Coronavac e a eficácia de 50,4%: o que isso significa?

A princípio, a nova informação é bem menos impactante do que a eficácia de 78% divulgada na semana passada, mas o potencial da vacina não deve ser descartado

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Divulgação/Instituto Butantan

Na última terça-feira, depois da pressão da comunidade científica, o Instituto Butantan divulgou dados mais detalhados da Coronavac, mostrando que a vacina tem eficácia geral de 50,4%. A princípio, a nova informação é bem menos impactante do que a eficácia de 78% divulgada na semana passada, mas o potencial da vacina não deve ser descartado. Alguns tópicos para entender o cenário:

  • por que diminuiu tanto?
    Na verdade, houve um recorte diferente dos dados. Para chegar ao número divulgado, os pesquisadores consideraram todos os perfis de pacientes, dos casos mais leves, que não precisaram de nenhum cuidado, até os muito graves. Eles viram que, ao todo, 252 pessoas dos dois grupos tiveram covid, com qualquer gravidade da doença. Ao comparar os dois grupos, viu-se que o grau de proteção da vacina foi de 50,4%.
  • o número de 78% ainda é válido?

Sim. Para chegar aos 78%, os pesquisadores não incluíram os casos muito leves na conta. Eles consideraram os casos leves, que precisavam de assistência, os moderados, que foram hospitalizados, e os graves, que precisaram da UTI. Nesse recorte, 38 pessoas tiveram covid, sendo que 31 não tinham tomado a vacina e 7 tinham recebido a Coronavac. Ou seja, levando em conta esse recorte, entre os vacinados, o total de casos que precisam de atendimento ambulatorial ou de internação é 78% menor do que o total de casos entre os que não receberam a vacina.

  • mas e a Astra, Pfizer, Moderna…?
    Cada vacina utilizou um desenho de estudo específico e nem sempre a comparação entre cada um deles é justa. O diretor médico do Instituto Butantan, Ricardo Palácios, explicou com uma analogia: “se a gente quer comparar os diferentes estudos, é como comparar uma pessoa que fez uma corrida de um quilômetro num trecho plano com uma que fez uma corrida de um quilômetro num trecho com obstáculos”. Na coletiva, foi mencionado também que nenhuma das vacinas foi testada em um ambiente com incidência tão alta.
  • a Coronavac pode ainda ser útil para a pandemia?
    Os especialistas ouvidos na apresentação da vacina ressaltaram que a Coronavac possuiu um potencial relevante para reduzir a necessidade de atendimento ambulatorial e internação, o que já colabora para desafogar os serviços de saúde e evitar um colapso no sistema. Não é possível sabe ainda o quanto ela poderia colaborar para erradicar o coronavírus — para isso é preciso de mais tempo e mais estudos. Não podemos esquecer também que é uma vacina que já se mostrou segura nas pesquisas. A tecnologia também é mais acessível para o país, em termos de preço, produção, distribuição e armazenamento. Tudo isso conta na eficiência de estratégia de saúde pública.
  • Faltou transparência e sobrou política
    Nessa história toda, a mistura da política com a ciência não foi bem-vinda. A falta de transparência infelizmente só colabora para alimentar o preconceito, as teorias da conspiração e aumentar o medo de quem já tem receio de tomar vacina. Agora resta esperar a decisão da Anvisa após análise dos dados. A agência deverá dar seu aval em breve — lembrando que qualquer pressão política em cima de uma decisão técnica nesse momento não é uma boa ideia.

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