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Demissões nas healthtechs: por que isso não deve afetar o potencial crescimento?

Com investidores mais criteriosos, demissões nas healthtechs serviram para manter dinheiro em caixa e buscar crescimento sustentável

               
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Investimentos mais criteriosos não impedem o crescimento das healthtechs.

As recentes notícias de demissões nas healthtechs brasileiras criaram uma série de dúvidas sobre a sustentabilidade e o futuro das novas empresas, que surgiram com o intuito de modificar o mercado e revolucionar o setor. Algumas dessas startups que estavam ganhando cada vez mais destaque sofreram um revés na imagem ao demitir parte da sua equipe.

É o caso da Alice, Zenklub e Sami. Especula-se que juntas, as empresas demitiram cerca de 180 funcionários de diferentes áreas, entre junho e julho. Depois de receber grandes aportes financeiros de investidores, buscando um crescimento acelerado, o cenário em 2022 fez com que houvesse uma reavaliação das despesas e do dinheiro em caixa.

Isso porque com a alta dos juros, a crise econômica e a disparada da inflação mundial, investidores estão buscando projetos mais sólidos e seguros, diminuindo os aportes nas grandes empresas e apostando em projetos mais conservadores. Startups menores e mais estruturadas, que não dependem tanto de ventures capital para operar, ainda seguem atraindo investimentos.

“Essa onda de demissões está muito relacionada a um ritmo de crescimento menos acelerado das empresas. O mercado todo retrai quando tem menos liquidez, porque tem taxas de juros mais altas, o que tira dinheiro da economia. Todo mundo que vinha prevendo crescer em um ritmo mais rápido está tendo que reajustar as operações para um crescimento mais lento e sustentável”, explica Gustavo Araujo, CEO do Distrito, ecossistema de transformação, inovação aberta e um dos maiores bancos de dados sobre startups brasileiras.

Dinheiro em caixa precisa durar mais

Sem a garantia de novos investimentos, as empresas precisaram segurar os gastos para fazer o dinheiro em caixa durar mais tempo, até conseguirem novas captações. Em média, cada nova rodada traz receita para ser utilizada por 1 ano e meio, mas neste momento pode ser necessário render por um período maior.

“Infelizmente, o lugar mais rápido para cortar são as pessoas. Não necessariamente é o que vai dar o melhor retorno, mas é o mais rápido. Então para determinados momentos que você vai desacelerar a empresa, é necessário demitir. Os empreendedores querem mesmo é continuar com o pé no acelerador e crescendo, mas é preciso se readequar”, observa Leonardo Nunes, Head de M&A e Inovação na Saúde Global, empresa de gestão e negociações do setor.

No entanto, mesmo com a redução de investimentos e a onda de demissões, a avaliação dos especialistas é que o serviço prestado não deve ser impactado. O corte de funcionários é exatamente para evitar que a médio ou longo prazo os produtos das startups sejam afetados e sofram redução na receita.

“A necessidade de crescimento agressivo nos últimos anos às vezes distanciava as empresas do principal objetivo delas, que é resolver um problema relevante e ter um produto aderente. É um momento em que os empreendedores e as empresas também se voltam mais aos clientes, então dessa maneira acabam ficando mais próximos da missão e do propósito que eles tinham”, defende Araujo, do Distrito.

A fonte secou?

Com valores recordes, 2021 foi um ano atípico. Somente as healthtechs receberam um montante de 530 milhões dólares ao longo de 69 negociações, de acordo com dados do Distrito. De forma geral, os investimentos em startups brasileiras foi de US$ 9,4 bi, valor 2,5 vezes maior que o ano anterior. Isso ocorreu principalmente por um cenário com muito dinheiro sobrando e juros baixos, o que permite um investimento de maior risco.

Em 2022, no entanto, houve uma mudança de comportamento por causa de diversos fatores, como aponta Leonardo Nunes, da Saúde Global: ”Inflação alta em todos os país, aumento de juros nos Estados Unidos, o que traz menos dinheiro para o Brasil, a guerra da Rússia e Ucrânia, que pode ter desdobramentos simples ou se tornar uma nova Guerra Mundial. Nesse momento de incertezas o dinheiro fica escasso no mundo. No Brasil tem mais um elemento, a eleição”.

O resultado disso é que, neste ano, as healthtechs movimentaram no primeiro semestre cerca de 114,8 milhões de dólares em 33 negociações. De acordo com o CEO do Distrito, Gustavo Araujo, o investimento é 40% menor que no mesmo período do ano passado. A redução tem afetado os aportes de “late stage”, para empresas mais estruturadas e que recebem aportes acima dos 100 milhões de reais.

A expectativa é que o cenário retorne para os patamares de 2020, mas é preciso ter paciência e controle de caixa para passar pelo período. Com investimentos mais criteriosos, o foco deve permanecer em consolidar o que já vem sendo construído pelas healthtechs, com um crescimento menos agressivo, além de compilar dados que mostrem como a empresa tem atuado e se destacado no mercado.

