Crianças foram mais expostas a telas durante a pandemia, aponta levantamento brasileiro

O fortalecimento deste hábito em uma idade precoce preocupa os especialistas, pois a primeira infância é um período onde a vivência e demais interações com o ambiente influenciam diretamente o desenvolvimento infantil

               
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Um novo levantamento, da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal realizado em parceria com a Kantar Ibope Media em março de 2021, indica que o isolamento social causado pela pandemia influenciou em um aumento de 15% para 59% do uso de smartphones e tablets por parte de crianças de 0 a 3 anos. Os números encontrados indicam ainda que as crianças da classe D são as que mais passam tempo assistindo TV, com uma porcentagem de 25% que destoa dos 15 a 19% de frequência visto nas outras classes sociais.

Uma das possíveis razões para o fenômeno seria a sobrecarga de tarefas dos adultos durante a pandemia. Dessa forma, os smartphones, tablets e notebooks acabam ganhando espaço em detrimento de outras atividades, como leituras e brincadeiras.

Para chegar a essa conclusão, 1036 pessoas participaram da pesquisa. O estudo contou com famílias das classes sociais A, B, C e D, que são responsáveis ou convivem com crianças de até três anos de idade. Os indivíduos foram entrevistados em um questionário online, com exceção da classe D, que foi abordada presencialmente para evitar a possibilidade de exclusão desse grupo da população, por se tratar de uma parcela social que possui menos acesso à Internet ou eletrônicos.

O fortalecimento deste hábito em uma idade precoce preocupa os especialistas, pois a primeira infância é um período onde a vivência e demais interações com o ambiente moldam a mente das crianças. Assim, o comprometimento desses estímulos poderia prejudicar o desenvolvimento social dos jovens, com aspectos negativos de manifestações mais expressas durante a vida adulta.

“Isso é um ponto de atenção. As telas representam uma distração passiva, que, em excesso, pode ser prejudicial para o desenvolvimento da criança. Pensando nisso, é fundamental considerar a idade, o tempo de exposição e ter sempre um adulto acompanhando para não haver prejuízo nessa fase” avaliou Paula Perim, diretora de Comunicação da Fundação Maria Cecilia Souto Vidigal.

Segundo a Sociedade Brasileira de Pediatria (SBP), o ideal é que a exposição a telas seja evitada quando a criança tiver menos de dois anos de idade. O tempo de tela limite recomendado é de 1 hora por dia para crianças de 2 a 5 anos.

A pesquisa da fundação foi um desdobramento de outro estudo da instituição: Primeiríssima Infância – Interações na Pandemia: Comportamentos de pais e cuidadores de crianças de 0 a 3 anos em tempos de Covid-19, realizada de março a dezembro de 2020.

Outros estudos sobre o uso de telas na infância

Um estudo do National Institute of Health (NIH), nos Estados Unidos, publicado na JAMA Pediatrics indica que o uso de telas começa cedo e tende a aumentar com o passar dos anos. A pesquisa mostrou que os filhos primogênitos ou criados em casa – sem ter ido para creches – são mais suscetíveis a passar longos períodos na frente de telas quando atingem os 8 anos de idade. O tempo de uso também aumenta de 53 para 150 minutos diários, quando analisado o avanço da idade, de 12 meses para 3 anos de vida.

Para obter estes resultados, foram analisados dados do Upstate KIDS Study – e também de outras pesquisas –, que apesar de ter como objetivo acompanhar o desenvolvimento de crianças nascidas devido a tratamentos de infertilidade, serviu para responder perguntas sobre o tempo de tela. Mães de cerca de 4 mil crianças responderam perguntas sobre os hábitos diários de seus filhos quando tinham meses de vida e aos 7 e 8 anos de idade.

Há uma preocupação por parte das famílias e dos cientistas se essa exposição prolongada a telas faria bem para a saúde, em especial das crianças, porque a infância é o período da vida onde o cérebro mais se desenvolve. O que acontece nessa fase pode influenciar a qualidade de vida e o tipo de adulto que a criança um dia se tornará.

O impacto no cérebro

Em 2018 o NIH também começou um estudo em que 11 mil crianças serão acompanhadas ao longo de uma década. O intuito é descobrir se a estrutura cerebral será alterada devido ao tempo de uso de smartphones, computadores e outros similares. Resultados preliminares, obtidos através de ressonâncias magnéticas, indicam que há algumas diferenças no cérebro de crianças que passavam mais de sete horas por dia utilizando eletrônicos de tela. O córtex cerebral demonstrou ter afinado precocemente, o que pode afetar o desempenho de suas funções, pois a recepção de informações sensoriais é menor. O pensamento, raciocínio, memória, consciência e outros são atividades exercidas por esta região do cérebro e que podem ser afetadas.

Há ainda a questão das redes sociais, que pode levar os jovens a serem dependentes desse estímulo. Uma das equipes do estudo quer entender o impacto do Instagram no cérebro dos adolescentes. Os resultados iniciais levam os cientistas a acreditar que isso esteja causando a liberação da dopamina, neurotransmissor responsável pelo humor e pelo prazer, mas que pode acarretar em vícios e compulsões. Além disso, também acreditam que as redes possam estar relacionadas com o aumento da automutilação em garotas.

Em outro estudo, sobre saúde mental, a San Diego State University observou que os nascidos depois de 1995, demonstraram estar mais solitários e deprimidos no período da adolescência, quando comparados com dados coletados a partir da década de 1960. Apesar de outros elementos poderem influenciar, os pesquisadores acreditam que o uso diário de celulares ainda é o causador principal desse aumento.

O que dizem as sociedades médicas

A Sociedade Brasileira de Pediatria não recomenda que crianças acima de 6 anos passem mais de duas horas por dia utilizando smartphones, computadores e afins. A justificativa é que os pediatras observam dificuldades com alimentação, sono, ansiedade e comportamento agressivo, quando usam tecnologia em excesso.

A Academia Americana de Pediatria também defende limitações no uso. Para crianças de 2 a 5 anos, apenas uma hora por dia de tela, e com conteúdo de alta qualidade. Para os bebês de até 17 meses, somente conversas em vídeo. De 18 a 24 meses de vida, o mais importante é que o conteúdo assistido seja de boa qualidade e acompanhado de um responsável.

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