Crianças e celular: uma combinação inevitável na pandemia?

Muitas vezes o celular é praticamente a única atividade que importa para a criança ou adolescente. É a razão para acordar mais cedo ou fingir que dormiu, para sair correndo da refeição, deixar de assistir filmes com a família ou de conversar com os avós. Essa não é uma relação saudável.

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Um dos resultados que mais chamam a atenção no estudo Jovens na Pandemia relaciona-se ao uso de eletrônicos: 85% dos participantes dizem que o tempo em que seus filhos permanecem online, assistem séries ou jogam eletrônicos aumentou. O levantamento, que está monitorando a saúde mental de crianças e adolescentes de todo o país desde junho, já conta com mais de 8500 participantes. A média do número de horas diárias usando eletrônicos, de acordo com as análises preliminares, é de cerca de 9 horas, excluindo o tempo gasto para aulas online. Ou seja, um grande número de crianças, quando não está em aulas online, passa todo o seu dia na frente de uma tela. Nesse contexto, os pais perguntam:

Posso deixar meu filho usar eletrônicos à vontade nesse momento de pandemia? Existem alternativas a isso?

Vamos aos fatos científicos. Inúmeros estudos investigaram a associação entre número de horas de uso de eletrônicos e problemas emocionais e comportamentais em crianças e adolescentes. Os resultados em crianças nos primeiros anos de vida apontam principalmente para prejuízos no desenvolvimento da linguagem (1). Em crianças na idade escolar e adolescentes, os resultados são divergentes. Um estudo que incluiu três bancos de dados que avaliaram mais de 300.000 jovens mostrou que o uso de tecnologias digitais apresenta um efeito negativo sobre o seu bem-estar, mas pequeno, clinicamente insignificante (2).

Isso significa que você pode deixar de se preocupar com o uso de eletrônicos de seu filho? A resposta é não. Este estudo tem uma série de limitações metodológicas e não afasta completamente um potencial efeito negativo. Lembre-se que o número de horas é apenas uma das questões envolvidas com o uso dos eletrônicos, mas há muitas outras. A idade do seu filho, o conteúdo consumido, o número de horas e portanto o quanto o eletrônico ocupa de espaço na vida dele são importantes fatores a serem considerados. Também é importante considerar a relação que ele estabeleceu com o eletrônico e como isso se insere na sua vida familiar.

Muitas vezes o celular ou o jogo é praticamente a única atividade que importa para a criança ou adolescente, é a razão para acordar mais cedo ou fingir que dormiu para que seus pais não o atrapalhem, para sair correndo da refeição, deixar de assistir filmes com a família ou de conversar com os avós. Essa não é uma relação saudável.

Em relação à idade, as recomendações são claras. Crianças menores de 18 meses não devem usar eletrônicos exceto para conversar com familiares à distância. Quanto menor a criança, maior a necessidade de que o uso seja compartilhado com os pais (3). Em crianças menores de 5 anos, o uso deve ser pontual, com objetivos específicos.

Cuidado com sites e aplicativos que se dizem educativos, a grande maioria não é amparada por nenhum estudo sério.

Não deixe de ler para o seu filho, de criar o hábito de sentarem juntos para realizar as refeições e nesse momento, de conversarem sem nenhum eletrônico.

A ideia de usar os eletrônicos para manejar crises de birra, dificuldade de espera, ou agitação é difundida, mas não é recomendada. O problema não estará sendo resolvido, mas irá aumentar e, muito provavelmente, não só a criança mas também a família ficará dependente de um dispositivo. Crianças na idade escolar podem ter alguma independência com o uso de eletrônicos, mas sempre monitorado e com limites de tempo e conteúdo claros. A obesidade e alterações de sono associadas aos eletrônicos está se tornando assustadoramente frequente, já nessa fase da vida. Pré-adolescentes e adolescentes usarão os eletrônicos para a maior parte das suas atividades e de fato será um desafio monitorar o tempo e o conteúdo acessado. Por isso, a educação sobre a relação com os dispositivos eletrônicos e para uso da internet deve começar muito cedo.

