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Dark pharmacy é nova aposta de healthtechs. Anvisa estuda regulamentação

Modelo de negócio de dark pharmacy propõe redução de custos com entregas mais rápidas e atendimento mais próximo ao cliente.

               
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Dark farmacy foca no atendimento ao cliente, preços mais competitivos e entregas rápidas;

A pandemia de Covid-19 trouxe um boom do mercado de compras online, seja por aplicativos, sites ou marketplaces. Com as farmácias e drogarias não foi diferente. Mesmo que grande parcela da população ainda busque as lojas físicas do bairro, é expressivo o aumento de vendas online. Observando essa movimentação no setor, healthtechs apostam em um novo modelo de negócio: a dark pharmacy.

A proposta é atuar de forma 100% digital, apenas com centros de distribuição de medicamentos, para reduzir custos operacionais. Assim, se torna possível aumentar os ganhos e diminuir os preços finais dos produtos aos usuários, além de concentrar os esforços em áreas como atendimento farmacêutico ao público e entregas mais rápidas.

Entretanto, há entraves no caminho. O principal é que a legislação ainda exige que as empresas com vendas remotas, seja por telefone ou internet, tenham pelo menos uma loja física aberta ao público. Vale ressaltar que a lei que regulamenta as boas práticas farmacêuticas possui mais de 12 anos e grandes mudanças na forma de consumo dos brasileiros ocorreram no período.

Pensando nisso, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) instituiu em fevereiro deste ano um Grupo de Trabalho dedicado a discutir e revisar a Resolução da Diretoria Colegiada (RDC) 44/2009, em especial a parte que define as regras de funcionamento dos e-commerces, o que também passa pela regulamentação das dark pharmacies.

“Mais de 145 entidades ligadas não só ao setor de saúde estão debatendo o assunto, e veremos se a Anvisa vai regulamentar como fruto desse debate e de que forma será feito. O Conselho não é contra a tecnologia, mas temos que ter cuidado de como ela pode ser utilizada”, explica Gustavo Pires, diretor secretário-geral do Conselho Federal de Farmácia (CFF) e membro do grupo de trabalho que vem discutindo o tema.

O grupo é organizado pela Gerência de Inspeção e Fiscalização de Medicamentos e Insumos Farmacêuticos (GIMED) da Anvisa. Dentre as entidades que fazem parte desse grupo ao lado do CFF estão a Associação Brasileira das Redes de Farmácias e Drogarias (Abrafarma), a Associação Brasileira de Comércio Eletrônico (Abcomm), a Associação da Indústria Farmacêutica de Pesquisa (Interfarma) e a Saúde Digital Brasil. O prazo para a discussão é até setembro, mas de acordo com Pires, existe a possibilidade de prorrogar por mais 6 meses.

Demandas além da dark pharmacy

Além da regulamentação do modelo de dark pharmacy, existem outras demandas das healthtechs que podem contribuir com o mercado. A prescrição eletrônica para medicamentos, apesar de já ser utilizada antes da chegada de 2020, foi impulsionada com as mudanças do período, muito por conta da telemedicina, que passou a ser utilizada em todo o país.

No entanto, a venda online de medicamentos controlados, que representam cerca de 20% dos produtos nas farmácias e que requer retenção de receita, era proibida até 2020. Com a pandemia, a Anvisa redigiu uma resolução que liberou em caráter temporário a dispensação remota dessa categoria de medicamentos. Com o fim da emergência em saúde pública, a agência prorrogou a resolução até maio de 2023.

“A resolução foi criada na pandemia e foi renovada, mas gostaríamos que virasse uma instrução normativa. Isso permitiria destravar modelos como a Pill, que cumprem exatamente o que boas práticas farmacêuticas exigem e ao mesmo tempo trazem inovações de modelos de negócios positivos aos pacientes”, defende Tom Bergstein, cofundador da Pill Farmácia Digital, dark pharmacy que atua desde novembro de 2021 em São Paulo.

Esse é um dos assuntos que vêm sendo explorados pelo Grupo de Trabalho da Anvisa. Outro ponto que tem recebido atenção das instituições é a possibilidade de prescrição eletrônica para as receitas amarela e azul, utilizadas para entorpecentes ou psicotrópicos. Hoje, é preciso apresentar a versão física para conseguir comprar medicamentos dessas categorias.

“As receitas azuis de medicamentos controlados já passaram de ter validade regional para nacional. Mesmo sendo físico, tem validade em todo o país. A Anvisa agora discute ter esse formulário em forma digital. Com essa possibilidade de alteração e previsão, quem sabe no futuro próximo seja uma barreira a ser quebrada”, aponta Gustavo Pires, do Conselho Federal de Farmácia.

