É preciso lembrar das outras vacinas também

A vacina do HPV está disponível há anos, com eficácia comprovada para erradicar uma doença grave como é o câncer, mas está nas geladeiras de postos de saúde em todo o país

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Tenho dedicado muito do meu tempo para estudar artigos e trabalhos científicos sobre vacinas e a relevância que o tema ganhou neste ano, impulsionada pela expectativa da chegada ao mercado das vacinas para proteger a população mundial contra o novo coronavírus e evitar a doença por ele causada, a covid-19.

No entanto, meu artigo de hoje trata de outro tipo de vacina: a do HPV (Papilomavirus humano). Desenvolvida após anos de pesquisas e disponibilizada globalmente em 2006, atualmente faz parte do cronograma de vacinação de mais de 50 países no mundo, como parte das estratégias de saúde pública. No Brasil, essa vacina está disponível gratuitamente no Sistema Único de Saúde (SUS) desde 2014, para meninas de 9 a 13 anos e, desde 2017, ofertada também para meninas até 14 anos e meninos com idade entre 11 a 14 anos.

Fico inquieta ao saber que há 6 anos a vacina que previne contra vários tipos de câncer, como o de colo de útero, pênis, ânus e garganta está disponível na rede pública e muitos brasileiros ainda não foram imunizados. Segundo dados do SUS, a cobertura vacinal entre as meninas de 9 a 14 anos é menor do que 50% e, entre os meninos, abaixo de 20%, no período entre 2014 e 2019.  Apenas para contextualizar, em Ruanda, país localizado na região central da África, o câncer de colo de útero é o mais frequente em adultos, com uma taxa de incidência de 31,9/ 100.000 habitantes e, em 2018, atingiu a taxa de mortalidade de 24,1/ 100.000 habitantes. Mas esse cenário tem prazo de validade e, em alguns anos, o país irá reportar índices radicalmente distintos, pois desde 2011 implementou um plano de vacinação que, ano a ano, alcança índices de cobertura acima de 90%.

Em 21/8, fiz uma pesquisa no Google Brasil sobre “vacina de covid-19” e “vacina de HPV”. Naquele instante, foram realizadas 38.100.000 buscas para a vacina da covid-19 e 1.290.000 para a do HPV.  E o que isso quer dizer para mim?

Quer dizer que já passou da hora do país levar informação e orientação sobre saúde para a população. E isso é o que tenho feito – e assumi como missão – desde 2008. E não vou sossegar enquanto não conseguir mobilizar a população para questões sérias, que podem ser solucionadas com a participação da sociedade civil e vontade política. Um exemplo factível é o da erradicação do câncer de pênis no Brasil, que atinge de 3 a 6,5 homens a cada 100 mil habitantes, colocando o país entre àqueles com mais casos da doença no mundo, segundo dados do Globocam, órgão francês ligado à Organização das Nações Unidas (ONU), escancarando ainda mais as desigualdades sociais do Brasil, uma vez que sua prevalência ocorre nas regiões mais carentes em infraestrutura e informação.

O estudo Human Papillomavirus Infection in Men, publicado em 2017 avaliou mais de 4 mil homens no Brasil, no México e nos Estados Unidos, com idade entre 18 a 73 anos. Os resultados mostraram que, entre os brasileiros, 72% apresentavam HPV na região genital, enquanto no México o índice foi de 62% e nos Estados Unidos, 61%. Esses dados reforçam o que já sabemos, que é necessário agir e agir rápido.

A meta de erradicar o câncer de pênis

A pandemia da Covid-19 gerou uma avalanche de eventos virtuais, como Lives e Webinários. E como o Instituto Lado a Lado pela Vida utiliza as plataformas digitais para difundir informação e promover debates sobre saúde desde sua fundação, promoveu no dia 4/8 um webinar sobre câncer de pênis. O debate digital reuniu representantes do Ministério da Saúde; do Parlamento; de governos dos estados do Maranhão e Piauí e um médico urologista em uma discussão sem rodeios, que desencadeou em um consenso e um compromisso de que, não só é possível erradicar o câncer de pênis no Brasil, como isso pode acontecer até 2030.  O debate virtual atraiu mais de 2850 pessoas no Brasil e no exterior até o dia 25/8, além das mais de 500 que o assistiram ao vivo.

Abordar esse assunto faz parte de nossa agenda há vários anos e, em 2020, ganhou mais destaque, com o perfil @laveoditocujo no Instagram, que já possui mais de 34 mil seguidores. Uma ação inovadora, criada por jovens criativos parceiros do Instituto LAL, traz diariamente uma ilustração e um apelido do pênis, alertando homens e mulheres sobre a importância da higiene íntima para a prevenção do câncer de pênis que, anualmente, leva cerca de 1.600 homens no Brasil a terem seus órgãos sexuais amputados o que, além do impacto físico, desencadeia um enorme trauma emocional. 

Agora que demos o pontapé inicial para erradicar esse câncer no país até 2030, precisamos trabalhar rápido, para que os índices inaceitáveis da doença no Brasil não sejam esquecidos ou sigam destacados em estudos internacionais que nos envergonham. Para isso, grande parte do esforço de comunicação e educação para a saúde deverá ser dedicado a conscientizar as famílias brasileiras da necessidade de vacinar seus filhos e, também, reforçar a mensagem da importância dos hábitos de higiene.

É possível que, em 2030, uma nova pandemia como a do novo coronavírus possa surgir, levando a população a clamar por uma vacina que levará um bom tempo para chegar ao mercado, enquanto uma que está disponível há anos, com eficácia comprovada para erradicar uma doença grave como é o câncer, está nas geladeiras de postos de saúde em todo o país, com alto risco de irem para o lixo, pois perderão a validade.

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Marlene Oliveira
Formada em Jornalismo pela Pontifícia Universidade Católica (PUC) e em Artes Plásticas pela Faculdade de Belas Artes. É Empreendedora Social e Presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida, organização que dedica esforços para nutrir a população brasileira com informações qualificadas e oferecer orientação sobre as políticas públicas de saúde. Para o Triênio 2019 – 2021, Marlene Oliveira é também Conselheira no Conselho Nacional de Saúde (CNS). É a idealizadora da Campanha Novembro Azul, movimento que ao longo dos anos tornou-se uma ação de domínio público e a maior em prol da saúde do homem no país, e também criadora do Global Forum – Fronteiras da Saúde, evento internacional que discute os desafios e tendências da saúde no Brasil

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