O conteúdo consumido é uma importante variável a ser considerada na hora de avaliar a relação da criança com a internet. Imagine duas crianças da mesma idade: a primeira usa o celular ou tablet para assistir vídeos de curiosidades, navegar por algumas redes sociais e falar com amigos e familiares, tirar fotos e ouvir música. A segunda criança usa o mesmo número de horas de eletrônicos para assistir vídeos de comédia onde a graça está em assistir pessoas se machucando ou sendo “troladas” e vídeos de pessoas jogando o jogo que os interessa. Essa criança também envolve-se em jogos online com conteúdo de violência e nesses momentos em que joga, fica irritado, briga com amigos e eventualmente quebra objetos em casa. Para a primeira criança, os eletrônicos são uma forma de aprendizado e comunicação. Para a segunda, enfatiza a violência e a intolerância.

Mas o que faz com que uma criança consuma um ou outro conteúdo? Possivelmente as suas características emocionais e sociais prévias. Por exemplo, estudos mostram que crianças com Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade têm maiores chances de fazer uso abusivo de eletrônicos do que crianças sem o transtorno. Porque isso ocorre? Provavelmente porque os jogos e outras atividades online são atividades altamente prazerosas: emitem gratificações variadas, rápidas, não envolvem grande espera, as frustrações são imediatamente revertidas. Essas atividades são o sonho de alguém que tem dificuldade para sustentar a atenção em atividades que exigem esforço cognitivo continuado, que tolera pouco a espera e que facilmente sente-se frustrada.

Redes sociais são acessadas por todos, com maior ou menor interesse, e estão repletas de pessoas que vendem suas imagens, produtos e a ideia de uma vida perfeita. Uma armadilha para adolescentes que com facilidade passam a desvalorizar o seu corpo, buscam incessantemente os produtos apresentados e sentem que suas vidas não têm sentido. Sem falar em canais e vídeos com conteúdo impróprio.

Atualmente, não é incomum que crianças pequenas descubram o que é sexo através de vídeos de pornografia e que adolescentes construam a ideia de uma vida sexual adulta através desse conteúdo.

Vídeos que incitam a violência, comportamentos alimentares inadequados, auto-lesão e até suicídio também se propagam cada vez mais e uma hora ou outra seu filho irá se deparar com um deles.

Nesse sentido, o investimento de tempo e energia que os pais fazem para acompanhar o uso de eletrônico dos filhos é fundamental. Esse é um assunto que deve ser o foco de conversas frequentes, não discursos sem diálogo ou motivo de brigas, mas uma construção conjunta de um jeito de lidar com uma realidade que afeta a todos.

Saber o que seu filho adolescente assiste e eventualmente assistir juntos é importante. Também é importante que seu filho tenha espaço para contar que se deparou com um vídeo com conteúdo inadequado ou um adulto estranho o abordou em uma rede social. Se há mudança de comportamento, se seu filho passou a não deixar que você chegue perto do aparelho, é bom investigar. Essa situação é delicada e passa pela questão da privacidade do adolescente. Em algumas famílias, gera conflitos intensos, fazendo com que os pais se perguntem: “Vale à pena todo esse desgaste?”. Muitas vezes, os pais se seduzem pelo desejo de que seus filhos sejam responsáveis, consigam controlar o próprio comportamento, sigam os combinados e saibam identificar conteúdos e pessoas potencialmente nocivas e acreditam nisso, sem checar. A questão é que crianças e adolescentes estão desenvolvendo essas habilidades, e para isso precisam ser acompanhadas.

Há algo mais, de grande importância, a ser considerado: o uso que os próprios pais fazem de eletrônicos.

O tempo de uso de eletrônicos dos pais é um preditor do tempo de uso dos filhos. Frequentemente, a cultura da família é de cada um no seu espaço, com seu dispositivo envolvido em atividades individuais, fazendo refeições em horários diferentes, com pouca convivência. Nessas situações, os filhos estarão muito suscetíveis a qualquer conteúdo que assistirem e não há como argumentar com eles que devem deixar de usar eletrônicos.

