Conahp 2021: Coronavírus deve ser visto como resposta biológica do planeta, diz físico Fritjof Capra

Escritor participou de plenária durante programação do Conahp 2021.

               
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Conahp 2021 Fritjof Capra

A pandemia pode ser vista como uma resposta a um desequilíbrio ecológico e social do nosso planeta, segundo o físico e escritor Fritjof Capra. Ele participou da plenária “The systems view of health“, que fez parte da programação desta quarta-feira, dia 20, do Conahp 2021.

“Eu entendo que o coronavírus deve ser visto como uma resposta biológica de Gaia, nosso planeta, à emergência ecológica e social que a humanidade acabou se colocando sozinha. É um desequilíbrio ecológico e social que tem consequências dramáticas devido a desequilíbrios econômicos e sociais”, avaliou. 

Segundo ele, vírus que vivem em simbiose com certas espécies animais saíram desses animais quando o ecossistema foi afetado e ocuparam o pulmão dos humanos, de forma tóxica e muitas vezes mortal. Assim, segundo ele, o coronavírus saiu também de espécies de morcegos para os humanos na China e de lá se espalhou para o mundo inteiro. 

Modo de vida

Fritjof Capra disse que contribuiu para a forte propagação do coronavírus a forma como vivemos atualmente, com alta densidade populacional, turismo massivo e desigualdade econômica, que obrigam as pessoas a ficarem muito próximas umas das outras.

Conahp 2021 Fritjof Capra

“Todas as variáveis dentro do sistema vão levar a estresse e vulnerabilidade do sistema como um todo”.

Apesar da crise sanitária e econômica gerada, ele também vê um lado bom da pandemia, com o lockdown em alguns países e as medidas de isolamento social em muitos lugares do mundo. “O trânsito foi reduzindo, a contaminação e poluição em cidades do mundo começaram a regredir, a gente começou a ter novos ares, céus mais limpos. O ecossistema começou a ser melhorado com menos humanos nas ruas”, opinou.

Ainda de acordo com Fritjof Capra, o coronavírus mostrou eficiência em reduzir as emissões de CO2. Por isso, disse que é possível mudar alguns hábitos de atividades humanas para fazer uma releitura desses resultados positivos para o meio ambiente. 

O escritor chama o nosso planeta de Gaia. Trata-se de uma referência a uma hipótese elaborada por um cientista inglês no ano de 1979 segundo a qual a Terra é um imenso organismo vivo, capaz de obter energia para seu funcionamento, regular seu clima e temperatura, eliminar seus detritos e combater suas próprias doenças. Ou seja, assim como os outros seres vivos, um organismo capaz de se autorregular. 

“Gaia nos apresenta algumas lições importantes para a vida, para a manutenção da vida. Vamos aplicá-la à crise climática? Vamos mudar de um crescimento extrativista para um crescimento regenerativo? Vamos trocar os combustíveis fósseis por fontes renováveis? Vamos deixar de ter turismo massivo e revitalizar as comunidades locais? Além disso, os vírus que são perigosos podem ficar nas suas espécies de animais, onde não fazem dano nenhum”, avaliou. 

Problemas sistêmicos e interconectados

Fritjof Capra defendeu que todos os principais problemas enfrentados hoje pelo mundo – como emergência climática, desigualdade econômica e a própria pandemia – não podem ser vistos de forma isolada. Seriam todos problemas sistêmicos e interconectados. 

“O sistema econômico alimenta o materialismo e a cobiça e não parece reconhecer nenhum tipo de limite. Nesse sistema, o crescimento perpétuo é perseguido incansavelmente, com consumo excessivo e gerando lixo, contaminação, esgotando os recursos naturais da terra e aumentando desigualdades econômicas”, avaliou.

Para ele, o principal desafio chave é mudar de um sistema econômico pensando no crescimento limitado que seja sustentável economicamente e socialmente justo. Por isso, defendeu o que chama de “crescimento qualitativo” em vez do crescimento quantitativo.

Ele explicou que o crescimento qualitativo é um crescimento que melhora a qualidade de vida gerando e regenerando. Enquanto as quantidades podem ser medidas, as qualidades têm que ser mapeadas.

“Precisamos qualificar o crescimento. Distinguir o bom crescimento e o crescimento ruim. Podemos reduzir o crescimento ruim ou melhorar o crescimento bom”, disse. 

O crescimento ruim seria o de processos, produtos e serviços que externalizam custos sociais e ambientais. São baseados em combustíveis fósseis, envolvem substâncias, reduzem sistemas naturais e degradam o ecossistema da terra. Já o bom crescimento seria o oposto. Permitiria trazer elementos renovados para a natureza, emissão zero de poluentes, reciclagem contínua de recursos naturais, comunidades locais envolvidas e reparação dos ecossistemas da terra. 

Coronavírus e justiça social

Fritjof Capra também observou a questão social em relação à Covid-19. Segundo ele, os ricos normalmente ficam longe dos pobres. Entretanto, como o vírus não entende limite social e não se isola socialmente, a situação mudou. 

