Diógenes Silva, CEO da Anestech: “O nosso objetivo é ser o Waze da anestesia”

Em entrevista ao Futuro da Saúde, o médico e executivo traz a importância de investir na jornada dos dados para guiar a tomada de decisão dos anestesistas e revela os planos de internacionalização da empresa

520
Diógenes Silva Anestech

Inovar não é fácil. Além da ideia, demanda planejamento, paciência e visão de mercado. Às vezes a ideia é tão inovadora que o mercado ainda não está pronto. O início da Anestech foi assim, como revela o CEO da empresa Diógenes Silva: “A gente já sabia que o anestesista tinha que usar um tablet no centro cirúrgico. Mas imagina falar isso para os hospitais em 2012? Nos chamavam de loucos”.

Quase dez anos depois, a Anestech se consolidou com uma plataforma que apoia os anestesistas, aumenta a segurança para o paciente e melhora o desempenho do hospital. Atualmente são mais de 1,3 mil instituições cadastradas na plataforma, quase 3 mil anestesistas, 60 hospitais como clientes e uma média de 20 mil procedimentos por mês sendo adicionados à base de dados – a meta é atingir 1 milhão até o fim deste semestre.

Na Entrevista do Mês, Diógenes Silva revelou ao Futuro da Saúde como a gestão de dados é essencial para a atividade, contou os próximos passos da empresa, que incluem internacionalização, e lembrou que uma boa ideia pode não virar um bom negócio se não houver visão de mercado para viabilizá-la. Além disso, ele também falou sobre o boom das healthtechs e criticou o fato de que o ecossistema nem sempre ajuda o empreendedor: “Fazer hackathon no final de semana não forma empreendedores. O que forma empreendedores é visão de mercado, de negócios. É colocar os players na mesa, apresentar soluções e fomentar negócios”.

Como surgiu a Anestech?

Inovação vem a partir de três ingredientes: sua experiência passada, aquilo que no seu dia a dia não supre as necessidades e o suor, botar a mão na massa. A Anestech surgiu a partir desses três componentes. A minha paixão por tecnologia encontrou na medicina um ponto de encontro que foi a epidemiologia, que trabalha com dados de saúde.

Quando entrei no centro cirúrgico para ser residente de anestesia, queria ter acesso aos dados, aos resultados estatísticos da atenção aos pacientes. Depois que saí da residência, no final de 2007, eu entrei na fase do suor e fui construir ferramentas para usar no dia a dia, pois entendi que havia espaço para que outros anestesistas também as usassem. Até que em 2012 criei a Anestech. Trilhamos um caminho de transformar uma boa ideia em um bom produto e o bom produto em um bom negócio, duas pontes que o empreendedor tem que fazer.

Você já afirmou em outras oportunidades que os anestesistas ainda usam muito o papel e a caneta. Isso ainda é uma realidade?

Em 2021, 92% dos anestesistas do Brasil ainda usam papel e caneta para constituir o seu prontuário. Nem o intensivista da UTI fica na cabeceira do leito do paciente como o anestesista. É o único médico que tem resultados imediatos, com margem de erro zero. E é um médico que constrói um prontuário de 5 em 5 minutos. A cada 5 minutos o anestesista anota todos os dados do paciente, como pressão, frequência cardíaca, respiração, volume da respiração e posição na mesa cirúrgica.

Diógenes silva anestech

Por que ele documenta todos esses dados de 5 em 5 minutos?

Você não faz uma anestesia e volta meia hora depois para ver o que aconteceu. O papel do anestesista é manter o paciente seguro e confortável. Com outros médicos, todo o relacionamento acontece de forma consciente, mas quando você vai se submeter a uma cirurgia e ser anestesiado, este é o único momento na medicina onde o paciente faz uma entrega total. E o anestesista tem um papel de conduzir isso.

Então, você documenta porque a cada 5 minutos tudo muda. Uma pessoa pode ir da vida ao óbito. O conjunto dessa documentação dá um mapa, uma big picture de como foi o procedimento, como estava a pressão do paciente quando o cirurgião cortou a pele, quando cortou o órgão. A pressão subiu? A sensação do paciente piorou? O sistema nervoso autônomo respondeu? O anestesista fica o tempo inteiro cuidando disso. Então, ele constitui, segundo a revista do Monte Sinai Journal of Medicine, o melhor e mais completo prontuário clínico de um hospital, com dados fisiológicos, farmacológico, tomado de minuto a minuto. Se ligar todos os pontos, ao mesmo tempo que o centro cirúrgico é o lugar mais complexo de um hospital, é também o melhor centro de rendimento.

