento. Não obrigatoriamente os próximos mutirões serão para todos os municípios. Posso ter regiões que tenham mais necessidade de um atendimento, do que outro. É isso que queremos fazer na regionalização, uma gestão personalizada por região do estado, de acordo com a sua necessidade.

Sobre a eventual possibilidade de parceria público-privada para melhorar, inclusive, o acesso. Como você vê esse cenário? É possível?

Eleuses Paiva – Vejo como possível e necessário. Para quem depende do SUS, do setor público, a pessoa quer ser atendida. E nesse momento, público-privado, temos que se entrelaçar, porque a saúde é uma coisa só. Nos mutirões, já tentamos atrair uma parte do privado.

Funcionou?

Eleuses Paiva – Funcionou. Em algumas especialidades nós conseguimos. É muito importante que, agora, com a nova Tabela SUS Paulista, passe a ser viável o atendimento, para atrair mais o setor privado. O setor privado não é inimigo do público. O que temos que saber é onde precisamos e onde não, onde é possível fazer esse entrelaçamento dos setores. O nosso foco precisa ser o atendimento ao paciente. Garantindo o atendimento de qualidade, eu acho que esse é o nosso objetivo.

Sobre a regionalização. você trouxe na sua fala essa importância de atender demandas específicas de acordo com as necessidades das regiões. O quanto isso já avançou?

Eleuses Paiva – São Paulo não é homogêneo. As regiões têm necessidades diferentes. Para São Paulo, o estado mais rico da federação, temos cidades com índice de vulnerabilidade social que envergonha qualquer estado. A política pública a ser adotada nesse estado, e não é só da área de saúde, precisa ser direcionada para essas regiões para ter uma equidade. Quando se fala em equidade, é justamente esse o diagnóstico que tínhamos na saúde. As necessidades da região de Ribeirão Preto são totalmente diferentes, por exemplo, do Vale do Ribeira. Em todos os pontos, do ponto de vista social, de oferta e do número de profissionais de saúde. Portanto, precisamos ter visões e tratamentos diferentes para melhorar a equidade do estado. É isso que estamos levando para as 21 regiões e com visitas de toda nossa equipe. Mas não queríamos reunir só o setor político, mas escutar o prestador. Saber quem era o médico que estava na frente de uma atenção básica, de um serviço privado, de um hospital filantrópico. Ouvir o profissional que está na linha de frente para conhecer todas as necessidades de cada um e poder ter um diagnóstico de cada região.

“E, a partir do momento que começamos a ter o diagnóstico de cada região, fizemos algumas propostas que considero extremamente inovadoras para o setor de saúde.”

A criação da Tabela SUS Paulista foi uma delas?

Eleuses Paiva – Por que surgiu a Tabela SUS Paulista? Não era novidade para ninguém o problema de financiamento do setor. Começamos a pegar os dados de algumas cidades da rede hospitalar. Os hospitais que atendem alta complexidade, que realizam cirurgia, neurocirurgia, transplante, uma cirurgia cardíaca, cirurgias mais complexas, obviamente, têm um custo diferente de um hospital de baixa, de média complexidade. Até porque o número de profissionais e recursos humanos são diferentes. É um hospital que tem um custo maior. Sobre o cenário do estado de São Paulo, quando vamos para os hospitais de alta complexidade, a taxa de ocupação é de 95% a 110%. Isso significa o que estamos acostumados a ver, pacientes em fila de corredor, deitados na maca, sentado no leito. Exatamente tudo o que não queremos. É a fotografia real do estado. Conversamos com o prestador para entender essas filas dentro desses hospitais. Para a nossa surpresa, 60%, aproximadamente, dos pacientes internados no hospital de alta complexidade, são pacientes de média e baixa complexidade.

Estão no lugar errado, ocupando um leito que não precisava.

Eleuses Paiva – Esse foi o diagnóstico e nos sensibilizou. Qual era o próximo foco? Focar nos hospitais de pequeno e de médio porte, porque são os hospitais que devem atender a baixa e média complexidade. Focamos neles. E a nossa surpresa? A taxa de ocupação desses hospitais era de 25% a 30%.

Ou seja, capacidade ociosa.