“Depende muito do macro, mas especialistas falam sobre esse juros maior e a necessidade de controle durar entre 1 e 2 anos. Você ainda tem a possibilidade de recessão nos Estados Unidos ou até em vários outros países, então a gente vai lidar por pelo menos esse período antes da economia voltar a aquecer, o custo do dinheiro voltar a cair e ter mais liquidez no mercado”, afirma Araujo.

Crescimento mais controlado e sustentável

A Zenklub, plataforma de cuidado com a saúde emocional, é uma das empresas que passaram por demissões. Apesar de não divulgarem os números oficiais, especula-se que em torno de 40 funcionários foram demitidos. Atualmente, ela conta com cerca de 120 colaboradores. A estratégia atual é remodelar o negócio, estruturando os produtos existentes e buscando um crescimento mais fundamentado.

“O cenário mundial mudou. Era exigido crescimento a qualquer custo, e agora é mais exigido ter um negócio seguro, que seja sustentável. Nós sempre tivemos os pés na terra porque nos custou caro. Mas naturalmente, se a gente começa a ver que o mercado está privilegiando mais sustentabilidade, olhamos para dentro e vimos onde podemos fazer um melhor trabalho e facilitar atingir o nosso objetivo”, aponta Rui Brandão, CEO e cofundador da Zenklub.

Apesar das demissões e da adequação, a healthtech segue crescendo, com 400 clientes corporativos e uma rede de 800 profissionais que atendem cerca de 300 mil vidas. A mudança da classificação de Síndrome de Burnout para doença ocupacional, feita pela Organização Mundial da Saúde (OMS) em janeiro, e a preocupação da sociedade com a saúde mental têm impulsionado o crescimento. A expectativa é que dobre de tamanho no segundo semestre de 2022.

“O Zenklub está crescendo apesar de um ano turbulento, com uma nova onda de Covid e uma guerra ocorrendo. Continuamos a promover a saúde emocional e mostrar a importância do tema para pessoas físicas e empresas, e também para os próprios especialistas adotarem mais tecnologia na forma de atender”, defende Rui.

O último aporte recebido pela healthtech ocorreu em fevereiro de 2021, com valor de 45 milhões de reais. De acordo com o CEO, a empresa ainda possui bastante dinheiro em caixa e não buscou novos investimentos. O foco é atuar além de ser uma plataforma de consultas, trazendo outras inovações para a área de saúde emocional, através da produção de conteúdos e dados.

“Havia uma vontade de criar muita coisa ao mesmo tempo. Só que esses testes eram pouco fundamentados, talvez estávamos com uma postura de inovação a qualquer custo. Agora, nós precisamos fazer bem aquilo que já dominamos e ir fazendo poucas apostas para desbloquear novos horizontes”, explica o cofundador da Zenklub.

Mercado segue em alta mesmo com demissões nas healthtechs

Mesmo com a queda de investimento e as demissões, as healthtechs de diferentes tamanhos ainda têm grande potencial de crescimento. O envelhecimento da população brasileira, a proposta de novos modelos de cuidado, a tecnologia e o foco na saúde mental formam um cenário em que as startups do setor podem crescer e ganhar rentabilidade.

Araujo, do Distrito, analisa que “saúde é um setor mais resiliente porque a necessidade é constante. Você tem uma população ficando cada vez mais velha e as demandas crescendo em relação a isso. Entre vários setores, saúde é um dos que mais se protegem de uma situação como essa. Vamos continuar a ver a saúde crescendo, tendo investimento e o mercado de startups em saúde ficando cada vez mais maduro. Quem sabe daqui a pouco a gente não tenha um unicórnio de saúde. É possível”.

Para as startups que atuam como planos de saúde há outro ponto a favor: a grande parcela da população que depende do SUS ou serviços particulares esporádicos, mais de 160 milhões de brasileiros. Além de propor um novo modelo de cuidado, com foco no incentivo à prevenção e acompanhamento do paciente, as startups podem explorar o público que busca por opções de planos. Dados da Sami, por exemplo, apontam que mais de 75% dos cerca de 9 mil beneficiários não possuíam nenhum plano.

“O mercado para as healthtechs nunca foi tão promissor quanto hoje. Por conta da pandemia, as pessoas começaram a se preocupar muito mais com a saúde. Você tem pessoas de classe B e C que têm condições de pagar um plano mais barato, e que hoje ainda não tem um plano. Aí é um nicho que as healthtechs mais voltadas para os planos de saúde devem focar”, explica Nunes, da Saúde Global.  

