E o sonho da imunidade de rebanho acabou…

E o sonho da imunidade de rebanho acabou…

Nossa expectativa e esperança de encerrar esta pandemia através da […]

By Published On: 30/08/2021
Na imagem, diversas máscaras cirúrgicas sob uma superfície. Elas ilustram a coluna da infectologia Rosa Richtmann

Nossa expectativa e esperança de encerrar esta pandemia através da imunidade de rebanho não é mais realidade.

Já imaginávamos isso, mas quando de fato temos a real dimensão de que isso é a realidade nua e crua, o sentimento de desamino é natural. Por outro lado, tenho certeza e convicção de que estamos mais perto do final da pandemia do que estávamos há um ano atrás.

O ano de 2020 foi muito difícil: sem perspectiva de prevenção e sem vacinas. Agora, com uma quantidade enorme de pesquisa para novas vacinas, além de novos medicamentos tanto para o tratamento quanto para a prevenção de novos casos, a nossa esperança de ver o fim desta pandemia aumenta a cada dia.

Porém, ainda temos um longo caminho pela frente. Um caminho que a nossa responsabilidade social continua sendo imprescindível. Além disso, é preciso garantir a vacinação e disponibilidade de vacinas para os países pobres. O continente africano tem apenas 1,4% da sua população já iniciada com a primeira dose, enquanto o Canadá, por exemplo, possui cerca de 4 doses por habitante. Sem a equidade de distribuição de vacinas, não conseguiremos virar esta página da nossa história sanitária.

À medida em que o SARS-CoV-2 se mostra mutante, capaz de se tornar mais transmissível com as novas variantes de preocupação (VOC) e se mostra escapar parcialmente da resposta da nossa imunidade natural ( de quem já teve a doença) e da nossa imunidade adquirida ( através da vacinação), nós vemos a esperança desta imunidade de rebanho ou imunidade coletiva praticamente se  dissolver.

Se ainda não aprendemos e não percebermos a importância de cada um de nós fazermos o nosso papel em termos de evitar a “criação” de novas variantes, ou seja, diminuir a circulação e transmissão deste vírus, nós não vamos conseguir nos livrar desta pandemia.

Atualmente, estamos discutindo a dose de reforço, a 3ª dose em pacientes imunossuprimidos para mitigar o impacto da Covid-19. Ou seja, continuamos discutindo medidas para diminuir hospitalização e morte relacionada a este vírus. Mas ainda não estamos na fase da discussão de controle da transmissão e da circulação deste vírus, que seria através da vacinação também dos adolescentes e das crianças. É difícil, porém, fazer esta escolha avaliando o quantitativo de vacinas que temos no nosso país. Será que seria mais prudente vacinar os idosos que receberam já suas duas doses há mais de 6 meses ou iniciar a vacinação dos adolescentes que ainda não tiveram a oportunidade de receber qualquer dose?

Quando vemos o objetivo deste momento do nosso pais e com o quantitativo de vacinas que temos, é claro que a resposta mais adequada é por  oferecer a dose de reforço depois de 6 meses para as pessoas de 60, 70 e 80 anos, pois os números mostram hoje que quem está morrendo de Covid-19 são idosos já vacinados com duas doses, há mais tempo. Isso acontece devido ao fenômeno da imunossenescência, o enfraquecimento do sistema imunológico. Então, eles perdem rapidamente esta proteção que ganharam 6 meses atrás.

Os adolescente e crianças deveriam ficar para uma próxima etapa. A vacinação desse público é, sem dúvida, fundamental se nós quisermos de fato controlar e diminuir a circulação deste vírus no nosso meio.

Assim, como já previsto há muito tempo, o sonho da imunidade de rebanho nunca foi uma realidade, nunca foi uma esperança concreta, e o verdadeiro controle da pandemia só iremos alcançar através da vacinação da maior porcentagem possível de pessoas.

Novos medicamentos são muito bem-vindos, tanto no tratamento quanto na PEP (profilaxia pós exposição). Nesse caso, alguém que teve contato próximo com pessoa infectada e é vulnerável a doença, poderá tomar imediatamente uma medicação para evitar que tenha a doença ou a infecção propriamente dita. Esta condição é válida especialmente para os pacientes imunodeprimidos, transplantados, pessoas vivendo com o vírus HIV/aids nas fases avançadas entre outras condições, que sabemos que mesmo devidamente vacinados ainda são vulneráveis a formas mais graves da doença.

O sonho da imunidade de rebanho acabou porém a nossa esperança continua muito e muito viva!

A ciência vencerá!

Rosana Richtmann

Infectologista do Instituto Emílio Ribas, Chefe do Departamento de Infectologia do Grupo Santa Joana e Membro dos Comitês de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia, de Calendários da Sociedade Brasileira de Imunização e do Comitê Permanente em Assessoramento de Imunização da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. É graduada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos e possui Doutorado em Medicina pela Universidade de Freiburg, na Alemanha

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Infectologista do Instituto Emílio Ribas, Chefe do Departamento de Infectologia do Grupo Santa Joana e Membro dos Comitês de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia, de Calendários da Sociedade Brasileira de Imunização e do Comitê Permanente em Assessoramento de Imunização da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. É graduada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos e possui Doutorado em Medicina pela Universidade de Freiburg, na Alemanha

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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Infectologista do Instituto Emílio Ribas, Chefe do Departamento de Infectologia do Grupo Santa Joana e Membro dos Comitês de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia, de Calendários da Sociedade Brasileira de Imunização e do Comitê Permanente em Assessoramento de Imunização da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. É graduada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos e possui Doutorado em Medicina pela Universidade de Freiburg, na Alemanha