Não deixe que os eletrônicos tomem o espaço dos seus hobbies e interesses pessoais e sirva de modelo para o seu filho de como deve ser feito o uso de eletrônicos: use-os com um propósito, não o tempo todo, à mesa ou no banheiro, em cada momento de espera ou intervalo mínimo de tempo. Não use vários eletrônicos ao mesmo tempo: nossa atenção não pode abarcar mais de uma atividade concomitante, o que ocorre é que mantemos parcialmente a atenção em uma ou em outra atividade de forma frágil. Não use eletrônicos enquanto dirija: o risco de acidentes aumenta e aproveite o tempo para conversar com seu filho. Não fique à mercê das mensagens que entram a todo tempo no celular, deixando o seu filho esperar porque você está trabalhando. Tenha um tempo para estar, brincar, conversar, ouvir seu filho e esteja lá, de corpo e alma.

Existem teorias e estudos que sugerem que os eletrônicos beneficiam aqueles que são mais saudáveis, em famílias bem estruturadas, trazendo conhecimento, relacionamento, novas habilidades cognitivas. Aqueles que já possuem problemas prévios, ou que estão em famílias disfuncionais, o uso de eletrônicos pode trazer mais prejuízos, eventualmente intensificando o isolamento, relacionamentos nocivos, cyberbullyng, sentimentos de frustração, tornando-os menos aptos e propensos a envolverem-se em atividades que envolvam espera, atenção continuada e gratificações a médio-longo prazo, como leitura.

E a pandemia? Realmente é um momento em que muitas atividades não estão disponíveis, então o tempo dedicado àquelas que estão disponíveis deve aumentar. Portanto, não só o tempo nos eletrônicos, mas em outras atividades possíveis nesse momento. O aumento de tempo frente à tela para aqueles que já tem uma boa relação com os eletrônicos não deve ter maiores prejuízos, mas de fato há conteúdos como jogos que tem uma força para atrair mais e mais a atenção das crianças e adolescentes. Portanto, quanto mais tempo usarem, mais terão vontade de fazê-lo. Assim, os pais devem limitar o tempo dedicado à cada atividade na internet.

Se seu filho não aceitar os limites de tempo e os conflitos aumentarem, não tenha receio de limitar fortemente o tempo de uso.

Não se deixe convencer por argumentos como “não tenho mais nada para fazer além de jogar/assistir vídeos”, “tudo é um tédio”, “só eu tenho limite de tempo”, “meus amigos jogam durante a madrugada”. Você pode envolver seu filho em tarefas de casa, pode envolvê-lo em atividades do seu próprio trabalho, ou vocês podem realizar atividades juntos. Mas lembre-se: você não precisa se tornar um recreador para o seu filho, preocupando-se em criar a todo tempo novas atividades. Seu filho pode e deve lidar com períodos de tempo em que não há nada definido para fazer, quando não pode usar eletrônicos. Esse é um tempo precioso, casa vez mais raro, em que ele terá de criar algo, uma brincadeira, um projeto, desenhos, diário, enfim, o que ele desejar. Tudo isso irá gerar conflitos, exigirá muita paciência, investimento do seu tempo e energia, em um momento em que talvez você não esteja na melhor forma. Se não for possível neste momento, deixe para quando for possível e assim que você tiver a energia necessária, dedique-se a isso. Estamos falando do que você acredita que é melhor para o seu filho.

Referências

1. Madigan S, McArthur BA, Anhorn C, Eirich R, Christakis DA. Associations between Screen Use and Child Language Skills: A Systematic Review and Meta-analysis. JAMA Pediatr. 2020;174(7):665–75.

2. Orben A, Przybylski AK. The association between adolescent well-being and digital technology use. Nat Hum Behav [Internet]. 2019;3(2):173–82. Available from: http://dx.doi.org/10.1038/s41562-018-0506-1

3. Anderson DR, Subrahmanyam K. Digital screen media and cognitive development. Pediatrics. 2017;140(November 2017):S57–61.

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