Currículo de formação em medicina: discussões sobre mudanças esquentam e governo prepara portaria interministerial

Currículo de formação em medicina: discussões sobre mudanças esquentam e governo prepara portaria interministerial

Na última semana, as movimentações políticas indicaram que o novo […]

By Published On: 15/03/2023
Currículo de formação em medicina

Na última semana, as movimentações políticas indicaram que o novo governo está olhando para a formação dos médicos no país. Durante a posse de Arthur Chioro como presidente da Empresa Brasileira de Serviços Hospitalares (Ebserh), instituição que coordena uma rede de 41 hospitais universitários federais, o ministro da Educação, Camilo Santana, afirmou que o governo deve, em breve, anunciar uma portaria interministerial sobre residências médicas e cursos de medicina – que pode trazer mudanças no currículo de formação em medicina.

Ainda não se sabe ao certo o conteúdo da portaria, mas a novidade fez reacender a necessidade de melhorias na área da educação em saúde e, respectivamente, na qualidade da formação de profissionais de saúde – tanto do ponto de vista de assistência quanto de gestão. De acordo com Júlio Braga, coordenador da Comissão de Ensino Médico do Conselho Federal de Medicina (CFM), o órgão tem se reunido constantemente com representantes do governo a fim de tirar do papel mudanças que julgam necessárias:

“Nós procuramos o Ministério da Educação (MEC) e o Ministério da Saúde na semana passada [início de março], justamente para discutir esses tópicos. A primeira grande mudança na qual acreditamos é a implementação de uma avaliação dos estudantes de medicina, para que sejam comprovadas as habilidades para que se tornem médicos e ingressem no sistema de saúde. A segunda tem a ver com a revisão das diretrizes curriculares para os cursos de medicina, um tópico que consideramos urgente”.

As diretrizes curriculares

A versão atual das diretrizes curriculares, que guiam o que deve ser ministrado nos cursos de medicina espalhados pelo Brasil, vai completar dez anos em 2023. Trata-se de uma revisão do documento formulado no ano de 2001 e que, na opinião de especialistas, precisa passar por uma reavaliação.

“As diretrizes contam com objetivos muito genéricos. Não há uma certeza de quais habilidades o estudante precisa ter ao final do curso, por exemplo. É preciso ter mais objetividade em termos de instrumentos, da obrigatoriedade da prática e do treinamento desses egressos. A forma como é feito hoje dificulta a avaliação e abre espaço para a entrada de cursos de baixa qualidade no mercado”, avalia Braga, do CFM. “Nós contestamos as diretrizes desde que foram apresentadas, em 2013, e esperamos que essas solicitações possam ser atendidas em breve”.

Patricia Zen Tempski, livre docente em Educação na Saúde da Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora do Centro de Desenvolvimento de Educação Médica (CEDEM), da Faculdade de Medicina da USP (FMUSP), relata que a universidade também já enviou pedidos de solicitações de mudanças das diretrizes ao Conselho Nacional de Educação (CNE):

“O documento anterior era mais simplificado, contava com cinco páginas apenas, mas era integrado. As atuais 15 páginas quebram uma construção de muitos anos. Nossas diretrizes eram semelhantes a de países como o Canadá, por exemplo, mas agora foi concluída de forma que pouco dialoga com a sociedade, é hermética e coloca as premissas de forma difícil de assimilar. Não são diretrizes ruins, mas que precisam ser revisadas”, diz.

As diretrizes curriculares não falam exatamente como cada passo tem de ser tomado na educação, mas sim onde é preciso chegar com aquela transmissão de conhecimento. Uma das queixas da USP diz respeito à educação interprofissional – modelo que estimula o aprendizado conjunto de dois ou mais profissionais ao mesmo tempo –, que não é descrita de forma clara nas diretrizes, mas que, na visão da instituição, é crucial para formar um bom profissional de medicina, por exemplo.

Ao mesmo tempo, outras diretrizes hoje consideradas cruciais para o ensino na graduação em medicina foram acrescentadas ao documento atual e se mostram certeiras, como conta Eliana Martorano Amaral, coordenadora do Núcleo de Avaliação e Pesquisa em Educação na Saúde (Napes) da Faculdade de Ciências Médicas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp):

“Quando as diretrizes de 2013 saíram e pregaram que o estudante deve ser preparado para trabalhar no sistema de saúde público como um todo, essa premissa causou incômodo, mas hoje se fala isso no mundo inteiro. Outra tendência importante que veio daí foi reconhecer que o médico que acaba de sair da faculdade vai buscar segurança financeira dando plantões em urgência e emergência e, por isso, tem que ter carga horária suficiente para saber lidar com as demandas dos pacientes que chegam a esse atendimento”.