O que você quer dizer com melhor centro de rendimento do hospital?

Digo para as pessoas que atuam com inovação fora do setor de saúde que o centro cirúrgico é o McDonald’s do hospital. É onde o cliente entra, consome e sai. O centro cirúrgico é responsável por 70% da rotatividade de leitos dos hospitais e, portanto, é um centro de alta rotatividade, alto rendimento e alta complexidade. Lá dentro está o anestesista, que é um médico que fica 100% do tempo na cabeceira do leito do paciente, constituindo o melhor prontuário a cada 5 minutos, e ele está fazendo isso em papel e caneta. Quando a gente está caminhando para uma saúde que quer se basear em valor, isso não faz sentido.  

“Ao cuidar da jornada dos dados, você chega em um ponto onde a máquina aprende e enxerga coisas que a gente não vê, o que nos ajuda a ter uma melhor performance”.

Qual a importância de cuidar da qualidade dos dados nesse contexto?

Se você não cuida da jornada do dado, você não tem inteligência nenhuma. O maior exemplo que nós temos disso é o Watson da IBM, que acabou de fechar as portas e está à venda. Não deu certo porque não adianta ter uma colcha de retalhos de dados comprados que você não sabe bem como foram levantados e armazenados, que não tinha como fazer um banco de dados conversar com outro. Hoje temos grandes startups alavancando investimentos milionários, porque estão prometendo inteligência artificial para a saúde, mas que não estão preocupados com a origem do dado, em cuidar, em realmente nutrir o dado para que ele traga resultados, para que ele seja contextualizado. Dados que não conseguem ser analisados, aprendidos pela máquina, não têm resultado.

Qual o papel da Anestech neste universo de dados produzidos no centro cirúrgico?

Com todo o meu background, eu entendi, além da importância do contexto dos dados, que a anestesia é carente de apoio cognitivo. Esse é o papel da Anestech, se tornar o Waze da anestesia. Para fazer isso era preciso melhorar a performance da jornada o dado. Meu propósito é tirar uma classe inteira de médico do papel. A partir de agora com quase um milhão de dados estruturados na base de dados, a Anestech começa, inclusive com o apoio do Ministério de Ciência e Tecnologia e Inovação, a rodar o machine learning para extrair os insights e aí entregar para o anestesista em tempo real as informações que vão melhorar a performance e garantir mais segurança aos pacientes. Para ter uma ideia do tamanho do problema, 5 bilhões de pessoas no mundo não têm acesso à anestesia segura. Esse é o tamanho do propósito da Anestech.

Você falou que a Anestech quer ser o Waze da anestesia. É possível dar exemplos práticos?

Muitas pessoas reclamam que vomitaram depois de uma anestesia, o que é super comum porque alguns pacientes estão mais sujeitos a ter essa experiência. O anestesista cuidadoso já entende isso no começo e começa a tomar todos as precauções para que esse paciente não tenha essa experiência. Mas isso é um caso simples. Agora, por exemplo, o anestesista que atende toda a clínica faz desde anestesia para cesariana até para extração de dente de paciente com problema cerebral, passando por transplante hepático. Então existe uma série de insights de todas as condições clínicas e todas as coisas que podem acontecer, que é um volume de informação muito grande para um ser humano tratar em tempo real, com resultados imediatos, como o anestesista.

“É claro que o anestesista é o principal ator, assim como no Waze, que você toma a decisão de seguir o caminho que sugerido ou não. Mas você tem um apoio à tomada de decisão, tem capacidade preditiva, ou seja, através dos dados estruturados a máquina aprende alguns padrões que tem uma grande probabilidade de acontecer e conforme vai acontecendo a cirurgia, a plataforma vai avisando para o anestesista”.

Aquilo que a nossa vista não alcança, a máquina começa a enxergar um pouquinho além. E aí o anestesista toma a decisão. Através da análise desse grande volume de informações, a plataforma oferece condições para ele melhorar a performance, entregar mais qualidade, agregar valor, melhorar a segurança, a proteção legal dos envolvidos, a gestão hospitalar etc.

Entrevista com Diógenes silva anestech

Você sente algum tipo de resistência dos profissionais anestesistas por causa dessa questão de medir performance ou isso não é mais realidade?

