Novidades na área da infectologia que você certamente se interessará!

Novidades na área da infectologia que você certamente se interessará!

Em novo artigo para Futuro da Saúde, a infectologista Rosana Richtmann fala das novidades sobre dengue, coqueluche, MPOX, gripe aviária e VSR

By Published On: 10/07/2024
Novidades da infectologia: dengue, coqueluche, MPOX, gripe aviária e VSR - Artigo Rosana Richtmann

Foto: Adobe Stock Image

Os acontecimentos das doenças infecciosas são tão intensos e rápidos que decidi escrever nesta coluna as várias novidades sobre a área da infectologia, que impacta a multiprofissionalidade porque afeta várias áreas de trabalho. Dentre os temas estão dengue, coqueluche, MPOX, gripe aviária e medidas de prevenção para o vírus sincicial respiratório (VSR). Vamos lá:

Dengue

Estamos acabando (ou no mínimo diminuindo) o número de casos da recente epidemia de dengue, já pensando na sua possível volta em 2025. Assim, mesmo que não falemos mais sobre o assunto, é tempo de se vacinar contra essa doença, para estarmos protegidos na nova sazonalidade da temporada de chuvas e calor. Temos que pensar em dengue o ano todo e não somente quando a situação aperta.

Coqueluche

O retorno dos casos de coqueluche no Brasil e no exterior é outro assunto atual. Quando pensamos em coqueluche, logo nos perguntamos: ainda temos casos de coqueluche em 2024? A doença não é da infância? Não estamos todos imunizados?

É verdade que estamos vendo um aumento significativo nos casos desta doença infecciosa aguda causada pela bactéria Bordetella pertussis, que pode ser transmitida facilmente por gotículas respiratórias e pode causar casos mais graves em crianças menores de um ano. Uma pessoa infectada pode transmitir a bactéria para outras 17, o que explica a frase comum “a coqueluche do momento”.

A coqueluche, também conhecida como “tosse comprida”, não dá imunidade permanente nem aos vacinados nem aos que já foram infectados. Portanto, é necessário vacinar contra esta bactéria a cada dez anos com a vacina tríplice bacteriana tipo adulto, que inclui difteria e tétano.

Quando o paciente relata tosse seca e irritativa por mais de duas semanas e relata algum contato ou caso de outra pessoa com sintomas semelhantes, devemos considerar o diagnóstico de coqueluche. O diagnostico pode ser confirmado pela pesquisa da Bordetella pertussis por técnica de PCR (Biomol) na secreção de nasofaringe. O tratamento é feito com antibiótico específico.

A MPOX mais mortal e perigosa da África

A República Democrata do Congo está enfrentando o maior surto de Mpox (Monkeypox, também conhecido como Varicela do Macaco) do último século, de acordo com uma publicação recente do BMJ (British Medical Journal). São mais de 600 mortes e 13.000 casos suspeitos foram relatados.

Apesar de terem convivido com o vírus da Mpox há décadas, uma mudança genética fez com que a atual Clade 1 do vírus seja muito mais agressivo e contagioso, em alguns casos lembrando o quadro da VARÍOLA, que já foi extinta do mundo.

Assim, alguns pesquisadores acreditam que os casos relatados são apenas a ponta do iceberg. Como resultado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicou um documento recentemente sobre métodos para prevenir e controlar a disseminação da Mpox.

H5N1 é um “candidato” ao próximo vírus pandêmico

A gripe aviária é causada pelo vírus da influenza aviária, que infecta principalmente aves, mas também pode infectar outros mamíferos, incluindo humanos. Existem várias cepas desse vírus, com a H5N1 sendo uma das mais conhecidas devido a sua alta patogenicidade e potencial de causar surtos graves.

Graças aos surtos do vírus H5N1 em aves e, recentemente, em gado leiteiro nos Estados Unidos, a situação do vírus continua sendo monitorada de perto em todo o mundo. Até agora, no entanto, não houve sinais de transmissão de humano para humano.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) e os Centros de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) dos Estados Unidos enfatizam que a constante vigilância é essencial para identificar qualquer mudança na transmissão do vírus. Nos Estados Unidos, um caso humano foi confirmado recentemente, ligado a surtos em rebanhos de gado.

A OMS alerta para a necessidade de vigilância contínua porque o vírus pode causar doenças graves em humanos e pode se tornar pandêmico, embora a maioria das infecções por H5N1 ainda seja limitada a animais.