Eleuses Paiva – Os hospitais de média e baixa complexidade com taxa de ocupação de 25% a 30%. O hospital de alta, com taxa de ocupação de 110%. Esse era o diagnóstico. Chamamos gestores para conversar. A tabela que o SUS remunera a média complexidade não altera há mais de 20 anos. O que acontece? Quanto mais o hospital atende, maior o endividamento. E se você pegar toda a rede filantrópica, toda ela está com sérios problemas de saúde financeira. O que eles fizeram para se defender ao longo dos anos? Eles foram reduzindo o número de leitos de oferta ao SUS. Porque é inviável ele se manter. Assim, reduziam e jogavam a pressão sobre o Estado para ter incentivo. O Estado pega e dá mais incentivo. Só que no próximo ano continua sem nenhuma alteração. Ele reduz mais um pouco e vai buscar mais um pouco de incentivo. E agora é o modo contínuo, porque não tem hospital no mundo que consiga sobreviver com taxa de ocupação de 25% ou 30%. Fomos conversar com o governador e foi necessária coragem política para fazer isso. Eu disse: “Governador, nós temos que remunerar adequadamente”. Acabar com os incentivos no Estado de São Paulo. Remuneramos adequadamente com uma tabela justa. Quanto mais produz, mais você recebe. Assim é no setor privado, em qualquer setor no mundo. Você injeta saúde financeira. E vamos pegar esses hospitais de média e alta e eles vão voltar a taxa de ocupação de 80% a 85%. Os hospitais universitários ficaram assustados de os leitos ficarem vazios.

E vai?

Eleuses Paiva – Mostramos para eles que não. É só olhar as filas. O problema não é ter fila. O problema é fazer a fila andar. E mais do que isso, a fila tem que andar e dar uma previsibilidade para quem está na fila ser atendido antes da sua doença piorar. Nós vamos reduzir e as filas vão começar a andar. Esse é nosso foco, essa é a tabela SUS Paulista. Precisamos ter humildade e saber que sozinho não se faz nada. A parceria com a OPAS foi fundamental. Primeiro, para ter o diagnóstico. Segundo, para o projeto de regionalização. Outro ponto, como nós vamos fazer essa tabela? Porque não é fácil. Estamos falando de mais de 7 mil procedimentos. O que é justo? Qual é o valor justo? Fomos atrás da Fundação de Pesquisa Econômica da Universidade de São Paulo (FIPE) que nos ajudou a atualizar os valores. E hoje tem valores que atualizaram cinco vezes o valor, um aumento de 500%. Outros menos, porque tinham tido reajuste anteriormente. Dos 7 mil, tivemos também a humildade de falar o seguinte: “Podemos ter cometido erros? Com certeza”. 7 mil é impossível. A cada seis meses vamos reavaliar o canal de consulta para receber críticas e sugestões para ter um valor justo. Esperamos não só atingir a saúde financeira dos hospitais, mas viabilizar que esses hospitais passem a atender, primeiro, adequadamente, segundo, com qualidade e possam aumentar a oferta de serviço. Aumentando a oferta de serviço de média e alta, vamos esvaziar os hospitais de alta complexidade.

“Nós passamos os primeiros 60 dias deste ano assinando o convênio com cada região do Estado, com as prefeituras, com os hospitais, para, a partir de março, começar a funcionar a tabela de SUS Paulista.”

A partir de março, esses novos valores vão ser pagos?

Eleuses Paiva – Já estão começando a ser pagos. A partir do dia 25 de março toda a rede hospitalar no Estado de São Paulo já trabalha com a tabela nova. Para isso, o governador do Estado de São Paulo está aportando R$ 4,8 bilhões a mais na saúde pública do Estado, só focado na tabela SUS Paulista. Foi o primeiro governo de estado a assumir que tem essa defasagem e vamos remunerar adequadamente e fazer com que as nossas filas andem para aumentar a produtividade de atendimento.

É possível trazer essa experiência do Estado de São Paulo para outros?

Eleuses Paiva – Temos recebido secretários, conversando, conhecendo a tabela, os critérios, mas isso vai da decisão política de cada governador tomar essa atitude.  Após o governador Tarcísio assumir essa postura, vimos que o Congresso também aprovou uma lei que terá reajuste anual. Outro questionamento foi sobre o aumento da oferta. Entra a regionalização. Porque quando estamos assinando o convênio do repasse, estamos pegando os dados e vamos saber, por exemplo, qual que é necessidade e vou aumentar conforme a necessidade. Por isso é preciso uma gestão personalizada por região.

Para isso os dados são fundamentais.

Eleuses Paiva – Fundamentais. Sem dados, não dá para trabalhar. Quando não se tem acesso à informação, se fica numa ciência que já está em desuso, a ciência da achologia. A achologia não dá mais para trabalhar.

Sobre o tema da saúde digital. Como está essa frente aqui no Estado de São Paulo?

