Covid-19: o que podemos aprender com Austrália, Portugal, Nova Zelândia e Ruanda

Países como Austrália, Portugal, Nova Zelândia e Ruanda foram os melhores ao lidar com a crise sanitária. Medidas como testagem em massa e lockdown foram realizadas, mas alguns pontos diferenciam suas trajetórias e levantam novos pontos para reflexão.

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Diferentes estratégias foram adotadas no mundo para conter o impacto da crise sanitária causada pelo SARS-CoV-2. Países que já tiveram experiências anteriores com epidemias, em geral, aderiram melhor às recomendações dos especialistas. Por outro lado, os inexperientes apresentaram certa resistência. Para saber se um país teve sucesso ao conter a pandemia, verifica-se o número de casos e o número de mortes, método de análise epidemiológico chamado de “achatar a curva”.

Algumas vantagens geográficas e demográficas podem favorecer o controle de uma pandemia do novo coronavírus. Contudo, são práticas como a realização massiva de testes diagnósticos da doença, isolamento dos infectados, rastreamento dos contágios, medidas de higiene e distanciamento social, que realmente permitem que a situação se mantenha segura e estável. Preparar-se antes do vírus se espalhar também ajuda.

Países como a Austrália, Nova Zelândia e Islândia são os mais comentados quando o assunto é bom exemplo, mas estes não são os únicos. Com o atual colapso do sistema de saúde brasileiro, espelhar-se em bons exemplos poderia nos guiar para uma situação menos caótica. Apesar de Portugal possuir uma população menor do que a brasileira, depois de passar por períodos intensos na pandemia, o país agora emerge também como uma referência próxima para nos inspirarmos.

Portugal

Portugal é um dos países que apresenta bons resultados ao conter a pandemia, mesmo sem a vantagem geográfica de isolamento, como os países da Oceania. Entretanto, a população portuguesa possui números melhores do que os países vizinhos no continente europeu. Observar o colapso da Itália e da Espanha incentivou uma boa gestão no início da pandemia.

Em um misto de cansaço e pouco medo, a população portuguesa acabou relaxando nos cuidados. O cenário mudou de vez depois das festas de Natal e Ano Novo, o que levou o país à segunda onda, cuja intensidade os fez beirar ao colapso do sistema de saúde e necessitar de reforços de fora, como da Alemanha.

A gravidade da situação foi anunciada em janeiro de 2021 e desde então aderiram ao lockdown. Dois meses depois vivendo apenas com o estritamente essencial, os portugueses começaram as campanhas de vacinação e tentam gradualmente retomar à uma vida menos restrita, mas não totalmente sem cuidados até que todos estejam protegidos.

O primeiro-ministro António Costa não demonstrava ser favorável a retomada dessa medida, mas com a intensidade da crise acabou convencendo o presidente Marcelo Rebelo de Sousa.

Austrália

A Austrália retomou a vida ao zerar os casos de Covid-19 em janeiro deste ano – inclusive, o show da banda “Midnight Oil” realizado neste mês chamou a atenção por ter 13 mil pessoas presentes, destoando de países como o Brasil onde até uma aglomeração de 30 pessoas é totalmente contraindicada.

Desde o início os australianos já lidavam com poucos casos. Assim que algum surgia, as fronteiras eram fechadas e as demais medidas eram adotadas: testes, rastreamento, isolamento e distanciamento. A Austrália foi um dos primeiros países a adotar clínicas de testes de Covid-19 em drive-thru. No lockdown, somente serviços essenciais foram permitidos, como consultas médicas e a saída para trabalhos indispensáveis. Quem violasse as restrições estava sujeito à multas de altos valores.

Com tudo sob controle, acabaram relaxando mais do que o ideal e o país passou a ver um crescimento significativo nos casos. Ao longo de 2020, foram 29.220 infectados e 909 mortos. Contudo, aprendendo rapidamente com os erros, a alta dos casos logo levou o país de volta às medidas rígidas de contenção.

Agora vivem praticamente como se não houvesse pandemia. Na badalada cidade de Sydney, muitos já abandonaram o uso de máscaras. Com a chegada das vacinas, a tendência é que o país todo retome a normalidade total em breve.

A memória da adoção dessas medidas em 1919, quando o país tentava conter o avanço da gripe espanhola, pode ter facilitado os cuidados em 2020. Além disso, a baixa densidade demográfica – isto é, o número de habitantes por quilômetros quadrados – facilita no distanciamento social. Outro fator positivo é que as fronteiras entre os países da Oceania são marítimas, permitindo um melhor controle na entrada e saída de pessoas nos países.

Nova Zelândia

Enquanto isso, a Nova Zelândia foi ainda mais rigorosa: a primeira-ministra Jacinda Ardern desde o início fechou totalmente regiões com casos de Covid-19 e 92% da população apoiou a medida. O isolamento durou mais de um mês e o resultado foi que o país registrou apenas 2.315 casos e 26 mortes.

Outro ponto de destaque foi a comunicação da ministra com a população, pois Ardern se esforçou para deixar toda a população do país consciente da situação e os aspectos envolvidos. Até mesmo as crianças receberam orientação especial da primeira-ministra. Todos os dias e no mesmo horário, Jacinda Ardern se juntava com a diretora geral de saúde, Dra. Ashley Bloomfield, para uma conferência que era transmitida online e abrangia os canais de fácil acesso para a população.

Graças ao trabalho conjunto do governo e da sociedade neozelandesa, o problema foi contido em 60 dias e alcançou 56,5% de aprovação do público contra os 30,6% da oposição, pela forma que conduziu a gestão da crise.

Ruanda

Ruanda, que já recebia elogios da OMS pelo bom preparo para evitar o vírus ebola, entra para a lista dos países que melhor conseguiram lidar com a crise sanitária do novo coronavírus. Além de aderir as práticas citadas acima, utilizou a tecnologia para auxiliar os profissionais da saúde no controle da pandemia.

O país foi o primeiro a ter casos de Covid-19 na África Oriental e se prontificou de utilizar todos os recursos possíveis para conter o avanço do vírus. Até robôs foram para a linha de frente. A função deles era fazer a testagem dos pacientes, a tecnologia avançada permitia que a temperatura de 200 pacientes fosse medida em um minuto. O uso dos robôs também permitiu diminuir a exposição dos profissionais ao risco de contaminação.

Houve ainda um grande empenho em testar toda a população, facilitando o acesso e dando ênfase em regiões de maior risco de contaminação. Além disso, os gestores se preocuparam em vacinar toda a população, tanto nativos quanto estrangeiros. O resultado é que Ruanda teve 15.998 infectados e 210 mortos.

Por fim, a adoção das medidas recomendadas pelos especialistas demonstraram gerar resultados positivos, minimizando as consequências sociais e econômicas. Principalmente quando houve boa gestão governamental e bom uso da comunicação e tecnologias.

Um estudo internacional está em andamento para avaliar e comparar como os países enfrentaram a pandemia, segundo a Agência FAPESP, que está dando apoio à pesquisa da Fundação Getúlio Vargas (FGV) e da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos.

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