Descarbonizar a saúde: inovações tecnológicas para um futuro sustentável

Descarbonizar a saúde: inovações tecnológicas para um futuro sustentável

Em artigo exclusivo para Futuro da Saúde, Sabine Zink e Adriana Mallet, cofundadoras da SAS Brasil, falam da conexão entre saúde e mudanças climáticas

By Published On: 28/02/2024
Descarbonizar a saúde - artigo SAS Brasil

Foto: Adobe Stock Image

Recentemente, estivemos em Stanford, para darmos a aula inaugural da disciplina de Liderança em Saúde, da escola de medicina. Na plateia, 350 alunos de diferentes áreas, com um interesse em comum: como estar à frente de um setor tão essencial na nossa sociedade, a saúde. Além de nós, outras duas mulheres, professoras de Stanford e fundadoras de projetos sociais na área de saúde também participaram dos debates. Um dos temas que esteve presente em todas as apresentações foi a relação entre saúde e o meio ambiente.

Uma das professoras, a Desirée Labeauad, é especialista em doenças transmitidas por mosquitos e um dos temas abordados foi a questão da mudança climática e como ela está alterando o padrão de doenças como Dengue e Zika em diversas regiões do mundo.

Lideranças globais têm cada vez mais focado em discussões ao redor desta interconexão crítica entre saúde e meio ambiente. A COP28, conferência da ONU para mudanças climáticas realizada em dezembro de 2023, destacou fatos alarmantes e reuniu governantes para discussão sobre a necessidade urgente de ações estruturadas. Esta COP também foi marcante por ter um de seus dias integralmente dedicado ao debate da relação entre saúde e meio ambiente, fato inédito na história do evento.

E é sobre essa pauta que vamos falar aqui: possíveis soluções para a relação entre saúde e meio ambiente. Hoje, a relação entre os dois temas é marcada por um ciclo vicioso. De um lado, o agravamento da crise climática gera uma série de problemas de saúde, conforme exemplos citados acima. Isso acontece no exemplo citado acima, das doenças transmitidas por mosquitos, que estão se tornando mais comuns em regiões que anteriormente eram poupadas, pela alteração nos padrões de chuvas. Outro exemplo comum são aspectos relacionados à qualidade do ar, deteriorada pela poluição atmosférica, o que agrava condições respiratórias e cardiovasculares, colocando uma pressão adicional sobre os sistemas de saúde já sobrecarregados.

Por outro lado, a saúde também contribui para o agravamento da crise climática. Se fosse um país, o setor da Saúde ocuparia a 5ª posição em emissão de gás carbônico no planeta, atrás de China, EUA, Índia e União Europeia (UE), mas com uma pegada maior do que a de países como Rússia, Brasil ou Japão. Os dados são da ONG Saúde Sem Dano, que atua para a redução da pegada ambiental do setor, com base em informações de diversos estudos.

Existe uma preocupação para reduzir essa pegada ambiental. Iniciativas como o “Desafio da Saúde pelo Clima” reúne organizações de saúde ao redor do mundo comprometidas em tornarem-se mais resilientes e reduzirem progressivamente suas emissões para cuidar da saúde das pessoas e do planeta. Desde a elaboração de inventários sobre as emissões, iniciativas para transição energética, redução de resíduos, seleção de fornecedores com práticas sustentáveis, existem diversas iniciativas no setor para redução de sua pegada ambiental.

Um dos temas importantes na discussão, e às vezes pouco explorado, é a emissão de CO2 decorrente dos deslocamentos de pacientes. O NHS britânico (Sistema Nacional de Saúde) estimou sua pegada de carbono em 25 megatons de CO2 em 2019 e calculou que as viagens de pacientes são responsáveis por cerca de 10% dessa pegada. Também fez um levantamento de que cerca de 5% de todas as viagens de carro no Reino Unido são relacionadas à NHS.

Esse cenário não é diferente no Brasil. Segundo estudo do IBGE, o brasileiro se desloca, em média, 72 km para chegar até um atendimento de saúde. Se o atendimento for em saúde especializada, esse número sobe para 155 km. Só o SUS realiza 2,8 bilhões de consultas por ano.

As emissões de CO2 relacionadas à saúde são alarmantes. Estima-se que os deslocamentos para atendimentos e procedimentos em saúde no SUS representem milhões de toneladas de carbono emitidas anualmente. Essa situação ilustra um ciclo vicioso em que a necessidade de acesso a serviços de saúde contribui significativamente para a crise climática, que, por sua vez, exacerba os problemas de saúde da população.

Vice-versa

Se a saúde humana sofre graves consequências com a crise climática, o contrário também é real: a área da Saúde emite níveis de CO2 que têm impactos negativos no meio ambiente.

