Brasileira Cristiane Bergerot é eleita líder global em cuidados paliativos da ASCO

Brasileira Cristiane Bergerot é eleita líder global em cuidados paliativos da ASCO

Em entrevista exclusiva para o Futuro da Saúde, Cristiane Bergerot explora o tema de cuidados paliativos e revela seus objetivos como nova líder global

By Published On: 18/09/2023

É muito frequente a visão pelos pacientes de que iniciar cuidados paliativos significa que não há mais nenhum tratamento que pode ajudá-los e que o médico, por sua vez, estaria “desistindo” da possibilidade de novas terapias. Contudo, a área vai além e tem o objetivo de trazer conforto e melhorar o processo de vida não apenas no fim, mas ao longo da jornada. A Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) tem feito esforços em diversas frentes nesse sentido e terá uma brasileira como nova líder global de cuidados paliativos: trata-se da psicóloga Cristiane Bergerot, do Grupo Oncoclínicas, que foi eleita para exercer a função entre 2023 e 2024.

Bergerot atua na área há quase duas décadas e ganhou destaque há alguns anos após receber o Global Oncology Young Investigator Awards, uma das mais importantes premiações na oncologia mundial para pesquisadores em início de carreira, que é oferecido pela Conquer Cancer Foundation e foi entregue justamente no congresso da ASCO daquele ano. O reconhecimento foi feito em função de estudos na análise do atendimento multidisciplinar por telemedicina para pacientes oncológicos com idade igual ou superior a 65 anos.

Em entrevista exclusiva ao Futuro da Saúde, Bergerot revela seus objetivos na nova função, que incluem a melhoria e disseminação das diretrizes já existentes – que, segundo ela, precisam ser mais bem aplicadas principalmente em países em desenvolvimento -, promover treinamento e capacitação, estimular o advocacy sobre a área e fortalecer pesquisas e estudos. Inclui ainda esforços para ressignificar os cuidados paliativos, que ainda sofrem muito estigma.

Confira os principais trechos a seguir:

Para começar, quais são seus objetivos nessa posição de líder global de cuidados paliativos da ASCO?  

Cristiane Bergorot – Um dos meus primeiros objetivos será tentar promover algumas iniciativas que melhorem a qualidade de vida e assistência dos pacientes com câncer em todo mundo, focado em cuidados paliativos. Nesse sentido, desenvolver ou promover o uso de guidelines que já existem. Eu observo a necessidade de nós traduzirmos a viabilidade de muitas diretrizes para o contexto dos países em desenvolvimento, especialmente. Um segundo foco também será tentar facilitar alguns programas de educação e treinamento, com o intuito de ajudar os profissionais, não só nacionalmente, mas também globalmente. O advocacy também é um ponto fundamental, ou seja, o Brasil ter participação mais ativa nessa integração dos cuidados paliativos no sistema de saúde internacional. Além disso, a questão de promoção em pesquisas de inovações em cuidados paliativos é muito relevante para que possamos identificar melhores estratégias de atendimento e diagnóstico. Dessa forma, é possível aplicar o conhecimento que já existe em diferentes contextos e tentar estabelecer colaborações globais. E, por último, defender os direitos dos pacientes, fazer com que suas vozes sejam ouvidas. E com base nisso, ressignificar o conceito dos cuidados paliativos como um serviço que tem, sim, essa busca por melhorar o processo de final de vida, mas principalmente de trazer mais conforto e bem-estar ao paciente.

Como a Sociedade Americana de Oncologia Clínica (ASCO) tem atuado para fomentar o tema de cuidados paliativos? 

Cristiane Bergerot – A ASCO promove pesquisas e estudos que melhoram a qualidade de vida do paciente. E nesse sentido, viabiliza tanto o acesso à informação e a sua divulgação, quanto o contato com uma rede de apoio de experts, a qual facilita a tradução dessas evidências aplicáveis à países desenvolvidos, mas que também podem ser adaptadas para países em desenvolvimento.

Atualmente, como está o cenário dos cuidados paliativos no Brasil? 

Cristiane Bergerot – O Brasil teve um avanço considerável no reconhecimento da importância dos cuidados paliativos. Hoje temos um maior interesse dos profissionais da saúde no tema, com opções de diversos cursos não só de pós-graduação, mas também de residência médica. Temos também avanços nas legislações brasileiras que reconhecem o direito do paciente aos cuidados paliativos, o que facilita ao viabilizar a oferta desse serviço. Mas ainda existem algumas dificuldades. Temos inúmeras disparidades regionais que precisam ser compreendidas para que possamos aprimorar os serviços disponíveis. Além disso, há os problemas da falta de integração e escassez de recursos, tanto em termos de equipe, quanto no treinamento. 

Pensando nessas melhorias, como você pretende trabalhar com a ASCO para avançar o tema de cuidados paliativos, principalmente no Brasil, mas também no mundo?

Cristiane Bergerot – É necessário que haja uma conscientização pública, para que possamos melhorar essa assistência, quebrar mitos e estigmas relacionados aos cuidados paliativos. Pensando na minha atuação na ASCO, existem vários cenários que já estão bem descritos dos quais precisamos buscar uma equidade assistencial. Isso é muito importante para que possamos de alguma maneira minimizar essas barreiras que encontramos hoje. 

Para você, qual é a importância da multidisciplinaridade nos cuidados paliativos?

Cristiane Bergerot – O processo de adoecimento não é simples. Por isso, ter profissionais que vão trazer a harmonia e equilíbrio de volta ao paciente é fundamental. Cada um contribuindo com o olhar da sua própria especialização. Então, por exemplo, o nutricionista pode ajudar o paciente que está com dificuldade na alimentação; o educador físico pode ajudar no resgate da funcionalidade do paciente e o estomatologista pode ajudar na cicatrização da mucosa bucal. Assim, esses diferentes profissionais conseguem contribuir, com racionalidade, na qualidade de vida do paciente. Por isso é muito difícil de se pensar, hoje em dia, naquele modelo antigo de medicina baseado no médico que assistia tudo. Apesar de a praticidade desse método, atualmente, com a atuação de diferentes profissionais especializados, nós aceleramos o processo de reabilitação e até mesmo minimizamos os efeitos colaterais com os cuidados paliativos. 

Para finalizar, existe uma fórmula única para se realizar os cuidados paliativos que deveria ser exemplo no Brasil?

Cristiane Bergerot – Os cuidados paliativos têm um objetivo integrativo de tentar somar os diferentes conhecimentos para que possamos de fato assistir o paciente, como um todo, levando em conta o que é importante para ele. Então, não existe uma receita única, os cuidados paliativos têm que respeitar as crenças do paciente em relação à morte e ao adoecimento. Por isso, o princípio básico é o conforto e a qualidade de vida, independentemente da questão cultural de cada país.

Ligia Moraes

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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    Equipe de jornalistas da redação do Futuro da Saúde.

  • Fernando Maluf

    Diretor Associado do Centro Oncológico da Beneficência Portuguesa de São Paulo, membro do Comitê Gestor do Centro de Oncologia do Hospital Israelita Albert Einstein e fundador do Instituto Vencer o Câncer. É formado em Medicina pela Faculdade de Ciências Médicas da Santa Casa de São Paulo, onde hoje é Livre Docente. Possui Doutorado em Ciências pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e especialização no Programa de Treinamento da Medical Oncology/Memorial Sloan-Kettering Cancer Center, em New York.

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