Coronavírus dos ricos X coronavírus dos pobres

A disseminação do coronavírus independe da classe social

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Hospital de campanha para tratamento de covid-19 do Complexo Esportivo do Ibirapuera. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil.

Bem no começo da epidemia de coronavírus eu escrevi aqui sobre a polarização do tema: desprezo versus pânico, individualidade versus comunidade, economia versus saúde, a turma da festa no apartamento versus a turma do #fiquemcasa. Quando escrevi, estávamos longe ainda do que estamos vivendo agora: 114.715 casos confirmados, 7.921 mortos. Agora, acrescentamos um novo capítulo que tem ficado mais evidente conforme a epidemia avança: o coronavírus dos ricos é bem diferente do coronavírus dos pobres.

Hoje, duas matérias publicadas pela imprensa me chamaram a atenção. A primeira na revista Época, escrita pelo amigo repórter Ullisses Campbell. Ele contou a história de empresários contaminados no Pará que usam jatinhos particulares para buscar ajuda em hospitais como Albert Einstein e Sírio Libanês. As viagens, segundo a reportagem, chegam a custar 120 mil reais. Um deles inclusive chegou a gravar um vídeo antes de embarcar. 

A outra matéria que me chamou a atenção foi publicada pelo UOL com o título “Em vez da idade, classe social passa a definir quem morre de covid no país”. O texto aponta a disparidade entre o número de mortes na Brasilândia, região periférica de São Paulo, e o Morumbi, bairro de classe média alta. São 67 mortes contra sete, segundo a reportagem.

Outro dia também li um relato de um socorrista do SAMU e ele dizia indignado “como é normal isso tudo? como morrer é normal?”. Outro trecho do depoimento dele me marcou: “o Samu é um representante da saúde do Estado chegando lá para tentar dar uma solução para o que não teve solução antes […]. De alguma forma, depois da morte o Estado tem que ir lá e as pessoas ainda agradecem. O Estado não conseguiu evitar aquela morte que é uma morte evitável. Morte por covid é uma morte evitável na grande maioria das vezes. Entuba, cuida direito. Não vai salvar todos, mas consegue reduzir muito a mortalidade”.

Hoje eu fiz uma entrevista com o Dr. Fernando Maluf, um dos maiores oncologistas do país. Ele fez uma análise realista e triste do nosso presente e o nosso futuro. Lembrou que os leitos do SUS já estavam lotados antes da covid-19, que agora chegou para sobrecarregar ainda mais o sistema. Lembrou que as pessoas ainda vão morrer e ter doenças graves porque não foram se tratar de problemas que já tinham e nem fizeram diagnóstico precoce. Explicou também que sim, hospitais particulares têm uma estrutura excelente e um corpo clínico treinado, o que garante menores taxas de mortalidade. Mas lembrou que essa não é a realidade do país.

No fim, perguntei a ele o que a gente pode fazer diante disso tudo que está acontecendo. Ele respondeu, em resumo: tripliquem o amor nesse momento (a distância não deve nos tornar mais frios); quem tiver condição, doe (dinheiro, cestas básicas, insumos, sangue); façam o isolamento; usem máscaras e, se tiver sintomas, avisem o médico.

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