Conahp 2021: “Precisamos desenvolver o ceticismo ao avaliar os dados clínicos”, diz Robert Kaplan

O membro do Centro de Pesquisa da Escola de Medicina de Stanford participou de plenária do Congresso Nacional de Hospitais Privados - Conahp 2021 na manhã desta segunda-feira

               
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Conahp 2021 Robert Kaplan

“Durante a pandemia, as pessoas passaram a dizer que confiam na ciência, mas a ciência não é algo único”. Foi dessa forma que o membro do Centro de Pesquisa da Escola de Medicina de Stanford Robert Kaplan deu início a sua fala na Conahp 2021 no fim da manhã desta segunda-feira, dia 18. 

Ao longo de toda a sua plenária, ele defendeu a importância do ceticismo na avaliação dados de estudos clínicos. E fez isso ao explicar que os estudos passam por três grandes fases, que respondem a três perguntas: “Pode funcionar?”; “Funciona?”; “Vale a pena?”.

Para responder a primeira delas, ele explicou que, muitas vezes, modelos animais são utilizados no estudo pré-clínico. Entretanto, nem sempre os resultados são replicados quando a mesma substância é testada em humanos. Para exemplificar, ele citou a esclerose lateral amiotrófica, que foi verificado que os estudos não se replicavam, com os tratamentos não tendo o mesmo efeito em pessoas com a doença.

Robert Kaplan lembrou que os cientistas já curaram o Alzheimer centenas de vezes em ratos, mas ainda não foram capazes de curar nenhum humano com a doença. Mesmo com todos os estudos atualmente em andamento, há ainda um longo caminho a ser percorrido não apenas para o Alzheimer, mas também para outras doenças.

Conahp 2021 - Robert Kaplan

“Nós precisamos de alguma maneira ter uma visão mais ampla do que a saúde quer conquistar.” 

Problemas

Sobre a segunda pergunta (“funciona?”), Kaplan falou sobre os problemas enfrentados pelos cientistas. Um deles está relacionado a questões metodológicas. Há critérios de exclusão utilizados para a seleção de participantes do estudo. Acontece que, muitas vezes, o critério de exclusão é alguma característica que o paciente da vida real com aquela doença costuma apresentar. Outras vezes, a idade dos participantes não condiz com a faixa etária que costuma ser acometida pela doença que está sendo estudada na pesquisa. Por isso, muitas questões devem ser observadas quando um estudo é realizado. 

Outro problema enfrentado é em relação aos mecanismos. Muitos comparam o corpo humano a um carro. Se o carro quebrar, basta enviá-lo para o mecânico consertar. Nesse sentido, o mesmo deveria ocorrer com o corpo humano. 

Entretanto, os carros são criados em fábrica, enquanto o corpo humano não, sendo muito mais complexo. “Precisamos desenvolver o ceticismo ao avaliar os dados clínicos”, avaliou.

Apesar disso, Kaplan diz observar que nos Estados Unidos, o tempo para o produto chegar ao mercado está diminuindo. Mesmo assim, um medicamento precisa passar por um longo caminho de estudos até ser aprovado para comercialização.

Ele explicou que, em um estudo com 10 mil substâncias, todas podem ter potencial de benefícios. Entretanto, apenas 250 chegam na parte clínica dos estudos – ou seja, com testes em humanos. Ao final, somente cinco chegam de fato ao ensaio clínico. Por fim, apenas uma das 10 mil substâncias promissoras chegará à agência reguladora dos EUA, a FDA. 

Possíveis efeitos colaterais

Em relação à última pergunta (“vale a pena?”), Kaplan falou na questão dos efeitos colaterais de alguns medicamentos. Muitas vezes, as reações são tão grandes que nem sempre vale a pena pelo benefício. Porém, segundo ele, nem sempre os laboratórios deixam claro para os pacientes sobre os efeitos colaterais.

Por fim, Robert Kaplan afirmou ainda que a saúde de cada cidadão está mais relacionada com questões de escolaridade e renda do que com o sistema de saúde em si.

“Pessoas que não têm faculdade possuem uma menor expectativa de vida. Outros fatores demográficos e renda também determinam se a pessoa vai viver mais ou menos. É bem complicado. Precisamos mudar as formas como fazer as coisas. Os dados que usamos são pobres e precisam melhorar”.

Sobre Robert Kaplan

Robert S. Kaplan é membro do Centro de Pesquisa da Escola de Medicina de Stanford. No total, Robert mais de 20 obras publicadas. Kaplan também é professor pesquisador de Política e Gestão de Saúde na Fielding School of Public Health na Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA) e já atuou no governo como diretor de ciências na Agência dos Estados Unidos de Pesquisa e Qualidade em Saúde (AHRQ).

Conahp 2021

Realizado pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), o Conahp 2021 tem como proposta repensar a saúde da próxima década. Entre 18 e 22 de outubro, os principais especialistas do setor discutem “Saúde 2030: Desafios e Perspectivas”. Antes de Kaplan falar no fim da manhã desta segunda, o congresso contou com uma plenária com o médico Emmanuel Fombu.

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