Dia do Homem: por que os homens cuidam menos da saúde e como mudar esse cenário

Além da preocupação já existente com as doenças cardiovasculares e oncológicas, há ainda um desafio adicional com os reflexos da pandemia de coronavírus: o boom de doenças pós-covid, incluindo a atenção especial à saúde mental masculina.

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No dia 15 de julho celebra-se o Dia do Homem. Nesta data lembra-se a este grupo a importância dos cuidados com a saúde. A preocupação com a saúde do homem está associada a números como a expectativa de vida, que comparada a das mulheres, é cerca de 7 anos a menos, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE). Então, enquanto as mulheres costumam chegar aos 80 anos de idade, é comum que os homens não passem dos 73 anos.

Essa discrepância está associada principalmente à negligência dos homens com a saúde. Na pesquisa “Um Novo Olhar Para a Saúde do Homem”, realizada pelo Instituto Lado a Lado (Instituto LAL) em parceria com a revista Veja Saúde e com o apoio da Astellas, foi constatado que aproximadamente 37% dos homens de até 39 anos e 20% dos acima de 40 apenas vão ao médico quando se sentem mal.

Mesmo com uma manifestação prolongada de sintomas, eles costumam levar muito tempo para buscar ajuda e por isso são vistos nos consultórios com doenças em estágios mais avançados do que as mulheres. A baixa frequência de realização de check-ups — os homens costumam realizar exames seis vezes menos do que as mulheres, segundo o Ministério da Saúde — está combinada também a uma série de hábitos com potencial prejudicial, pois os homens são os que mais fumam e consomem bebidas alcóolicas, além de serem mais sedentários.

Segundo o médico urologista e membro da Divisão de Urologia do Hospital das Clínicas, Conrado Alvarenga, a grande problemática envolta da saúde do homem é fomentada pela questão cultural. “Culturalmente temos uma ideia muito arraigada de invencibilidade, que é nutrida desde a infância”, diz o especialista. O segundo aspecto seria a cultura de esconder fragilidades. Um dado fornecido pela startup Omens, cujo foco é tratar da saúde masculina, indica que 75% dos homens evitam compartilhar seus problemas com pessoas próximas.

Além da preocupação já existente com as doenças cardiovasculares e oncológicas, há também um desafio adicional com os reflexos da pandemia de coronavírus. “Veremos um boom de doenças, não só físicas mas também mentais”, reforça Alvarenga.

Um descaso histórico

Para Alvarenga, é possível que a educação moderna amenize os aspectos comportamentais, mas ele explica que a falta de cuidado com a saúde masculina foi uma prática construída ao longo das décadas. No final do século XX, devido às guerras, os homens começaram a se sentirem cada vez mais como super heróis, além do estímulo recebido na infância de agirem como tal.    

O urologista cita ainda a falta de um especialista na medicina, que não chegou a vingar, o hebiatra. Esse profissional seria o responsável pelos cuidados da saúde dos adolescentes, acompanhando principalmente a puberdade. Assim, após a fase da pediatria, os meninos continuariam tendo o hábito de ter acompanhamento médico.

“Como não tem um marco na vida do homem, como a menstruação, ele não tem um médico que passa a acompanhá-lo. Então o contato de saúde do homem com a medicina é mais quando ele precisa, sob demanda, não é um cuidado preventivo”, explica o médico. Isso quer dizer que, enquanto as meninas acostumam-se com a ideia de passar frequentemente com um ginecologista, os meninos não possuem um processo que os faça compreender a importância de passar com um urologista.

O caminho do homem nos sistemas de saúde

A urologia é a especialidade responsável pelo sistema reprodutor masculino e pelo trato urinário de homens e mulheres. Mesmo assim, essa é uma das últimas que os homens buscam quando procuram por assistência médica. Na pesquisa “Um Novo Olhar Para a Saúde do Homem”, citada no início desta matéria, 37% dos entrevistados enxergam o urologista como especialista na saúde do homem, mas 59% deles não costumam frequentar esse profissional. O médico Alvarenga explica que o mais comum é receber homens jovens por problemas de fertilidade ou homens mais velhos com câncer de próstata.

Nesse contexto, existe uma questão um pouco mais complexa por trás. Nas pesquisas do Instituto LAL, ficou evidente que esse especialista é um dos últimos a ser visitado. “Vivemos em um país com dois sistemas de saúde, o suplementar (planos de saúde privados) e o sistema único de saúde. Quando olhamos para o SUS, vemos que a porta de entrada para o homem é pela Atenção Primária de Saúde (APS), onde tem o clínico geral e o cardiologista, mas não tem o urologista. O acesso será somente através da saúde suplementar ou quando já estiver em caso de média ou alta complexidade, com a doença instalada”, afirma Marlene Oliveira, presidente do Instituto Lado a Lado pela Vida e colunista do Futuro da Saúde.

Ainda sobre a dificuldade de acesso, Marlene cita a necessidade de considerar também o aspecto social, com uma questão em destaque: como o homem é recebido no sistema de saúde? Segundo Marlene “muitas vezes o homem não consegue ir não devido a negligência ou preconceito, mas porque ele acaba não tendo condições durante o dia, porque precisa trabalhar. Uma das nossas discussões em políticas públicas é estender o horário para que o homem consiga ir para um sistema de saúde e ter a possibilidade nos finais de semana também”.

No que se trata de soluções, as políticas públicas são as mais importantes. A adaptação dos horários dos sistemas de saúde deve ser combinada a campanhas de conscientização, estimuladas no âmbito público e privado. “Percebemos que é necessário ver as empresas fazendo campanhas de incentivo e conscientização para fazer com que os homens mantenham seus check-ups em ordem, tenha regularidade de ir ao médico”, afirma a presidente do Instituto LAL.

As campanhas também são defendidas pelo urologista Conrado Alvarenga: “Uma das maneiras mais efetivas é a retomada rápida das grandes campanhas e mutirões. Além das midiáticas, as campanhas não-midiáticas também sempre funcionaram bem e seria a maneira mais eficaz de reduzir o atraso de diagnóstico de uma série de doenças”. Com o início da queda da pandemia pelo novo coronavírus, muitos hospitais que paralisaram outros atendimentos devem voltar a atender e operar demais necessidades. “É necessário colocar a mão na massa. Abrir hospitais aos sábados e feriados para campanha de próstata, diabetes e demais doenças que matam os homens”, defende o médico.

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