Dulce Brito, do Einstein: “As empresas não podem ser fábricas de adoecimento”

Dulce Brito, do Einstein: “As empresas não podem ser fábricas de adoecimento”

Depois do significativo aumento de casos de transtornos mentais por […]

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By Published On: 15/02/2023

Depois do significativo aumento de casos de transtornos mentais por conta da pandemia e da inclusão da síndrome de Burnout como um fenômeno ocupacional, muito tem se falado sobre o bem-estar corporativo e como as empresas podem promover a saúde – física e mental – de seus funcionários. Este foi o tema da conversa com Dulce Brito, coordenadora médica de saúde populacional e integrante do Comitê Estratégico de Diversidade e Inclusão do Hospital Israelita Albert Einstein.

Em entrevista ao Futuro da Saúde, ela explica que, apesar de o tema estar cada vez mais em evidência, não é um assunto novo. Antes mesmo da pandemia, o Brasil já havia sido considerado, pela Organização Mundial da Saúde (OMS), como um dos países mais ansiosos do mundo. O que mudou é a forma como os próprios pacientes, os profissionais de saúde e as empresas olham para esse dado: “Somos o segundo país em termos de depressão, o estresse já é a quarta maior causa de infarto e isso antecede a pandemia. A diferença é que esses assuntos eram tratados a portas fechadas e agora estão escancarados”, diz.

Para a especialista, empresas de todos os setores precisam pensar, para além de ações pontuais, em uma cultura de bem-estar dentro das corporações. No setor da saúde, essa preocupação deve ser ainda mais urgente: “Para oferecer um cuidado de excelência aos pacientes, primeiro é preciso colocar excelência no cuidado dos profissionais de saúde”.

Confira a entrevista completa:

Muito se fala sobre promoção da saúde e bem-estar corporativo. Mas esse não é exatamente um tema novo, certo?

Dulce Brito – Definitivamente, não é um tema recente. Essa já vem sendo uma questão no país muito antes da Covid-19. É como se uma latinha de refrigerante viesse sendo agitada há algum tempo. O que a pandemia fez foi tirar a tampa e, com isso, o assunto saiu com tudo, ganhou mais visibilidade. Em vez de ser discutido apenas atrás de portas fechadas de departamentos de Recursos Humanos (RH), foi parar dentro dos conselhos corporativos e está nas agendas dos CEOs.

Como esse cenário impacta as empresas?

Dulce Brito – As empresas precisam olhar de forma estratégica e estruturante para esse tema por um simples fator: não existe empresa saudável se as pessoas não estiverem saudáveis. As questões de saúde mental impactam na produtividade e no afastamento do trabalho. Sem contar que o trabalhador do Século XXI procura um ambiente profissional e uma função que lhe traga propósito, ele precisa encontrar sentido naquilo que está fazendo. As relações de trabalho já estavam em processo de mudança, mas isso fica ainda mais evidente agora.

Como as empresas podem proporcionar esse local de propósito?

Dulce Brito – Em primeiro lugar, as empresas não podem ser fábricas de adoecimento, mas um espaço de florescimento das nossas potencialidades, um espaço seguro e socialmente agradável. Todos nós, nas nossas diversas linhas de frente, precisamos lidar com o estresse. Mas esse estresse precisa ser gerenciado, para que todos possamos dar conta de todos os papéis que precisamos exercer na vida, seja profissional ou pessoal. E o ambiente corporativo precisa ser um lugar mentalmente seguro.

Quais são as principais causas de adoecimento dentro das empresas?

Dulce Brito – Os fatores que triplicam o risco de adoecimento mental dentro das corporações são sobrecarga de demanda de trabalho, seja por quantidade ou complexidade, falta de clareza do escopo do trabalho, falta de suporte ou apoio da liderança, falta de apoio entre os colegas e a má gestão das mudanças, que é quando a organização não se comunica de forma transparente com os seus funcionários, por exemplo. No livro “Morrendo Por um Salário”, o autor, Jeffrey Pfeffer, afirma que as más práticas gerenciais são a quinta causa de morte nos Estados Unidos. E estudos mostram que quando um colaborador tem pouca autonomia em seu dia a dia de trabalho, isso vira um fator de risco para problemas cardíacos. Nós precisamos lembrar que passamos muito tempo no trabalho, não é uma parte pequena da vida. A conta dá mais ou menos 11 mil horas por ano dedicadas exclusivamente ao trabalho, sem considerar deslocamento, o famoso ‘levar o trabalho para casa’ e as horas extras de um trabalhador que tenha uma carga horária de 8 horas por dia, de segunda a sexta-feira. Não tem como o que se vive no trabalho não impactar na vida e na saúde das pessoas.

