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Controle de colesterol precisa ser foco de políticas públicas

"Ano após ano acompanhamos os números de óbitos por infarto, insuficiência cardíaca, AVC entre outras doenças aumentarem. Isso porque o plano de enfrentamento não está sendo aplicado na ponta e o controle não está acontecendo", escreve Marlene Oliveira em seu novo artigo.

               
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Desde o início deste mês de agosto, grande parte do meu tempo foi dedicado a discussões e participação em eventos que tratam do impacto do colesterol alto, um dos mais importantes fatores de risco para o aumento crescente de mortes por doenças cardiovasculares no Brasil.

A discussão sobre o desconhecimento dos brasileiros sobre seus índices lipídicos e a falta de controle do colesterol têm sido tema que a cada ano ganha maior relevância em nossa agenda no Instituto Lado a Lado pela Vida. Em 2021, ela tomou nova dimensão e posso dizer que está entre as principais prioridades de nossas atividades, seja na elaboração de conteúdos para nossas comunicações ou para nortear nossas ações de advocacy no que se refere à causa cardiovascular.

Com a decisão de colocar a disseminação de informação qualificada sobre o colesterol alto e a necessidade do seu controle como assuntos prioritários a serem trabalhados, mergulhei na leitura de artigos sobre o assunto e também passei a estudar ainda mais o porquê é tão difícil para os indivíduos, seja individualmente ou coletivamente, mudar comportamento.

Traduzir a mensagem de que o colesterol é o vilão número um no aumento galopante das doenças cardiovasculares e no crescimento de mortes por infarto e nas ocorrências de AVC (acidente vascular cerebral), que se não leva o indivíduo à morte causa sequelas gravíssimas, tem sido uma tarefa árdua não só para nós, organização que se relaciona diariamente com pacientes e público leigo como, por exemplo, para os maiores centros de referência em tratamento de doenças cardiovasculares, como o Instituto do Coração de São Paulo (INCOR); os hospitais Oswaldo Cruz, Universitário da USP e Instituto Dante Pazzanese; para centros acadêmicos como UNICAMP e UNIFESP e, ainda, entidades como as Sociedade Brasileira de Diabetes, Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia e Sociedade Brasileira de Cardiologia, entre outros atores.

Em um evento em que participei em 8 de agosto, data dedicada à prevenção e pontrole do colesterol, os participantes – referências em saúde no país – foram unânimes em dizer que o ponto focal para mudar o cenário das doenças cardiovasculares no Brasil, seria reduzir as taxas de colesterol da população.

E a pergunta feita aos maiores especialistas presentes do “porquê é tão difícil reverter esse cenário”, permaneceu sem resposta. A tarefa de conscientizar a sociedade a conhecer o que é o colesterol, quais são seus índices e mostrar que ele é o principal fator de risco modificável para reduzir a mortalidade cardiovascular não pode mais seguir como tema de debates, de posts nas redes sociais e reportagens de jornais e TVs. É preciso que ela seja encarada como prioridade para as ações de políticas públicas da saúde no Brasil.

Concordo totalmente com o que diz Gaston Gondim, professor da Universidade Laval, no Canadá, especialista em saúde coletiva, com ênfase no campo da psicologia e dos comportamentos em saúde quando diz que “mudança de comportamento, no contexto da saúde pública, refere-se a esforços empreendidos para mudar os hábitos e atitudes individuais das pessoas, para prevenir doenças. A mudança de comportamento na saúde pública também é conhecida como comunicação de mudança social”.

Ele segue e diz ainda que “quando uma pessoa fuma, consome álcool ou dirige em alta velocidade, ela não é motivada por razões de saúde. O que incita a adoção desses comportamentos são, em grande parte, os fatores sociais. Assim, não podemos falar de comportamentos de saúde, mas de comportamentos sociais que se relacionam com a saúde. E os elementos que influenciam a adoção de tais comportamentos não se limitam aos fatores sanitários, mas também às atitudes”.

Pensando nisso, temos de lembrar que ao longo dos séculos, mudanças de comportamento coletivo foram fundamentais para o aumento da expectativa de vida. Não precisamos voltar tão longe na história. Basta lembrarmos que no século XVII, a teoria miasmática dizia que as doenças tinham origem em miasmas, conjunto de odores fétidos provenientes de matéria orgânica em putrefação nos solos e lençóis freáticos contaminados. Medidas sanitárias foram tomadas, para mudar e implementar políticas voltadas ao saneamento de águas e esgotos.