Para ela, “há pontos positivos e negativos. A questão é que são muitos os pontos que precisam ser considerados ao montar um currículo de medicina, porque a responsabilidade é muito grande”.

Futuro da Saúde procurou o MEC e o CNE, mas até o momento da publicação da reportagem não teve retorno.

O futuro do currículo de formação em medicina

Pedro Herbert Casimiro Onofre, coordenador do curso de medicina da Afya, grupo educacional que conta com 32 instituições de ensino, acredita que os avanços nos currículos dos cursos de medicina, sejam eles alterados oficialmente nas diretrizes do MEC ou implantados de forma independente pelas universidades país afora, dizem respeito, principalmente, à tecnologia:

“A utilização da tecnologia facilita e otimiza o aprendizado. Permite que o aluno desenvolva as habilidades necessárias para cuidar dos pacientes por meio de simulações que proporcionam acesso infinito às repetições. Hoje, existem bonecos de alta resolução, tecnologias que guiam o treinamento e diversas plataformas que proporcionam a aprendizagem de qualquer lugar”.

Outra tendência, na visão de Onofre, em uma eventual revisão das diretrizes curriculares, é o reconhecimento de atividades remotas como carga horária curricular e, paradoxalmente, o desenvolvimento de um atendimento mais humano, proporcionado pelo avanço das tecnologias. “A IA chega para fazer o papel repetitivo e burocrático, mas as soft skills são essenciais para o médico que vai atuar no futuro. É isso que vejo como tendência”.

Eliana Amaral, da Unicamp, entende também que as transformações da sociedade terão impacto nessa formação: “A mudança do perfil da população e dos perfis das doenças moldam a formação do profissional de saúde. Agora, as pessoas fazem mais exercícios, por isso há mais lesões ortopédicas. A mesma coisa acontece com o aumento de ingestão de suplementos, que também traz problemas que não existiam antes. Na obstetrícia, há menos partos e mulheres que engravidam com mais idade, então é preciso aprender a lidar com os riscos desse fenômeno. E assim por diante”.

Essas mudanças podem guiar os estudantes de medicina para especialidades que fogem do óbvio ou para diferentes focos dentro de cada especialidade. Mas outro destaque se dá pela preocupação dos egressos com sua qualidade de vida, moldando um perfil de profissional de medicina bastante diferente do conhecido (ou idealizado) até agora.

“A imagem do médico como ser dedicado ao trabalho não cabe mais na sociedade como é hoje. Os estudantes querem um futuro com vida saudável, sem sobrecarga de demandas e sem passar do ponto de pressão que acaba gerando distúrbios na saúde física e mental. Os valores mudaram e precisamos levar tudo isso em consideração ao pensar que são essas as pessoas que estamos formando, nessa realidade. Precisamos entregar a elas uma formação condizente com o que acreditam, mas que também atenda às necessidades do paciente e do sistema como um todo. É um desafio de todos que fazem parte da educação em saúde”, conclui Eliana.

Os desafios das mudanças curriculares

O currículo do curso de medicina da Unicamp, que tem 60 anos de existência, passa, neste exato momento, por uma reforma – um processo complexo que começou a ser discutido antes da pandemia. “Uma mudança curricular precisa ser baseada em indicadores consistentes. Um deles é o desalinhamento entre o currículo e as demandas do futuro da medicina. O currículo precisa garantir que um profissional médico se mantenha atuando por mais tempo, deve pensar no futuro o máximo possível”, revela Eliana Martorano Amaral.

O foco da mudança é baseado na entrada da era digital, levando em conta processos de aprendizagem, as tecnologias empregadas no dia a dia da medicina e o acesso cada vez mais ilimitado a todo tipo de informação:

“A formação digital é uma grande necessidade, porque, no futuro, teremos uma inteligência artificial (IA) que poderá fazer muitos dos diagnósticos hoje feitos pelos médicos. Mas também precisamos focar em uma formação baseada em evidências. Preciso formar um aluno que tenha capacidade de ler e absorver o avanço do conhecimento de forma crítica, que saiba selecionar a fonte da informação e que tenha um espírito científico. Essa base está nas diretrizes, mas não se tinha ideia do desenvolvimento tão rápido do mundo digital”.