Como o adoecimento pode ser evitado?

Dulce Brito – Por meio da prevenção, justamente. Às vezes, uma pessoa ainda não desenvolveu uma doença mental, mas já está definhando, se arrastando para ir trabalhar, por exemplo. E essa pessoa precisa ser ajudada. Médicos, pesquisadores e professores da área da saúde sempre se debruçaram em estudos sobre o sofrimento humano. Agora, a novidade é o oposto: estudar o bem-estar. Estamos estudando porque em um mesmo ambiente há pessoas satisfeitas e pessoas infelizes, utilizamos estratégias baseadas em evidência para medir índices de estresse e conseguir monitorá-los e melhorá-los.

Pode-se dizer que as empresas já estão pensando nisso, de fato?

Dulce Brito – Não exatamente. As empresas evoluíram nas medidas que garantem a segurança física de seus trabalhadores, diminuindo consideravelmente o número de acidentes de trabalho. Mas, hoje, o maior risco de um trabalhador não é a contaminação química ou biológica, é o risco psicológico. Muitas empresas ainda estão na fase incipiente de maturidade nesse tema e não oferecem uma cultura de saúde e bem-estar. Às vezes, os funcionários até têm acesso à psicoterapia, por exemplo, mas é preciso mais do que isso, é preciso estruturar processos, procedimentos, práticas e políticas que devem ser seguidas para oferecer uma melhor condição de trabalho e relações mais saudáveis.

Os benefícios voltados à saúde, como terapia e atividade física, então, não são suficientes?

Dulce Brito – Não adianta nada a empresa ter um ambiente tóxico e oferecer uma sessão de meditação e massagem em uma data especial. Uma cultura que favoreça e apoie a saúde mental das pessoas passa por capacitação de lideranças, redesenho do trabalho e incentivo a rotinas mais saudáveis. Os gestores precisam estar capacitados para que não sejam poluidores sociais, ou seja, aquela pessoa que contamina todo mundo com comportamentos que não favorecem o bem-estar. Muitas vezes, as lideranças poluidoras não se dão conta do mal que fazem e isso é muito sério, passa pela definição do que é inteligência emocional e sua capacidade de perceber suas próprias emoções e as dos outros. Existem líderes com altíssimo Quociente de Inteligência (QI) e baixíssimo Quociente Emocional (QE) – e isso impacta no equilíbrio emocional dos times.

Não seria necessário, então, ter um padrão de segurança da saúde mental para ser seguido?

Dulce Brito – Com certeza. Para se ter ideia, as medidas de risco psicossocial no ambiente corporativo são tão altas que já está sendo produzido uma norma ISO (sigla para International Organization for Standardization ou, em português, Organização Internacional para Padronização) para que as empresas olhem para o risco de estresse com o mesmo olhar gerencial que olham para os riscos físicos. Ou seja, da mesma forma que uma empresa que trabalha com petróleo precisa tomar medidas preventivas para que não haja uma explosão, também precisa cuidar, a partir de métricas mensuráveis, para que não haja uma epidemia de mal-estar. Existe também um cargo, o Chief Wellness Officer, já difundido, que é responsável por cuidar da área de bem-estar.

O bem-estar deve ocupar uma área específica dentro das empresas?