Diversos laboratórios estão desenvolvendo vacinas para proteger os profissionais que mais entram em contato com estes animais. As medidas básicas de prevenção devem ser mantidas em todo momento, mesmo que não haja casos entre pessoas:

  • Evitar o contato direto com aves doentes ou mortas e outros animais potencialmente infectados, como os corpos de leões marinhos encontrados espalhados no litoral do Peru na América do Sul
  • Manter boas práticas de higiene, como lavar as mãos após manipular aves ou seus produtos
  • Consumir apenas produtos de aves bem cozidos e leite pasteurizado
  • Usar equipamentos de proteção individual (EPI) apropriados ao trabalhar em ambientes com risco de infecção​

Vírus Sincicial Respiratório: finalmente temos prevenção

O ano de 2024 é dedicado à prevenção do vírus sincicial respiratório (VSR). Atualmente, temos duas vacinas em uma dose única — tomarei a liberdade de escrever os nomes comerciais, para facilitar o entendimento das indicações.

Temos a Abrysvo (Pfizer) indicada para adultos acima de 60 anos e gestantes entre 32 a 36 semanas de idade gestacional. O objetivo desta imunização é proteger os idosos, que são mais propensos a problemas graves, e proteger o lactente (nos primeiros seis meses de vida) contra a bronquiolite por meio da passagem passiva de anticorpos via transplacentária.

A outra vacina disponível é a Arexvy (GSK), também em dose única, indicada para adultos maiores de 60 anos e NÃO indicada para gestantes.

Além das novas vacinas, teremos também a oportunidade do uso de um novo anticorpo monoclonal, denominado Beyfortus (Niservimabe, da Sanofi) que apresenta a grande vantagem de proteção do lactente (logo ao nascimento) com apenas uma dose intramuscular e proteção por mais de 6 meses, ou seja, o bebê passará toda a sazonalidade do VSR protegido. O novo produto é indicado para a prevenção da doença do trato respiratório inferior causado pelo VSR em:

  • Recém-nascidos e bebês entrando ou durante sua primeira temporada do VSR.
  • Crianças de até 24 meses de idade que permanecem vulneráveis à doença grave causada pelo VSR até a sua segunda temporada, que pode incluir, mas não se limita a crianças com:
    • Doença pulmonar crônica da prematuridade (DPC)
    • Doença cardíaca congênita hemodinamicamente significativa (DCC)
    • Imunocomprometidos
    • Síndrome de Down
    • Fibrose cística
    • Doença neuromuscular
    • Anomalias congênitas das vias aéreas

A grande limitação do uso de todas estas novas ferramentas de prevenção do VSR em diferentes cenários será o ACESSO aos produtos, que além de ter elevado custo, apresentam por ora, baixa disponibilidade de compra.

Resumindo, temos muitas novidades no mundo da infectologia, algumas preocupantes e outras promissoras!

Rosana Richtmann

Infectologista do Instituto Emílio Ribas, Chefe do Departamento de Infectologia do Grupo Santa Joana e Membro dos Comitês de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia, de Calendários da Sociedade Brasileira de Imunização e do Comitê Permanente em Assessoramento de Imunização da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. É graduada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos e possui Doutorado em Medicina pela Universidade de Freiburg, na Alemanha

About the Author: Rosana Richtmann

Infectologista do Instituto Emílio Ribas, Chefe do Departamento de Infectologia do Grupo Santa Joana e Membro dos Comitês de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia, de Calendários da Sociedade Brasileira de Imunização e do Comitê Permanente em Assessoramento de Imunização da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. É graduada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos e possui Doutorado em Medicina pela Universidade de Freiburg, na Alemanha

Leave A Comment

Recebar nossa Newsletter

NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

Artigos Relacionados

Rosana Richtmann

Infectologista do Instituto Emílio Ribas, Chefe do Departamento de Infectologia do Grupo Santa Joana e Membro dos Comitês de Imunização da Sociedade Brasileira de Infectologia, de Calendários da Sociedade Brasileira de Imunização e do Comitê Permanente em Assessoramento de Imunização da Secretaria de Saúde do Estado de São Paulo. É graduada em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas de Santos e possui Doutorado em Medicina pela Universidade de Freiburg, na Alemanha