Eleuses Paiva – Está mais lento do que gostaríamos. Mas este ano estão sendo colocadas algumas propostas. Primeiro, estamos apresentando a parte de saúde digital e trabalhando em projetos com as universidades públicas. Vamos trabalhar muito com as universidades públicas, fazendo uma plataforma que possa se multiplicar em todo o Estado de São Paulo. Para este ano, devemos apresentar a parte de saúde digital, muito focada, primeiro, no sistema prisional, podendo atender todos. São mais ou menos 300 e poucas mil pessoas no sistema prisional para estar fazendo todo o atendimento via saúde digital. Sabemos a dificuldade de tirar uma pessoa de um presídio, levar para um posto de atendimento e trazer novamente, não só o recurso, como toda a estrutura montada. Essa parte de atenção do sistema prisional está sendo entregue provavelmente nos próximos meses. Fora isso, estamos começando com o AME digital. E também uma terceira perspectiva, que possa neste ano ter 10 a 15% de toda a atenção básica do Estado de São Paulo, também focado com interoperabilidade, que é o grande desafio.

“Esse ano devemos dar um salto muito interessante na parte de saúde digital. E outra área que é da assistência farmacêutica. Isso nós temos que melhorar. Esse é um grande desafio.”

Sobre a assistência farmacêutica, o que precisa melhorar?

Eleuses Paiva – Velocidade da entrega. E talvez podemos fazer isso via digital e estar levando medicamento para dentro de casa. Nós estamos hoje com uma plataforma bem avançada e provavelmente é um produto que devemos estar entregando nos próximos 60, 90 dias.

Quando pensamos em serviço público, a impressão que dá é que leva tempo para acontecer. Principalmente pós-pandemia, há como agilizar?

Eleuses Paiva – O setor público tem uma série de burocracias um pouco diferentes. No privado, temos mais agilidade para a tomada de decisão. No setor público, isso é um pouco mais lento. O que me impressionou muito é a falta de informação que tínhamos no setor. Nós passamos esse primeiro ano tentando ter acesso à informação e criar mecanismos para termos acesso à informação rápida, tomar a decisão e conhecer a resposta. Estamos criando todo o mecanismo, e isso que é importante, acesso à informação e tomada de decisão rápida em cima da informação que se tem. Aposto muito no SUS, e não faço muita diferença de público e privado quando se foca na parte de qualidade. Precisamos ter a mesma entrega e qualidade no público e privado. Temos que levar a excelência da saúde pública. E aí todas as ferramentas, seja público ou privado, para garantir excelência de atendimento.

Sobre o veto do governo ao projeto de prevenção do HPV nas escolas. A repercussão foi negativa para o governo. Há essa possibilidade de rever o que está sendo feito dentro desse contexto?

Eleuses Paiva – Talvez isso não ficou muito claro. Vinha um projeto do Legislativo que colocava algumas obrigações para os municípios, em específico, não só a vacina de HPV, mas outra vacina focada também em HPV. E houve um entendimento de uma análise que no SUS, não obrigamos nada, mas pactuamos tudo. E pactuar significa diálogo entre as partes, entendimento para poder fazer. Quando o governo veta esse artigo, baseado na obrigação que estávamos pactuando, criou-se uma falsa impressão que era o contrário. No entanto, 30, 40 dias depois, nós levamos vacina de HPV e vacina de uma maneira geral para dentro das escolas. O que chamamos de “Vacina sem muros”. Que é sair a vacina da atenção básica e ir para localidades onde precisa aumentar realmente a cobertura vacinal. Desde os primeiros 100 dias de governo, nosso foco foi aumentar a cobertura vacinal no estado de São Paulo. E HPV é um desses focos. Nós queremos levar a vacina para a porta do metrô e locais onde tem grande circulação. O Estado de São Paulo já foi referência, não só no Brasil, mas mundialmente de cobertura vacinal. Já chegamos a níveis de 95% de cobertura vacinal. No entanto, hoje estamos beirando 80%, algumas vacinas em torno de 70%. Já aumentamos 20% em média a cobertura vacinal no estado. E é uma meta do governo Tarcísio chegar até o final dessa gestão com cobertura vacinal acima de 90%.

Muitas pessoas não conseguem ir para a UBS para tomar a vacina, naquele horário.