Redução de custos e foco no cliente

“Somos uma farmácia 100% comum da porta para dentro. A gente opera com estoque próprio, relação com principais indústrias e distribuidoras do país, equipe farmacêutica, assim como uma farmácia convencional. A nossa diferença é como nos relacionamos com o cliente”, explica Tom Bergstein, cofundador da Pill.

Com investimento da Coruja Capital, a empresa tem a expectativa de atingir o faturamento de R$7 milhões em 2022. Para se enquadrar à legislação vigente, a PIll possui uma unidade física, mas seus esforços estão voltados ao e-commerce, através do site, marketplace e canais de atendimento.

É por meio do seu programa de compra recorrente que a empresa se aproxima e cria uma relação mais sólida com a população, o que contribui com a adesão ao tratamento. A equipe de farmacêuticos entra em contato com os clientes para verificar se está tudo certo com a receita, se houve alguma atualização junto ao médico ou se pode tirar alguma dúvida sobre o tratamento. 

Segundo o cofundador, o Net Promoter Score (NPS), métrica que avalia a fidelização de clientes, é de 87 em uma escala que vai até 100. Levantamento feito em 2021 pela SoluCX, empresa especialista em pesquisa de satisfação, com 3.480 pessoas, apontou que o índice médio do setor é de 53,8.

“Um terço da nossa equipe é voltada para operação farmacêutica. São pessoas que estão aptas a fazer dispensação, todo o processo desde o recebimento de mercadoria e atendimento ao cliente”, explica Tom. Atualmente a empresa opera em São Paulo e oferece frete grátis em todas as compras.

Prescrição eletrônica

Inicialmente focada em serviços de prescrição eletrônica, a Mevo Saúde deu um novo passo em abril de 2022 com a criação de sua própria dark pharmacy. Cerca de três meses depois, em julho, recebeu um investimento de 45 milhões de reais para expansão do negócio, apresentado como Mevo Farma. Atualmente a empresa possui mais de 400 unidades hospitalares como clientes.

Agora, cada paciente que recebe uma receita digital da Mevo pode adquirir os medicamentos pela mesma plataforma. Os diferenciais estão na entrega rápida, podendo chegar em apenas 45 minutos de acordo com o frete escolhido, e de ser uma loja voltada apenas para aqueles que receberam uma receita Mevo. Fora o medicamento prescrito pelo profissional de saúde, o cliente consegue comprar somente aqueles que não necessitam de prescrição e itens de higiene e beleza, o que contribui com redução da automedicação.

Além da farmácia própria, a plataforma também atua como um marketplace, onde os clientes podem adquirir os medicamentos em outros concorrentes, sem serem obrigados a comprarem com a dark pharmacy.

Atualmente está disponível na capital paulista e algumas cidades da Grande São Paulo, mas a ideia da empresa é expandir nacionalmente. A ideia central da Mevo Farma é aumentar a adesão do paciente ao tratamento, facilitando a compra e tornando todo o processo mais cômodo.

Marketplace

Os marketplaces são exatamente outro dos pontos em discussão pelo Grupo de Trabalho da Anvisa. Existe uma grande discussão sobre a falta de controle sobre a dispensação de medicamentos por essas ferramentas, que também não possui uma legislação específica.

“Mesmo medicamentos isentos de prescrição não são isentos de riscos e não podem ser tratados como uma mercadoria qualquer. Temos que ter cuidado quando a gente engloba a venda de qualquer tipo de produto misturado com medicamentos. Nesse Grupo de Trabalho discutimos a possibilidade de controle e se é possível regulamentar um marketplace a nível de empresas de saúde”, explica Gustavo Pires, do Conselho Federal de Farmácia.

O papel do farmacêutico envolve a orientação adequada do público sobre eficácia, interação medicamentosa e possíveis efeitos colaterais, e a discussão sobre a venda em plataformas online também passa pelo atendimento remoto dos farmacêuticos. O CFF afirma ter participado das discussões para que o desenvolvimento tecnológico e as oportunidades de negócios caminhem junto com a segurança em saúde, garantindo a atuação do profissional.

Gustavo analisa ainda que nesse período de pandemia a população avançou muito no debate sobre a saúde, já que o tema ganhou os holofotes. Da mesma forma, as agências reguladoras também trabalharam de forma ativa, criando regulamentações e leis muito mais rápido que no passado. O impacto dessas mudanças tem cobrado uma maior atenção e atualização dos profissionais.

“Os farmacêuticos estão mais preparados às novas modalidades e também mais atentos. Uma venda online pode ser facilitada do ponto de vista de acesso, mas também pode ser mais complexa nas falsificações de prescrição. Então, ele precisa estar mais atento a isso”, alerta Gustavo.

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