Dasa cria iniciativa para identificar novas variantes do SARS-CoV-2

Assim como o Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP) patrocinado pela empresa, o Genov irá gerar informações para o setor de saúde como um todo. O projeto deve aumentar em até 6 vezes a quantidade de coronavírus sendo sequenciados no país, oferecendo informações atualizadas para impulsionar o combate a Covid-19.

               
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A Dasa lançou na segunda-feira (17) o Genov, projeto de vigilância genômica que acompanhará a evolução do SARS-CoV-2 e deve sequenciar cerca de 3 mil amostras por mês, número que em 12 meses pode resultar em 30 mil genomas de coronavírus sequenciados. Com investimento de 4,8 milhões de reais, foram necessários cerca dois meses e meio para concretizar a iniciativa, que já em junho deve entregar seu primeiro boletim de resultados. A meta é que a cada mês novos boletins sejam lançados para o GISAID, um banco de dados científico de escala global.

Assim como o Instituto de Ensino e Pesquisa (IEP), o Genov é um projeto independente patrocinado pela Dasa e tem o objetivo de gerar informações para o setor de saúde como um todo e não para finalidades exclusivas da empresa. Para José Eduardo Levi, virologista, pesquisador e idealizador do Genov, o programa surgiu impulsionado pela situação de sobrecarga que as instituições científicas do país estão vivendo: “É uma questão de sobrecarga e de que não foi criada uma rede de vigilância genômica com a capacidade necessária. Capacidade e equipamento o Brasil tem, mas precisaria investir em mais pessoas também e em projetos coordenados”.

O virologista contou que existem iniciativas pouco organizadas, o que resulta em pouco controle sobre quais amostras genéticas estão sendo analisadas. “A vigilância é o hoje. Quando saem resultados, em geral são baseados em amostras de dezembro, janeiro, fevereiro… e que apesar de ser importante, já não reflete mais o que estamos vivendo agora. E não é porque não estão trabalhando nisso, é porque provavelmente estão fazendo outras amostras e estão sobrecarregados”, avalia o pesquisador.

Por esse motivo Levi reforça que o produto principal do novo projeto é identificar novas variantes. A identificação de versões do vírus como a cepa indiana, britânica ou sul africana aparece em segundo plano. “O principal objetivo do trabalho é encontrar aquilo que ainda não é conhecido, a variante que está surgindo. Usando dados não só da sequência, mas também de análise da sequência, esperamos distinguir se determinada variante é aquela que devemos nos preocupar” explicou Levi. No caso de variantes já conhecidas, o Genov pode ajudar a identificar quantas pessoas estão infectadas por elas e onde para que seja possível tomar medidas de proteção naquele local.

Os vírus estão sempre em evolução e só irão parar quando não houver mais pessoas infectadas. Portanto, o foco é realizar uma vigilância epidemiológica e biológica, analisando o que pode desencadear novas crises e como são os mecanismos de sobrevivência que os vírus estão utilizando. Com isso, espera-se que o acompanhamento da evolução do SARS-CoV-2 ajude na realização de políticas públicas de saúde, apontando medidas que precisam ser tomadas no Brasil e no mundo para conter o vírus. Além disso, há também a importância de gerar dados mais próximos da atualidade, para seja possível barrar a possibilidade das vacinas contra Covid-19 de ‘escaparem’ das novas variantes.

O cenário brasileiro de evolução da Covid-19

Em comparação a outros países, o Brasil é uma das nações com mais chances de ver o vírus evoluindo para formatos mais agressivos e perigosos ao apresentar um cenário de grande número de infectados e alta carga viral que o vírus comporta nos organismos — no coronavírus, tem sido comum encontrar pessoas com bilhões de cópias do vírus na mucosa respiratória, o que facilita a transmissão. A velocidade da campanha de vacinação no Brasil pode não ser suficiente para frear o vírus.

“Uma coisa que talvez não seja muito fácil de compreender é que o que mais tememos é o aparecimento de variantes que escapem à resposta da vacina”, disse Levi. A preocupação está associada a casos como o da África do Sul, onde a variante B.1.351 se mostrou potente o suficiente para tornar a vacina Oxford-AstraZeneca ineficaz em seu combate. O imunizante foi retirado do país após cientistas comprovarem que já não seria capaz de proteger os sul-africanos. Ele completa dizendo que “para evitar que isso aconteça, teria que ter muita gente vacinada, de forma a diminuir a circulação e a chance de uma eventual variante de escape surgir”.

O cenário atual dos brasileiros é um número expressivo de pessoas ‘semi-imunes’, cujo esquema vacinal não foi completado e somente uma dose foi aplicada. Para o vírus, é vantajoso que a proteção não seja obtida por completo, pois facilita o desenvolvimento de versões mais fortes que escapem da vacina. Por isso é essencial que as duas doses sejam aplicadas rápida e corretamente, o que exige esforço tanto das autoridades, quanto da população. “Estamos vacinando em um momento onde já temos uma variante totalmente predominante e que é altamente transmissível”, diz o virologista referindo-se a versão P.1 da Covid-19. O que reforça, mais uma vez, a necessidade de conhecer quais variantes estão emergindo no momento atual.

Mas como é a evolução do coronavírus?

Normalmente, um vírus evolui ao se replicar nas células de outro organismo, gerando ‘filhos’ diferentes uns dos outros. Isso significa que seus sucessores têm alguma mudança na sequência do seu RNA ou DNA — se for um vírus de DNA. O mesmo ocorre com os seres humanos, mas enquanto as pessoas geram uma nova geração a cada 20 anos aproximadamente, os vírus reproduzem milhões a cada dois ou três dias, uma evolução muito mais rápida.

O fator surpreendente dos coronavírus é o fato de serem os únicos vírus de RNA com mecanismo de reparo. Basicamente, a função desse mecanismo é corrigir erros, o que permite uma melhor adaptação a adversidades. Em geral, os micro-organismos não possuem esse instrumento, principalmente os vírus, porque isso poderia impedir uma evolução rápida. O vírus da Covid-19, mesmo com esse mecanismo, não apresenta uma mutação mais lenta.

O virologista José Eduardo Levi exemplifica: “Em um ano de evolução do coronavírus, deveríamos ter de 12 a 24 mudanças, não mais que isso. Mas temos visto mais, principalmente a partir de dezembro do ano passado, quando fomos surpreendidos com algo chamado de evolução convergente“. Nesse processo, os organismos não estão de fato relacionados, mas desenvolvem características semelhantes de forma independente. Com isso, Levi explica que as diversas variantes surgindo ao redor do mundo não correspondem ao vírus transferindo sua localização:

“Não é que o vírus que saiu da Inglaterra, foi para Índia e por isso vemos o mesmo vírus desses lugares aparecer em outros países. O que temos visto é uma mutação igual a da variante da Inglaterra, de Manaus, da Índia e outros. Isso sugere que essa mutação é muito importante, oferecendo alguma vantagem essencial para o vírus e por isso acaba sendo igual em alguns lugares”, conclui.

Quanto mais recursos a ciência tiver para impedir mais pessoas de se contaminarem — ou que pelo menos diminua a quantidade de vírus no corpo —, mais informações estarão disponíveis para conter a disseminação da Covid-19.

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