Eleuses Paiva – E UBS tem aquele horário de atendimento, não é aberto 24 horas. Essa é a ideia. Levar a vacina para os locais de grande circulação para estimular. E criamos um portal chamado Vacina Sem Dúvidas, que reúne justamente as principais dúvidas que as pessoas têm sobre a vacinação. Nós erradicamos varíola graças a vacina. Paralisia infantil também. Esse nível de conscientização a ser levado para a sociedade para mostrar a importância da prevenção, proteger os nossos filhos e as nossas crianças. Vacina é promoção de saúde.

Segundo uma reportagem da Folha, a Secretaria Estadual diz que há um prazo de fornecimento de Cannabis medicinal na rede pública para maio. Como está essa disponibilização e como isso vai acontecer na prática?

Eleuses Paiva – No primeiro momento teve a aprovação de um projeto de lei, que foi referendada pelo governador com posição favorável da Secretaria de Saúde. No segundo momento, era saber quando está indicado o uso de Cannabis. Nós reunimos toda a comunidade científica que tínhamos no Estado de São Paulo e no Brasil, todas as sociedades e especialidades científicas envolvidas nisso, todas as universidades públicas do Estado de São Paulo e também do Brasil, para olhar o que tem na literatura mundial de utilização de Cannabis, além da evidência científica para utilização. A partir do momento que foi delimitada a utilização, fomos para um segundo momento que é fazer o chamamento público. Agora, estamos abrindo uma licitação.

“Eu acredito que, se tudo correr bem, não tiver nenhum outro impedimento legal, dentro de 30, 40 dias, o Cannabis estará sendo oferecido. É o primeiro Estado brasileiro que deve fazer isso.”

Quais são as pautas no cenário de saúde para ficar de olho? E quais os próximos passos, inclusive da sua gestão, o que vai ser prioritário daqui para frente?

Eleuses Paiva – Nosso foco é levar a saúde pública para um grau de excelência. Parceria pública e privada. E uma ferramenta que precisamos avançar, é com a saúde digital. A saúde digital vai fazer uma transformação na assistência. Outro tema interessante é a atenção básica, falamos em tratamento, mas precisamos falar em promoção e prevenção. Para isso estamos alocando mais de 800 milhões de reais para a atenção básica do Estado de São Paulo. A ideia é focar em recursos, mas ter resposta. Porque não adianta você colocar recursos se você não tiver resposta. Um exemplo. O Estado de São Paulo tinha o Piso de Atenção Básica (PAB), que era R$ 4,00 por habitante. Em nossa gestão, vamos fazer de R$ 15 a R$ 40, quer dizer, 4 a 10 vezes mais. E como vai ser? Pelo número de habitantes. Quanto menor o município, maior a dificuldade tem o município de ter uma equipe bem estruturada de saúde da família, porque esse é o custo. Esse é um critério. Segundo critério é o índice de vulnerabilidade social. Quanto maior a vulnerabilidade social, maior precisa ser o compromisso do Estado com aquele município e com a população daquela região. Esses vão dar os parâmetros. Como exemplo, temos mulheres morrendo com câncer de colo de útero, que é plenamente evitável. Temos a vacina de HPV. Hoje, os municípios, para receberem, assinam um compromisso conosco. De 13 a 70 anos queremos dois papanicolau por ano, que é justamente para poder detectar. Para isso, todo prefeito vai ter que apresentar um plano para rastrear a população e garantir o uso de papanicolau. Com a vacina, daqui a 4, 5 anos, conseguiremos erradicar o câncer de colo de útero no estado de São Paulo. Estamos dando recursos, mas mudando indicadores de saúde do estado. Outro dado é sobre a vacina. Cobertura de 90%. O município, para receber, ele vai ter que estar com cobertura acima de 90%. Se não está, precisa nos mostrar quais são as ações que estão fazendo para chegar a esse nível de cobertura. Infelizmente, pós-pandemia, temos dois índices que começaram a alterar negativamente. Índice de mortalidade materna e índice de mortalidade infantil. O grande problema, gravidez de alto risco. Pré-natal não está sendo feito adequadamente no estado de São Paulo. Vamos exigir, no mínimo, sete consultas de pré-natal na gravidez. Vamos identificar a gravidez de alto risco e atuar sobre ela. É você ofertar recursos para o município e saber cobrar e mudar indicadores de saúde.  Esse é o desafio, mudar a realidade de saúde e os indicadores de saúde do estado de São Paulo.

Natalia Cuminale

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, com as reportagens, na newsletter, com uma curadoria semanal, e nas nossas redes sociais, com conteúdos no YouTube.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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Natalia Cuminale

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, com as reportagens, na newsletter, com uma curadoria semanal, e nas nossas redes sociais, com conteúdos no YouTube.