O médico anestesista, ao olhar para outras áreas da medicina, entendeu que realmente algumas coisas estavam acontecendo e que ele não ia conseguir ficar fora disso. E a pandemia exigiu que as capacidades dele fossem utilizadas no resto do hospital. Antes ninguém sabia nem se o anestesista era médico. De repente todo mundo sabia quem era o anestesista, o que era, e o que ele fazia, cuidava de manter os pacientes vivos e respirando, muito por causa da pandemia. Hoje não existe mais uma resistência em relação à transformação digital. A resistência que existe não é do anestesista, mas de todo o ser humano em relação à tecnologia. Cabe ao empreendedor criar uma inovação que seja fácil de entender, boa de usar, acessível a todos, mais barata, mais ecológica.

Já ouvi muito essa questão de que os prontuários eletrônicos dentro dos hospitais acabam sendo contraproducentes, às vezes são lentos.  Essa é uma preocupação, inclusive de tecnologia, de ter isso de uma forma mais ágil, mais acessível, mais fácil?

Por que o anestesista está no papel e caneta? Porque ele nunca encontrou algo que fosse melhor. O prontuário eletrônico não foi criado para ser bom de usar, foi criado para fazer controle de estoque, para controle de almoxarifado. Tem uma usabilidade péssima. As pessoas nem têm mais desktop em casa, mas no hospital você usa. A Anestech fez completamente diferente, 100% mobile, cuidando da experiência do anestesista, em ter uma ferramenta que ajude a melhorar a performance, sempre com foco em melhorar a entrega da assistência ao paciente. Não é que o médico não goste de usar prontuário eletrônico, é o ser humano que não gosta de usar software ruim. O médico leva por semana, de 2 a 3 horas sentado na frente do computador, gastando tempo justamente com software ruim. E o tempo hoje em dia é o que as pessoas têm de mais valioso.

Entrevista Diógenes Silva anestech

E como entrar na estrutura dos hospitais? Os hospitais também são instituições tradicionais e não é tão simples mudar um sistema do zero.

Foi uma coisa que tivemos que aprender na Anestech, porque nosso modelo de negócio é B2B2C ou B2C2B, ou seja, a gente faz a plataforma para o anestesista usar, mas quem paga a conta é o hospital. Quando percebemos isso, entendemos que era preciso fazer diferente. Qual é a proposta de valor para o gestor hospitalar? A Anestech construiu um dashboard de indicadores para acompanhamento da performance, uma planilha de retorno sobre o investimento, como o hospital ganha dinheiro com essa transformação digital, como economiza. Conseguimos melhorar essa visão ergonômica, ecológica, um conjunto de valores reconhecíveis por quem paga a conta, que é o gestor hospitalar. É preciso atender uma dor, mas tem que também conseguir entrar no mercado. Por isso sou tão crítico às vezes com o nosso ecossistema, com os nossos eventos, que esquecem que inovação que não tira nota fiscal é só criatividade.

O que você quer dizer com inovação que não tira nota fiscal é só ideia? Que uma empresa tem uma boa ideia, mas aquilo não é aplicável para o sistema de saúde deixa de gerar algum valor e impacto?

Quando a Anestech começou, de 2009 a 2015 não tinha mercado. A gente já sabia que o anestesista tinha que usar um tablet no centro cirúrgico, mas imagina falar isso para os hospitais em 2012? Nos chamavam de loucos. Durante muito tempo trabalhamos no produto mesmo antes do mercado estar pronto. Depois o mercado amadureceu, os tablets estão invadindo os hospitais.

Se você acha que algo pode se tornar um produto que pode performar a saúde, você tem que entender um pouquinho também de mercado em saúde para ver se tem adesão. Até entender qual vai ser a proposta de valor, não vai conseguir nem dar preço no seu produto. E se você está desenvolvendo um aplicativo que você nem sabe que preço vai ter, quem vai pagar, como vai pagar e porque vai pagar, você está jogando tempo e dinheiro fora. Ou seja, quanto mais cedo cuidar disso, mais rápido vai evoluir como empresa e esse é o objetivo.

As healthtechs estão em alta e ganharam projeção agora na pandemia. Mas há também uma máxima de que poucas conseguem sobreviver. Qual sua visão sobre isso? Poucas conseguem sobreviver porque elas de fato não têm uma proposta que faz diferença ou é porque o mercado é realmente muito difícil?

Eu acho que as healthtechs são fantásticas. Todas que eu converso, eu me empolgo, todas têm um ponto de vista fantástico, que ajudaria muito a vida dos pacientes.