Estratégias diferentes

Uma das healthtechs que não passaram por demissões e que seguem em crescimento é a Vittude, plataforma de psicologia online e educação emocional que atende cerca de 650 mil vidas. Criada em 2016, a empresa conta hoje com 62 funcionários e pretende chegar a 75 colaboradores ainda este ano. Em março, recebeu um aporte de 35 milhões de reais, em uma rodada de investimento série A.

De acordo com Tatiana Pimenta, CEO e fundadora da plataforma, a startup optou por seguir um caminho de crescimento mais lento e sustentável, sem buscar tantos investimentos de capital de risco, o que possibilitou aprender como tornar o negócio lucrativo, ter mais controle sobre o dinheiro em caixa e focar na gestão.

“Eu olho o mercado e a maioria das startups captam com base no que elas prometem. Nós já tínhamos entregue o número em 2021, foi com base no realizado. Demoramos mais tempo, e talvez por ter menos recurso financeiro fomos mais conscientes. Se temos menos dinheiro, temos que gastar menos e fazer as coisas de forma mais lenta, mas isso não impediu a gente de crescer”, explica Pimenta. 

De acordo com a CEO, algumas mudanças impulsionaram esse crescimento ao longo dos anos. O primeiro foi a regulamentação da terapia online ainda em 2018, antes da popularização das teleconsultas que só foram autorizadas no início da pandemia, em 2020. A própria pandemia teve um papel fundamental, já que aumentou a preocupação com a saúde mental da população.

A empresa saltou de 7 clientes corporativos em 2020 para cerca de 200 empresas associadas hoje, como o Grupo Boticário, Banco do Brasil e SAP. Com a alteração na classificação de Síndrome de Burnout, houve um maior interesse dos empregadores em fornecer um benefício focado em saúde mental aos funcionários. Ainda, começaram algumas iniciativas para incluir dependentes também. A expectativa é que a Vittude dobre o número de vidas atendidas ainda este ano.

“O último investimento foi para sairmos de 120 clientes e crescer o negócio. Eu uso esse dinheiro para escalar, deixando de ser uma startup. Já provamos que o nosso produto tem aderência do mercado e agora colocamos combustível para o carro andar. Nesse momento o objetivo é estruturar, seniorizar, trazer lideranças, construir processos e colocar dinheiro em marketing, porque já sabemos quais canais funcionam”, explica a fundadora.

Tatiana ainda analisa que, ao contrário de 2021, quando havia muitos recursos para investimento e menos critérios para escolher as startups que receberam esses aportes, o novo cenário é mais seletivo, com investidores buscando empresas que já tenham resultados expressivos: “Estamos cumprindo as fases naturais de um negócio em desenvolvimento e a expectativa é realizar uma nova rodada de investimento. Se continuarmos entregando os parâmetros de receita e de faturamento que se tem de benchmarking, a próxima rodada de investimentos promete ser 3 vezes maior”.

Legado da pandemia

A chegada de Covid-19 trouxe grandes impactos na economia mundial, reduzindo a receita e produção de diversas empresas. Hospitais e planos de saúde tiveram um aumento exponencial dos gastos, com a diminuição das consultas e procedimentos eletivos, e o alto índice de internação relacionado ao coronavírus. Por outro lado, trouxe novas oportunidades para o mercado da saúde.

“Na pandemia surgiram várias healthtechs, muitas vezes para resolver questões do período. Coisas que eram uma dor muito aguda da pandemia e que agora não fazem mais sentido, porque vários desafios estavam relacionados a Covid. As startups aprenderam, desenvolveram produtos e começaram a se adaptar para resolver outras dores do mercado de saúde”, explica Luiz Othero, diretor-executivo da Associação Brasileira de Startups (ABStartups).

Como exemplo, Othero fala sobre os totens que utilizam inteligência artficial para analisar e identificar possíveis sintomas relacionados à Covid, que foram muito utilizados por empresas e eventos. Agora, com grande parte da população vacinada e uma menor preocupação da sociedade com a doença, o desafio é encontrar alternativas e novos caminhos para essas soluções.

Outro ponto importante levantado pelo diretor-executivo são as mudanças na regulamentação e legislação em diversas áreas. Uma delas foi em relação à telessaúde, que só foi autorizada com a chegada da Covid no país, ainda que em caráter emergencial. Agora, já existe uma portaria do Ministério da Saúde que autoriza de forma definitiva, e o mercado ainda aguarda uma lei que referende a prestação de serviço.

A saúde é um setor que ainda tem muito espaço de crescimento. Mas para quem busca entrar ou desenvolver novos produtos, Othero alerta que é preciso entender como o setor funciona e quem são as fontes pagadoras: “A saúde tem características muito peculiares porque tem um envolvimento grande da esfera pública, e também é um mercado onde as pessoas têm planos de saúde. Quem trabalha com inovação tem dificuldade de entender quem vai pagar a conta. É o plano de saúde? É o governo? É o cliente final? Não é muito claro a relação de cliente e empresa como em outros mercados.”

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