Estimativas dão conta de aumentos significativos nas emissões de carbono por sistemas de saúde ao redor do planeta. A previsão, segundo a ONG Saúde Sem Dano, é que até 2050, o número pode triplicar se nenhuma ação de mitigação for adotada pelo setor, um aumento de 6 gigatoneladas de carbono lançado à atmosfera por ano.

O nosso papel para descarbonizar a saúde

Não faz sentido a Saúde agravar a crise climática que causará, em última análise, a piora da saúde humana. Daí a importância da descarbonização da saúde, um tema que vem ganhando relevância recentemente. Alguns hospitais já estão liderando este movimento, como Sírio-Libanês e Albert Einstein, em São Paulo, e Pequeno Príncipe, em Curitiba. Mais de 170 hospitais na América Latina trabalham junto à Rede Global de Hospitais Verdes e Saudáveis da Health Care Without Harm, calculando suas pegadas climáticas e assumindo compromissos de redução de emissões.

Neste contexto desafiador, iniciativas como a CompenSAS surgem na busca por soluções práticas e sustentáveis. Desenvolvida pelo Grupo SAS, através da SAS Smart, e apresentada na 54ª edição do Fórum Econômico Mundial em Davos, a CompenSAS é a primeira plataforma do mundo dedicada à conversão de créditos de carbono focada no setor de saúde. Inspirada pela constatação do impacto significativo dos deslocamentos evitados por meio da telemedicina, a plataforma não só aborda a redução de emissões de carbono como também promove um incentivo para maior inclusão social e acesso à saúde por meio da telemedicina. Ou seja, além do benefício ambiental, contribui significativamente para o impacto social, facilitando o acesso à saúde digital.

Entendemos que, perante o tamanho dos desafios enfrentados tanto com a crise climática, quanto no setor de saúde, é essencial o incentivo à busca por soluções para os problemas. Acreditamos que todas as crises também podem representar oportunidades para o aparecimento de soluções inovadoras. E também que o apetite por implementar soluções deve ser maior do que o debate sobre os problemas.

Sabemos que problemas complexos demandam soluções complexas e não existe uma única resposta, ou uma única forma de solução. Por isso, é imperativo reconhecer e investir em soluções inovadoras que possam transformar a crise atual em uma oportunidade para reconstruir sistemas de saúde mais resilientes e sustentáveis.

Alguns números:

  • 5% – Emissões de CO2 no mundo que o setor de saúde é responsável = 300 MI Toneladas
  • 2.8 bilhões/ano: atendimentos e procedimentos em saúde no Brasil (SUS)
  • 72 km: deslocamento para cada atendimento, segundo IBGE
  • 38 Mi/toneladas de carbono: impacto ambiental dessas viagens

*Sabine Zink e Adriana Mallet, cofundadoras da SAS Brasil

Sabine Zink e Adriana Mallet, cofundadoras da SAS Brasil
Sabine Zink e Adriana Mallet

Sabine Zink e Adriana Mallet são cofundadoras da SAS Brasil

Sabine Zink e Adriana Mallet são cofundadoras da SAS Brasil

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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  • Fabricio Campolina

    Fabricio Campolina é referência no setor quando o assunto é tecnologia, inovação e transformação digital e, atualmente, é presidente da Johnson & Johnson MedTech Brasil. Graduado em ciência da computação pela UFMG, possui ainda especialização em gestão de negócios pelo Ibmec e MBA em administração de negócios pela Duke University, onde se graduou entre os top 10% de sua classe. Foi também presidente do conselho da ABIMED, onde liderou o processo de reposicionamento estratégico da associação, e é membro-fundador do Instituto Coalização Saúde.

  • Redação

    Equipe de jornalistas da redação do Futuro da Saúde.

  • Nelcina Tropardi, diretora-geral de jurídico, relações governamentais, ESG e compliance na Dasa.
    Nelcina Tropardi

    Na Dasa desde outubro de 2022, está à frente das áreas Jurídico, Relações Governamentais, ESG e Compliance como Diretora-Geral. É, ainda, Presidente da Diretoria Nacional da Associação Brasileira de Anunciantes (ABA), membro do Conselho Superior do CONAR (Conselho Nacional de Autorregulamentação Publicitária) e membro do Conselho de Administração do Sindhosp/SP. Com mais de 25 anos de experiência em assuntos jurídicos e corporativos no Brasil e na América Latina, já teve passagens na Unilever, Pirelli, Diageo e Heineken.

Sabine Zink e Adriana Mallet, cofundadoras da SAS Brasil
Sabine Zink e Adriana Mallet

Sabine Zink e Adriana Mallet são cofundadoras da SAS Brasil