Dulce Brito – Sim, precisa ser uma área focada nisso e não apenas cobrar do RH, por exemplo. No Einstein, essa área olha para alguns pilares do bem-estar. Na esfera mental, nós atuamos em três níveis de prevenção: a primária, que visa a evitar e minimizar os riscos de adoecimento mental, a secundária, que consiste em cuidar das pessoas que já estão adoecidas e a terciária, que pensa nas formas de fazer a reabilitação de pessoas que precisam ser reintroduzidas no dia a dia da organização. E pensamos também nas esferas física, social, espiritual, ambiental, ocupacional, financeira e digital: a boa saúde é a somatória dessas esferas.

Como essas esferas são incluídas na prática da empresa?

Dulce Brito – Por meio de ações presenciais, plataformas online e no dia a dia da corporação. Pensando no bem-estar físico, por exemplo: não adianta dar uma palestra dizendo que é preciso se alimentar de forma saudável se a empresa não disponibilizar em seu refeitório o acesso a frutas, legumes e verduras. Tudo precisa ser incluído na rotina, de forma natural. Estudos mostram que bastam 15 minutos contemplando a natureza para que haja uma melhoria do estresse. Pensando nisso, as novas instalações do Centro de Ensino e Pesquisa do Einstein contam com uma arquitetura de cura, com paredes de vidro que integram a natureza aos espaços. Pouco antes da pandemia, tivemos um projeto chamado Jornada do Propósito, feito com 700 camareiras que atuam na instituição, para que elas encontrassem um propósito dentro de suas funções. Ajudamos essas mulheres a entender a importância do papel delas na instituição – afinal, a saúde não chega na ponta se não passar por elas. Durante a pandemia, lançamos uma plataforma, a OUVID, criada para oferecer apoio psicológico aos nossos colaboradores que estavam na linha de frente e para seus familiares. Ou seja, conforme vamos enxergando as necessidades e oportunidades, agimos. E isso precisa ser constante.

Ainda há, porém, um certo tabu em relação à saúde mental e, consequentemente, um receio por parte dos funcionários em expor quando não estão bem?

Dulce Brito – Sim, a implementação dessa cultura de bem-estar também enfrenta barreiras sociais e preconceitos. Muitos ainda acham que quando um funcionário apresenta algum transtorno mental, significa fraqueza ou que aquela pessoa não está preparada para exercer sua função. Algumas empresas ainda hoje afirmam que o estresse faz parte do negócio. Eu mesma, como médica, já fiz, lá atrás, entrevistas para trabalhar em UTI e tive que ouvir que não ia aguentar o trabalho, porque era muito pesado para uma mulher. É preciso entender que, ao assinar um contrato de trabalho, você não está só doando suas horas, mas a sua saúde e o seu bem-estar: isso é inegociável. A pandemia ajudou a normalizar esse tema, mas ainda é preciso mais letramento. Esse tema precisa estar nos currículos das formações acadêmicas, em todas as áreas. E nas empresas, precisa haver treinamentos da mesma forma que há a brigada de incêndio: identificar os riscos de incêndio e de burnout.

Nas empresas do setor da saúde, o bem-estar já está consolidado?

Dulce Brito – Infelizmente, não. Parte-se do pressuposto de que se estou treinada para cuidar de você, estou treinada para cuidar de mim. Mas não é assim que funciona. Os profissionais de saúde sofrem porque são orientados para direcionar a atenção para o outro. Em instituições de excelência, onde há uma cultura de excelência, há uma pressão ainda mais forte dos próprios profissionais, que sentem que não podem errar e têm que entregar o melhor. Com isso, muitas vezes, passam por cima de suas próprias necessidades fisiológicas e psicológicas. Se isso não for cuidado, quem adoece é o profissional de saúde e, aí, todos perdem.

Como se deve cuidar desses profissionais?

Dulce Brito – Na saúde, temos um termo, chamado contágio emocional, que leva à fadiga de compaixão (ou fadiga empática), descrita na literatura, que é quando o profissional deixa de ter compaixão porque está esgotado emocionalmente – esse é um critério, inclusive, que a Joint Commission International, que certifica instituições de saúde, tem como critério de exigência, a prevenção à fadiga de compaixão. Imagine os bombeiros que estão, neste momento, trabalhando nos escombros do terremoto que atingiu a Síria e a Turquia. Quando eles conseguem salvar uma vida, são aplaudidos, mas também precisam lidar com o fato de que não foi possível salvar muitas outras. O mesmo aconteceu na pandemia, com os profissionais da saúde, e acontece, em menor escala, todos os dias. Alguém precisa cuidar dessas pessoas quando tudo isso acaba. Para cuidar do outro, é preciso, primeiro, cuidar de si. No Einstein, nós cuidamos de mais de 20 mil colaboradores, entre as instituições públicas e privadas.