Seguindo para o século XIX, chegamos em Louis Pasteur e Robert Koch, que mudaram a teoria miasmática, para a teoria microbiana de que as doenças eram disseminadas por microorganismos transmitidos de pessoa a pessoa, abrindo espaço para o desenvolvimento de vacinas e antibióticos e reduzindo drasticamente as doenças infeciosas.  Em 1900, por exemplo, um homem ao nascer vivia, em média, 46 anos e a mulher, 48 anos. Em 1950, esse cenário passou a 66 anos para homens e 71 para mulheres.

Chegando ao século XX, vivenciamos uma nova transformação, com foco nas doenças crônicas e não transmissíveis (DCNTs) como, por exemplo, as doenças cardiovasculares, o AVC, o câncer e a obesidade. E, ao desembarcarmos no século XXI, elas não só se perpetuaram como, hoje, são responsáveis por sete entre 10 mortes em todo o mundo.

Entendo que acabou o tempo da discussão e já estamos mais do que atrasados para entrar na ação. Muitas das doenças crônicas não transmissíveis são evitáveis com a adoção de hábitos individuais e coletivos e implementação de políticas públicas eficazes e eficientes, como deveria ser o caso da atuação para a redução dos índices de colesterol da nossa população.

Retomo à pergunta do “porquê é tão difícil mudar hábitos de comportamento” e olhando para o que temos vivenciado, poderíamos nos inspirar na terrível e atual vivência do enfrentamento do novo Coronavírus e o combate à Covid-19.

Para o colesterol, não teremos vacina. Os medicamentos existentes são eficazes, principalmente para os portadores do colesterol genético, mas temos em nossas mãos e na dos gestores e formuladores de políticas públicas o poder de impactar e conscientizar a sociedade de que, assim como o álcool gel, a higiene das mãos e o uso de máscaras, precisamos mudar hábitos alimentares, combater o sedentarismo e a obesidade e reverter os índices inaceitáveis de colesterol alto dos brasileiros.

Como líder social da área de saúde, acredito que o País avançará quando mudarmos a abordagem para o enfrentamento das doenças cardiovasculares, investindo recursos financeiros e realizando ações sérias e continuadas em prevenção, além de fortalecer o papel das Unidades Básicas de Saúde (UBS).

É urgente a necessidade de atuarmos na Atenção Primária, que é a porta de entrada dos pacientes no SUS (Sistema Único de Saúde), se quisermos reverter o quadro de mortalidade por doenças cardiovasculares no Brasil. Atualmente, um montante expressivo de recursos são despejados na média e alta complexidade, quando a doença já está instalada e muitas vezes em estágio avançado e até irreversível.

Ainda, precisamos que o acompanhamento da jornada dos pacientes seja feito e uma linha de cuidados seja definida e aplicada, além de uma ação continuada de disseminação de informações sobre saúde e prevenção seja disponibilizada nas escolas públicas e privadas dos quatro cantos do país.

Todos nós envolvidos direta ou indiretamente na causa cardiovascular sabemos que a OMS (Organização Mundial da Saúde) definiu e publicou as metas de redução da mortalidade cardiovascular até 2030, assim como o Ministério da Saúde no Brasil também o fez. No entanto, ano após ano acompanhamos os números de óbitos por infarto, insuficiência cardíaca, AVC entre outras doenças aumentarem. Isso porque o plano de enfrentamento não está sendo aplicado na ponta e o controle não está acontecendo. Isso é fato!

Se considerarmos que o infarto do miocárdio é a patologia que acarreta maior custo financeiro ao país, com R$ 22,4 bilhões do orçamento da saúde destinados só para esse evento em 2019, podemos imaginar o quão importante é dedicar atenção imediata para a redução dos índices de colesterol na nossa população.

Só assim, os brasileiros não só viverão mais, como melhor. E nossa sociedade poderá, efetivamente, visualizar o impacto positivo da mudança da gestão em nossos sistemas de saúde, público e privado, o que também será benéfico para a sustentabilidade econômica do setor.

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