“O mercado de saúde é hostil sim. O gap é justamente o ecossistema. Fazer hackathon no final de semana não forma empreendedores. O que forma empreendedores é visão de mercado, de negócios”.

O que falta é isso, um mercado maduro de inovação e não de puff colorido e parede adesivada. É discutir como funciona o mercado de saúde, quais são os gastos, os gaps, a capacidade de investimento de um hospital, ou a capacidade de investimento de um paciente em relação ao aplicativo que ele vai ter que usar no celular. E aí muitos perceberão perceber que não tem que perder tempo fazendo certas coisas, ou que sozinho não se consegue e começa a aglutinar empreendedores e iniciativas mais robustas que vão performar melhor no mercado.

Quais são os próximos passos da Anestech?

A Anestech fez uma rodada de investimento no início do ano, que permitiu que a gente melhorasse o produto, o time, a maturidade da empresa como um todo e a gente deve muito isso a uma iniciativa de ecossistema positiva que é a Endeavor. Realmente foi um divisor de águas para a Anestech. E a partir disso, com o produto mais maduro agora, a nossa meta é escalar no mercado interno e a partir do próximo ano fazer a internacionalização da empresa para vários países do mundo.

Em relação ao produto, a nossa meta é responder aqui dentro, diariamente, como fazer o anestesista usar o nosso produto sem que o nosso produto exista. São inovações como comando de voz, reconhecimento facial, a Siri da anestesia, que já existe e chama Axel, a institucionalização da Axel como um colega virtual, respondendo por voz ao anestesista durante o procedimento. Então tem uma série de evoluções inovadoras que a gente vai acoplar ao produto internamente. Assim, essa é a perspectiva do produto e, para o mercado, a perspectiva é a internacionalização a partir de 2022.

A expansão internacional vai começar pela América Latina? Já tem alguma coisa que você pode adiantar?

A nossa ação vai ser diferente do que é no Brasil, então vai depender muito desses novos canais que nós vamos desenvolver e parcerias. Mas basicamente posso adiantar que o que está mais agudo no radar é América Latina e Europa, apesar de ter mensagens de anestesistas do Egito e Japão, por exemplo, querendo usar a plataforma. Mas sabemos que na América Latina e na Europa já temos um mercado a explorar a partir de 2022.

Entrevista Diógenes Silva anestech

Você disse no começo da nossa conversa que 92% dos anestesistas usam papel e caneta, então ainda há um mercado enorme para abocanhar aqui dentro do Brasil.

Exatamente por isso que em 2021 estamos muito focados nisso e estamos postergando dar atenção aos convites que recebemos de fora do Brasil. Apesar de muito tentador, ainda precisamos resolver algumas coisas, entregar mais segurança ao paciente cirúrgico do mercado interno em um país continental como o Brasil.

Ficou muito claro como o cenário é favorável para a inovação, inclusive para a Anestech, e também como está o planejamento de vocês para o médio/longo prazo. Agora, quais os principais desafios no curto prazo?

O principal desafio que eu tenho hoje em cima da minha mesa é a queda do volume de cirurgias eletivas por causa da pandemia, cirurgias que estão sendo proibidas de serem realizadas, anestesistas que estão sendo ocupados como intensivistas de Covid, hospitais assistindo uma queda de faturamento, uma queda da assistência e uma queda da produção. Esse volume cirúrgico represado vai vir à tona e os hospitais, para tratar a demanda com uma capacidade que não vai crescer, vão precisar de uma performance melhor.

Então a hora de fazer a transformação digital da anestesia é agora, com o volume cirúrgico pequeno, com anestesista com tempo de fazer treinamento, de esclarecer dúvidas, de treinar na ferramenta, de fazer a integração do prontuário eletrônico para o hospital. A maior dificuldade que tenho hoje é mostrar para o gestor do hospital que a hora de fazer a transformação digital da anestesia é agora, já que a pandemia é uma enorme oportunidade.

Futuro da Saúde

Por fim, gostou desta entrevista com Diógenes Silva, da Anestech? Então, aqui no site do Futuro da Saúde, você encontra mais entrevistas e conteúdos exclusivos sobre saúde e inovação. Assim, nos acompanhe também no Instagram e Youtube e confira o Instagram da nossa diretora, a jornalista Natalia Cuminale. Além disso, temos ainda um podcast, com entrevistas exclusivas.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui