Conahp 2021: Cerca de 78% do que se gasta com saúde no mundo é consumido por 18% da população, diz Robson Capasso

Reitor associado e professor da Universidade de Stanford participou de plenária junto ao head mentor do eHealth Mentor Institute, Guilherme S. Hummel, e ao gerente médico do Hospital Israelita Albert Einstein, Eduardo Cordioli.

               
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Conahp 2021 - Tecnologia associada à força de trabalho na saúde e os desafios da usabilidade

Estima-se que 78% do que se gasta com saúde no planeta é consumido por apenas 18% da população mundial. O dado foi divulgado pelo reitor e professor da Universidade de Stanford (EUA) Robson Capasso durante plenária do Conahp 2021 desta quinta-feira, 21, que abordou a tecnologia associada à força de trabalho na saúde e os desafios de usabilidade. Também participaram da mesa o head mentor do eHealth Mentor Institute, Guilherme S. Hummel, e o gerente médico do Hospital Israelita Albert Einstein, Eduardo Cordioli. O moderador foi o conselheiro Anahp e presidente-executivo do Conselho de Administração da DASA, Romeu Cortes Domingues.

Para Robson Capasso, a disparidade nos custos e no quanto é consumido de saúde em todo o mundo é uma realidade brutal. “A lição que vemos é que o modo como está sendo inovada a saúde globalmente está criando um ambiente díspar, com todas as implicações que vem disso”, afirmou.

Entretanto, apesar de 82% da população do planeta usar cerca de 22% do total gasto com saúde, os números relacionados ao Brasil não são tão discrepantes. O nosso país tem 3% da população global e está consumindo 2%. 

O crescimento no custo dos cuidados em saúde também é um problema, principalmente nos Estados Unidos. De acordo com os dados apresentados, diversos gastos de famílias norte-americanas tiveram queda em um período de sete anos. Entretanto, os custos com saúde subiram 24,8%. Atualmente, o país gasta mais de 50% do total que é gasto em saúde no mundo. Porém, a qualidade desses gastos seria questionável.

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“Tem que mudar o modo que se faz saúde e educar quem trabalha com saúde. Repensar completamente. A disparidade de acesso à saúde enorme. O modo como faz saúde nos EUA, por qualquer métrica, está errado, pois não vai bem”.

Implementação de tecnologias

Sobre a implementação de tecnologias na área da saúde, Robson Capasso disse que um erro muito frequente é tentar utilizar uma inovação já criada para aplicar na saúde. Assim, muitas empresas desenvolvem soluções, sem muita certeza sobre a necessidade, e tentam vender para os hospitais.

“O caminho certo é entender a necessidade para daí procurar a tecnologia”, explicou Robson Capasso.

Além disso, o setor de saúde é diferente de todos os outros. “O grande diferencial do mercado de saúde, comparado ao mercado de tecnologia, é que na saúde nós não temos um consumidor, mas sim vários. São médicos, enfermeiros, sociedades profissionais, o paciente, grupos de direitos dos pacientes, os pagadores. Cada problema de saúde é muito mais complexo do que os elementos que as fintechs estão tentando resolver”, disse.

Por fim, Robson Capasso falou sobre a importância da humanização nas consultas. Ele disse que um estudo que fez com os pacientes mostrou qual seria a consulta ideal para eles. Uma boa experiência seria aquela em que o médico senta em frente ao paciente, ao nível dos olhos, e fica três minutos apenas o ouvindo, sem interromper.

“A humanização da medicina vai ser uma coisa que vamos ter que aprender de novo. Temos muita divisão de atenção do médico, e esses três minutos que o paciente precisa foi o que fez com que a minha probabilidade de o paciente recomendar o médico aumentasse em cinco pontos”, disse.

Déficit de acesso à saúde até o final do século

O segundo a participar da plenária foi o head mentor no EMI – eHealth Mentor Institute,  Guilherme S. Hummel. Segundo ele, o problema de déficit de acesso à saúde no mundo é um fator absolutamente incontrolável até o final do século, já que seria impossível nos próximos anos formar todos os cerca de 20 milhões de profissionais de saúde que o mundo precisa. 

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“A demanda só vai crescer. Então, eu não acredito que essa oferta e demanda terá mais equilíbrio até 2030, de forma macro. Mesmo com todo esforço, inclusive tecnológico. Por outro lado, cada sistema de saúde, seja público ou privado, precisa fazer a sua parte ou a falta de acesso aumentará”.

Para ele, já que não é possível subir a oferta, então é preciso reduzir a demanda. E isso poderia ser feito ensinando a população a se cuidar melhor. 

“A função médica vai ser de instrutor, professor e educador mais do que de cuidador. Tem que preparar uma criança para que quando ela tenha 17 anos saiba tudo sobre sistema reprodutivo e competências sanitárias para permitir que a curva da demanda seja reduzida”, defendeu.

Hummel disse ainda que o uso de código (programação) está em todos os lugares. Por isso, há um mercado muito grande na área de tecnologia. Há desenvolvedores que ganham mais do que um engenheiro ou do que um médico do SUS.

Entretanto, haveria uma dificuldade relacionada às especificidades da área da saúde. “É muito mais fácil um médico aprender a programar do que ter um programador aprendendo a pensar como médico”, opinou.

Educar pacientes e profissionais da saúde

Último a falar, o gerente médico do Hospital Israelita Albert Einstein, Eduardo Cordioli, concordou sobre a necessidade de educar também o paciente. Para ele, é preciso colocar o paciente no centro da atenção e dar ferramentas para que cuide melhor da saúde. 

Dessa forma, crê que o modelo de saúde dos EUA não deve ser perseguido, já que é mais reativo do que preventivo. Segundo ele, os custos de saúde naquele país passam de 3 trilhões de dólares, e serão de 5 trilhões de dólares em 2025. 

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“Um americano médio gasta quase 50 mil dólares em saúde por ano. Na Europa, dependendo do país, se gasta metade disso”.

Entretanto, enquanto os principais gastos nos EUA com saúde estão relacionados a pessoas não idosas, na Europa ocorre o contrário. 

“O tempo é inexorável. Todos adoecem com o tempo. Desenvolvemos doenças crônicas que culminam em eventos agudos. O esforço antes do evento agudo é muito menor do que depois. Assim, países que fazem prevenção têm uma perspectiva melhor. Mas, se colocar um americano no sistema europeu, ele não vai gostar, porque não foi educado a fazer o uso desse sistema como os europeus fazem”, disse.

Educação contínua para médicos e pacientes

Por esse motivo, Eduardo Cordioli defende a educação de pacientes e também de médicos para lidar com a medicina preventiva. Segundo ele, apesar de haver uma tendência atualmente no Brasil em investimentos em atenção primária, talvez o país tenha força de trabalho preparada para isso. Em relação à tecnologia, o problema é ainda maior.

“Nós damos saltos em tecnologia, mas caminhamos ao longo da nossa vida. Não podemos dar salto na educação. A educação tem que ser continuada, não só do profissional de saúde mas ao mesmo tempo do paciente. Porque quando começamos a usar essas ferramentas de Inteligência Artificial para ajudar nas práticas médicas, também usamos ferramentas de Inteligência Artificial para aumentar o engajamento do paciente ao sistema de saúde”, finalizou.

Sobre os palestrantes

Eduardo Cordioli é gerente médico do Hospital Israelita Albert Einstein. Na instituição, liderou um crescimento expressivo das operações de telessaúde, transformando o Centro de Telemedicina do Hospital Israelita Albert Einstein em um dos principais players de telessaúde nos mercados nacional e internacional.

Guilherme S. Hummel é head mentor no EMI – eHealth Mentor Institute. Com formação em Engenharia Mecânica e pós-graduação em Sistemas de Informação, possui 17 anos de experiência no ambiente de Tecnologias de Informação em Comunicação em Saúde (eHealth), tendo trabalhado em multinacionais líderes desse segmento.

Robson Capasso é reitor associado, chefe de cirurgia do sono e professor da Universidade de Stanford. Ele também é conselheiro global do Stanford Byers Center for Biodesign, onde Robson Capasso atuou como mentor em projetos de propriedade intelectual.

Conahp 2021

Realizado pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), o Conahp 2021 tem como proposta repensar a saúde da próxima década. Entre 18 e 22 de outubro, os principais especialistas do setor discutiram “Saúde 2030: Desafios e Perspectivas”.

Na segunda-feira, dia 18, o evento online contou com plenárias de Emmanuel Fombu e Robert Kaplan. Também houve um debate com mediação da jornalista especializada em saúde e diretora do portal Futuro da SaúdeNatalia Cuminale. Participaram: Fernando Torelly; Hilton Mancio; Leandro Reis; Manoel Peres; e Paulo Ishibashi.

Na terça, dia 19, o evento contou com um encontro sobre construção do modelo assistencial integrado que gera valor. Em outro momento, foi discutida a importância da saúde baseada em dados. Também houve debate sobre os principais gargalos para a ampliação dos planos de saúde no Brasil. Mediado por Natalia Cuminale, contou com a participação de Gabriel Portella, José Cechin e Maurício Ceschin.

Na quarta, dia 20, os destaques ficaram para a plenária sobre gestão pública na pandemia e cooperação entre público e privado , com o médico e ex-ministro Nelson Teich e o médico e professor Gonzalo Vecina, e para a plenária com o físico Fritjof Capra. Já a mesa de debates do dia, mediada por Natalia Cuminale, tratou sobre os desafios para implantação da atenção básica. Participaram Erno Harzheim, da Clínica Salute, e Miguel Cendoroglo, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Já no dia 21, além desta plenária, o congresso teve um encontro que discutiu a transformação digital e o uso de inteligência artificial. Com mediação de Natalia Cuminale, uma mesa de debates tratou sobre as dificuldades para incorporar novas tecnologias no Brasil. Participaram Diogo Dias, Hospital Porto Dias, Franco Pallamolla, ABIMO, e Walban Damasceno, ABIMED.

Futuro da Saúde

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