A área que cuida do bem-estar, no Einstein, é nova?

Dulce Brito – Não é nova, mas se fortaleceu muito na pandemia. Nós dizemos que nosso propósito, nesse contexto, foi dar as ferramentas para que os profissionais pudessem encontrar paz em meio ao caos, quase como um Equipamento de Proteção Individual (EPI) psicológico. Somos formados por uma equipe multidisciplinar, que inclui psiquiatras, psicólogos, especialistas em saúde mental e estilo de vida, médicos e terapeutas integrativos, educadores físicos, nutricionistas e assistentes sociais. Crescemos muito e estamos ampliando essa área de promoção de saúde mental, inclusive levando para os nossos clientes, em forma de consultoria e outros produtos.

Quais são os produtos oferecidos e para quais setores?

Dulce Brito – Temos produtos estratégicos, táticos e operacionais, fazemos desde o diagnóstico situacional, passando por letramento em saúde mental e bem-estar, compondo planos de ação, treinamentos e serviços de telemedicina, telepsicologia e telepsiquiatria. Trabalhamos com todos os setores, principalmente grandes empresas que nos procuram. Nossa missão, no ambiente externo, é mostrar que o investimento em saúde mental é um ganho para as empresas, porque o custo de não fazer nada, geralmente, é muito mais alto do que o custo de fazer alguma coisa.

Ana Carolina Pereira

Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ao longo de sua carreira, passou por veículos como TV Globo, Editora Globo, Exame, Veja, Veja Saúde e Superinteressante. Email: ana@futurodasaude.com.br.

About the Author: Ana Carolina Pereira

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2 Comments

  1. MARCOS ELENILDO FERREIRA 17/02/2023 at 23:26 - Reply

    QUAL EMPRESÁRIO REALMENTE PENSA E AGE EM FAVOR DO FUNCIONÁRIO???!! PAGA BEM DE VERDADE E TRATA O COMO SEU SEMELHANTE???? ME CONTEM .. POIS EU QUERO TRABALHAR NESSA EMPRESA QUE NÃO VISA SOMENTE DINHEIRO..MAS O SENTIMENTO DO SER HUMANO..BOA NOITE A TODOS DAQUI DE JOINVILLE ✌️????????????????✨????❤️????????️????️

  2. Emilia Scalise 27/02/2023 at 21:16 - Reply

    PARABENS dra. Dulce Britto

    Pela reportagem.
    Essa reportagem deveria ser enviada a muitas empresas / industrias …etc…
    Chegar aos dept°s de RH e eles (claro) tomarem conhecimento e providéncias ministrando palestras sobre o assunto e pedindo aos funcionarios que relatem numa folha o que eles acham sobre o assunto e que podem expor suas opinioes ideias sugestóes para que seja afastada a ansiedade stresses depressáo etc… Seria interessante a empresa oferecer atendimento semanal dentro da propria empresa com medicos Psicologos Assistentes Sociais aos funcionarios que se encontram com ansiedade depressáo etc…. Realmente é como a dra DULCE BRITTO falou : quem ganha muito com isso é a empresa.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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  • Isabelle Manzini

    Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.

  • Sidney Klajner

    Cirurgião do Aparelho Digestivo e Presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Possui graduação, residência e mestrado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, além de ser fellow of American College of Surgeons. É coordenador da pós-graduação em Coloproctologia e professor do MBA Executivo em Gestão de Saúde no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein. É membro do Conselho Superior de Gestão em Saúde, da Secretaria de Saúde do Estado de S. aulo e coautor do livro “A Revolução Digital na Saúde” (Editora dos Editores, 2019).

  • Redação

    Equipe de jornalistas da redação do Futuro da Saúde.

Ana Carolina Pereira

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