Desnutrição clínica: doença de alta prevalência nos hospitais é desconhecida pela população brasileira

Os portadores de doenças crônicas ou os pacientes oncológicos, por exemplo, correm risco triplicado de desenvolvê-la e para os idosos, o risco é aumentado em duas vezes.

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Comentei mais de uma vez em meus artigos para o Portal Futuro da Saúde sobre a minha constante busca por novos conhecimentos na área da saúde, principalmente para ampliar meu entendimento sobre o que impacta positivamente a expectativa de recuperação e a qualidade de vida dos pacientes.

Nos últimos meses, passei a ler e a participar de discussões sobre os efeitos que a desnutrição clínica, doença de alta prevalência nos hospitais, causa aos pacientes que necessitam de internação e, também, o quanto ela impacta o aumento dos custos para o Sistema Único de Saúde (SUS). As causas da desnutrição podem ser por inanição, doença e envelhecimento, isoladamente ou em conjunto. A desnutrição relacionada à doença é um problema de saúde pública global que afeta entre 20% e 50% dos pacientes hospitalizados. De acordo com os dados que pude reunir de diversas fontes, cerca de 50% dos pacientes hospitalizados na América Latina e 37,25% daqueles internados no Brasil apresentam desnutrição clínica.

O déficit nutricional registrado por pacientes em situação crítica muitas vezes também sequer é identificado ou é diagnosticado tardiamente, o que pode triplicar o risco de infecção, aumentar o tempo de cicatrização, afetar o sistema imunológico e, ainda, ampliar em cerca de cinco dias o tempo de internação necessário desse paciente, o que gera um aumento significativo dos custos e colabora para a demora na liberação de leitos.

Considerando o momento da pandemia que vivenciamos há quase 20 meses, com escassez de leitos para pacientes que necessitam de internação hospitalar para tratar a Covid-19 e as demais doenças que não deixaram de existir devido à pandemia, esse é mais um alerta importante que devemos dar para a população, pois estamos todos sujeitos a ter esse diagnóstico. Dados pesquisados indicam que cerca de 60% dos pacientes contaminados pelo novo coronavírus tem desnutrição e necessitam de terapia nutricional.

A evidência científica disponível sobre a terapêutica nutricional em doentes com Covid-19 recomenda que o estado nutricional seja avaliado na admissão hospitalar e que os pacientes em risco nutricional recebam suporte nutricional, de forma a reduzirem complicações e melhorarem o prognóstico. Vários países desenvolveram ferramentas de apoio para a terapia nutricional da COVID-19, como Portugal, Itália, Reino Unido e França baseados nas diretrizes desenvolvidas pelas Sociedades Europeia e Americana de Nutrição Parenteral e Enteral (ESPEN e ASPEN).

No Brasil temos o “Parecer BRASPEN de Terapia Nutricional em Pacientes Hospitalizados com Covid-19”, mas, infelizmente, não há nenhuma recomendação oficial, protocolo ou diretriz do Ministério da Saúde sobre nutrição especializada em pacientes com Covid-19.

Recentemente, uma iniciativa privada apoiou duas importantes frentes: subsídio à pesquisa clínica com o foco no manejo nutricional em pacientes que enfrentaram a Covid-19 (Programa NutriCOVer) e também, a doação de suplementação nutricional oral por 2 semanas para auxiliar na recuperação nutricional; somando mais de 6 mil pacientes atendidos em todo o Brasil e totalizando a distribuição de 100 mil unidades de produto. Um outro dado publicado em Abril de 2021 demonstrou que, quanto mais precoce o início da intervenção nutricional, menor o tempo de hospitalização do paciente (5 dias a menos, em média), além de reduzir as taxas de quadros respiratórios mais graves.

O tratamento da desnutrição clínica

A desnutrição clínica não é uma doença que impacta prioritariamente países emergentes ou em desenvolvimento como o Brasil, pois também tem alta incidência em países desenvolvidos, principalmente devido ao envelhecimento da população. Ela  é recorrente e, aproximadamente 30% dos pacientes já chegam ao hospital desnutridos e outros 30% desenvolvem a doença durante o período de internação. Se não for tratada adequadamente e no momento certo, tem consequências graves aos pacientes hospitalizados, que podem apresentar redução da massa muscular, ocasionando limitações importantes paras as atividades de vida diária.

O tratamento da desnutrição pode ser feito com uso da terapia nutricional especializada, podendo ser realizada de três formas distintas: via oral (Terapia Nutricional Oral – TNO), por uso de sondas (terapia nutricional enteral – TNE), por via parenteral ou venosa (Terapia Nutricional Parenteral – TNP) e também há casos em que há a necessidade da combinação de duas ou mais dessas estratégias nutricionais.

No caso da Terapia Nutricional Oral (TNO), que é o foco desse meu artigo, ela não está incluída na portaria 120, de abril de 2009, que prevê o reembolso pelo SUS para os hospitais habilitados em terapia nutricional, e apenas para uso de suporte nutricional enteral e parenteral, em pacientes desnutridos. A BRASPEN/SBNPE, sociedade que reúne médicos, nutricionistas, enfermeiros e farmacêuticos que atuam com terapia nutricional iniciou neste ano de 2021 uma ação para mobilizar pacientes e a sociedade civil, para que a Terapia Nutricional Oral (TNO) também seja incorporada ao SUS. Atualmente, apenas 7% dos hospitais do SUS recebem o reembolso da terapia nutricional, e exclusivamente para os tipos enteral e parenteral.

Como nós no Instituto Lado a Lado pela Vida trabalhamos pelo fortalecimento do SUS, pela melhoria da sua gestão, da qualidade do atendimento e dos tratamentos disponíveis aos mais de 150 milhões de cidadãos que utilizam o sistema público de saúde no Brasil, entendemos que a TNO é uma importante aliada para a recuperação dos pacientes. A terapia nutricional por reduzir dias de internação, complicações e uso de recursos hospitalares leva a redução do custo total em saúde, um conceito conhecido como custo-efetividade, fato que fica ainda mais evidente nos idosos em desnutrição hospitalar (custo 4,7% menor ao ano).

É importante, ainda, salientar que o custo de um paciente desnutrido para o hospital é três vezes maior em comparação aos sem desnutrição, o que aumenta o custo médio diário com atendimento em 61%. Estudos a que tive acesso, indicam que 3% do total gasto na saúde em países da América Latina estão relacionados à desnutrição clínica e que o aumento dos custos com pacientes desnutridos internados em UTIs chega a crescer 6,5 vezes.

Se esses argumentos ainda não são suficientes para impactar a decisão pela cobertura da TNO pelo SUS prescrita aos pacientes hospitalizados e desnutridos ou em risco de desnutrição, há um outro dado que fez com que eu e o Instituto Lado a Lado pela Vida apoiássemos ainda mais essa causa: a preservação da vida dos pacientes, pois alguns estudos mostram que a Terapia Nutricional Oral pode reduzir em 37% o risco de morte dessas pessoas. Se você se interessou pelo tema e quer saber mais sobre o assunto, consulte as campanhas da “Braspen em Ação: Terapia Nutricional Oral no SUS” e “Diga Não à Desnutrição”.

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