A digitalização a que Eliana se refere diz também às mudanças de processos de aprendizagem e dos docentes, que já estão em curso. “Hoje, não faz mais sentido criar um currículo todo baseado em aulas magistrais. O aluno de agora não quer e não aceita esse tipo de oferta. O excesso de conteúdo também não cabe mais. E essas mudanças incluem o desenvolvimento e o aperfeiçoamento dos docentes, que precisam se adaptar às mudanças, de forma natural”.

O currículo é um organismo vivo

Patricia Zen Tempski, da USP, define o currículo como sendo um documento ideológico, social e de intenções que define o quê e como o estudante viverá o processo educacional. “Me mostre o seu currículo e te direi quem és. Essa é a nossa máxima. O currículo é a base de tudo na formação”.

Os passos para a construção de um bom currículo, segundo ela, são olhar para as necessidades de saúde da população, desenhando o curso para que seja verdadeiramente útil. “Não adianta ensinar um rodapé de livro que o aluno nunca vai usar. E essa é uma questão importante de se pensar: não dá tempo de ensinar tudo a todos. Então, o que vamos escolher ensinar e por quais motivos vamos por esse caminho?”.

A cultura institucional, os recursos disponíveis e o envolvimento de professores e alunos no processo também são fundamentais. “Não basta ser um documento. As pessoas têm que se apropriar dele para que funcione. O currículo precisa atender o sistema e ter a cara da instituição”, aponta.

Patricia reforça que uma mudança completa de currículo é demorada, leva em torno de seis anos para se concretizar. E, por isso, não é uma prática corriqueira. Mas todo currículo precisa ser um organismo vivo e mudar conforme as necessidades da sociedade e da saúde: “A cada ano surgem coisas novas e temos que analisar se a novidade cabe dentro do nosso currículo. É preciso estar atento a tudo e, consequentemente, fazer pequenas mudanças o tempo inteiro”.

Implementação de novos currículos

Contar com currículos já bastante consolidados e renomados requer um cuidado extra na hora de optar por reformulações. O alívio dessa pressão, para Alexandre Holthausen, diretor acadêmico de ensino do Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa Albert Einstein, foi a grande vantagem de começar um currículo do zero.

O curso de medicina do Einstein foi lançado em 2016, mas começou a ser discutido em 2013 por um grupo de voluntários que começou com cinco e terminou com 16 profissionais, distribuídos entre especialistas em medicina, docência e educação e que contou com a flexibilidade das diretrizes curriculares para chegar em um resultado diferente do convencional.

“Chegamos a um currículo de três anos e meio de ensino básico, clínico e teórico e dois anos e meio de internato. Também levamos a prática para o momento mais precoce possível, reduzimos o número de disciplinas e integramos aquelas que faziam sentido. Os cinco semestres de estágio devem ser feitos em lugares diferentes, com experiências diversas. Nosso internato entrega um médico formado e completo, com total condição de atuar na área genérica, que é o que o sistema precisa”, diz Holthausen.

“Já temos três turmas formadas e fomos chamados pelo CFM para mostrar como o nosso currículo foi formulado, porque deu certo. Outra vantagem no nosso currículo é que ele se adapta mais facilmente. Dessa forma, o que quer que aconteça, quaisquer mudanças que sejam demandadas daqui para frente, conseguiremos acompanhar”.

Ana Carolina Pereira

Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ao longo de sua carreira, passou por veículos como TV Globo, Editora Globo, Exame, Veja, Veja Saúde e Superinteressante. Email: ana@futurodasaude.com.br.

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2 Comments

  1. Roberta Maria Cagliari 16/03/2023 at 10:10 - Reply

    ótimo

  2. José Edilberto Ramalho Leite 16/03/2023 at 13:34 - Reply

    Concordo com a tentativas e a implantação do que já está se mostrando certo.
    Claro que o aproveitamento da tecnologia nova partindo da reciclagem do corpo docente no uso e visão da nova T I é imperativa. Os alunos, pelo uso já de cedo, tem uma adaptação fácil o que não acontece com os professores com mais de 60 anos; mas a experiência destes é fundamental.
    Um outro ponto para as áreas da saúde é a parte tutorial do ensino. O tempo gasto com as aulas magistrais devem reverter para o ensino do “modo de fazer” reforçando o ensinado no virtual. O ensino da semiologia tutelada , propedêutica de qualquer ensino no campo da saúde é essencial. Está parte do ensino é diferente das áreas não assistenciais. Sempre fui contra a demonstração expositivas e puramente teórica pois já estavam nos livros e agora na mídia.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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