“Pobres estão mais suscetíveis por causa do pouco acesso, pouco cuidado com a saúde. Mas mais cedo ou mais tarde chegou nos ricos. Eles não estão separados biologicamente. São da mesma espécie. Assim, o vírus se propaga”.

Ele defendeu que, durante a pandemia, a justiça social deixou de ser um aspecto político de direita e esquerda, passando a ser de vida e morte. Isso porque, para evitar a pandemia no futuro, seria essencial melhorar as condições de vida das classes desfavorecidas.

“O comportamento ético vai ser uma questão de vida ou morte em uma pandemia. A pandemia pode ser resolvida só a partir de ações cooperativas e colaborativas. Não tem outra opção”, disse.

Ainda segundo ele, o conceito de progresso deveria ser revisitado, o que já estaria sendo feito por diversas organizações da sociedade global. “O [acúmulo] de dinheiro seria progresso, mas não é. O progresso é o conforto da comunidade e deve ser medido pelo bem-estar da humanidade e da terra. Precisamos de alguma maneira colocar o sistema financeiro como parte da economia e não sendo ‘a’ economia”.

Erros e acertos na condução da pandemia

Ao final da plenária, Fritjof Caprarespondeu a algumas perguntas. Uma delas era sobre erros e acertos na condução da pandemia no mundo. Ele disse que a resposta depende de que líderes estamos falando. Segundo ele, nos Estados Unidos, onde mora, o então presidente Donald Trump não ouviu a ciência nem valorizou a experiência dos cientistas. O mesmo teria acontecido no Brasil. 

“Foi assim para Trump e para [o presidente brasileiro Jair] Bolsonaro, que reduziram a importância da pandemia e ficou um assunto político em vez de questão de ciência e de saúde. Por isso que nesses países a Covid se espalhou rapidamente”, opinou. 

Segundo ele, em muitos países pequenos os políticos aceitaram a participação de cientistas e conseguiram conter o vírus de forma um pouco mais efetiva. Também elogiou a China, que disse ter lidado muito bem com a pandemia após o surto inicial.

Sobre o palestrante

Reconhecido por seu trabalho na promoção de educação ecológica, Fritjof Capra é cientista e Ph.D. em Física Teórica pela Universidade de Viena. Tornou-se mundialmente famoso por seu livro “O Tao da Física”, lançado em 1975, em que traça um paralelo entre a física moderna e o misticismo oriental.

Entre outros títulos, também publicou Alfabetização Ecológica: A Educação das Crianças para um Mundo Sustentável, A Alma de Leonardo da Vinci, A Revolução Ecojurídica, O Ponto de Mutação e Visão Sistêmica da Vida. Diretor do Center for Ecoliteracy, com sede em Berkeley (EUA), Fritjof Capra se dedica ao incentivo da ecologia e do pensamento sistêmico nos ensinos primário e secundário.

Conahp 2021

Realizado pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), o Conahp 2021 tem como proposta repensar a saúde da próxima década. Assim, entre 18 e 22 de outubro, especialistas do setor discutiram “Saúde 2030: Desafios e Perspectivas”.

Na segunda-feira, dia 18, o evento online contou com plenárias de Emmanuel Fombu e Robert Kaplan. Também houve um debate com mediação da jornalista especializada em saúde e diretora do portal Futuro da SaúdeNatalia Cuminale. Participaram: Fernando Torelly; Hilton Mancio; Leandro Reis; Manoel Peres; e Paulo Ishibashi.

Na terça, dia 19, o evento contou com um encontro sobre construção do modelo assistencial integrado que gera valor. Em outro momento, foi discutida a importância da saúde baseada em dados. Também houve debate sobre os principais gargalos para a ampliação dos planos de saúde no Brasil. Mediado por Natalia Cuminale, contou com a participação de Gabriel Portella, José Cechin e Maurício Ceschin.

Na quarta, dia 20, além desta plenária com Fritjof Capra, também foi destaque a plenária sobre gestão pública na pandemia e cooperação entre público e privado , com o médico e ex-ministro Nelson Teich e o médico e professor Gonzalo Vecina. Já a mesa de debates do dia, mediada por Natalia Cuminale, tratou sobre os desafios para implantação da atenção básica. Assim, participaram Erno Harzheim, da Clínica Salute, e Miguel Cendoroglo, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Já no dia 21, o congresso teve um encontro que discutiu a transformação digital e o uso de inteligência artificial. Em outro, o tema foi tecnologia associada à força de trabalho na saúde e os desafios de usabilidade. Além disso, com mediação de Natalia Cuminale, uma mesa de debates tratou sobre dificuldades para incorporar novas tecnologias no Brasil. Participaram Diogo Dias, Hospital Porto Dias, Franco Pallamolla, ABIMO, e Walban Damasceno, ABIMED.

Futuro da Saúde

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