Conahp 2021: “Conexão de um serviço a outro é o que falta digitalizar na saúde”, diz Joel Formiga

Além do country manager da MphRx no Brasil, o Conahp 2021 contou ainda com a presença do diretor clínico do Hospital Porto Dias, Diogo Dias, e do diretor executivo do Instituto de Radiologia do InovaHC, Marco Bego

               
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Conahp 2021 - Como a pandemia acelerou as inovações e tecnologias em saúde

Quando se fala que a pandemia acelerou as inovações e tecnologias em saúde, normalmente se pensa em telemedicina. Entretanto, as mudanças ocorridas nos últimos dois anos no setor vão muito além. O assunto foi discutido em uma plenária na tarde desta sexta-feira, dia 22. O evento, que fez parte da programação do Conahp 2021, contou com a presença do diretor Clínico do Hospital Porto Dias (HPD), Diogo Dias, do country manager da MphRx no Brasil, Joel Formiga, e do diretor executivo do instituto de radiologia do InovaHC, Marco Bego. A moderação foi do diretor geral do Hospital Sírio-Libanês, Fernando Ganem.

Para Joel Formiga, uma questão importante acelerada pela pandemia foi a centralização do registro vacinal. Ele lembrou que sempre houve um projeto para isso, com sistemas estaduais e federal, mas na prática o registro das vacinas fornecidas à população não era feito de forma integral. Muitas vezes, as informações enviadas para o Ministério da Saúde continham apenas o número de vacinas distribuídas.

Com a vacinação contra a Covid-19, entretanto, isso mudou. “Um projeto que já existia, o RNDS, ou Rede Nacional de Dados na Saúde, passou a congregar esses dados da vacina de Covid. Depois, criou-se o certificado da vacina, ainda com suas limitações, mas um grande avanço frente ao que se tinha anteriormente”, avaliou Joel Formiga durante a plenária intitulada “como a pandemia acelerou as inovações e tecnologias em saúde”. 

Joel Formiga apontou que o RNDS foi um passo além da vacina e começou a concentrar também resultados de exames de Covid, incluindo dados do setor privado. Entretanto, segundo ele, o desafio agora é fazer com que isso ocorra também com outros tipos de vacinas e exames. 

Desafios

Ele afirmou que mesmo havendo a tecnologia, não há o mesmo cuidado com outras campanhas de vacinação. Assim, um registro vacinal completo em um sistema único poderia ser utilizado para consulta tanto para fins populacionais como individuais. 

“Se o esforço tecnológico está sendo feito para plugar o exame de Covid, por que não tem o exame de glicose, hemoglobina, hemograma? O esforço tecnológico é o mesmo. Mas não extrapolou a Covid-19. Teve avanços da pandemia que se limitaram à pandemia”, lamentou.

Em relação à telemedicina, ele disse que foi visto um avanço muito grande, com quebra de paradigma para os profissionais de saúde. Tudo isso foi potencializado pela alta demanda em um momento em que o distanciamento social era necessário.

“Inovação não começa pela tecnologia, começa pelo cliente insatisfeito. Começa pela demanda. A demanda para que se tivesse acesso à saúde de forma remota era muito grande”, lembrou, citando ainda o marco jurídico que possibilitou que a telemedicina tivesse um crescimento tão grande.

Joel Formiga falou também sobre a coordenação do cuidado. Apesar do avanço da telemedicina, ele afirmou que a jornada do paciente ainda não é digital. 

Conahp 2021

“A conexão de um serviço a outro é o que falta digitalizar na saúde. A adesão de coordenação de cuidados de forma digital”.

Para ele, a inserção da telemedicina dentro do contínuo assistencial é o passo que ainda não foi dado. “Mas vejo com otimismo, pois vejo na telemedicina o embrião dessa digitalização da coordenação de cuidado”, concluiu Joel Formiga.

Ecossistema

Já Marco Bego, que atua como diretor executivo do instituto de radiologia do InovaHC, disse que, desde o início da pandemia, muitas iniciativas de telemedicina começaram a surgir no Hospital das Clínicas de São Paulo. Por isso, foi preciso organizá-las, o que resultou em 20 projetos pilotos. Por irem além da telemedicina, as ações receberam o nome de saúde digital.

Ele conta que, na primeira fase, foi visto que a inovação não poderia ficar apenas dentro da instituição. “Conseguimos nos conectar com cerca de 50 hospitais por todo o Brasil. Conseguimos oferecer algoritmos. Assim, os hospitais faziam os exames, nós fazíamos a análise e devolvíamos aos hospitais”, explicou.

Em uma segunda fase, foi possível levar inovação para dentro do hospital. Assim, novos profissionais e startups passaram a trabalhar de lá. 

Por fim, na terceira fase, o desafio passou a ser tentar sustentar toda aquela inovação. Dessa forma, há startups ainda trabalhando lá dentro, com todo o entendimento do funcionamento do hospital e dando ao programa de saúde digital um espírito de ecossistema.

Segundo ele, conseguiu-se trabalhar com os problemas reais, direcionando-os para que fossem resolvidos com o uso de inovação e de forma criativa e diferente do tradicional.

“Muitos desses projetos de inovação, digitalização e automação correm dentro da operação regular do hospital. Resolvemos trazer os projetos que poderiam ser inovadores, para estruturar e fazer a conexão com o mercado, trabalhar em ecossistema”, disse.

Segundo ele, isso fez com que os projetos crescessem de forma mais criativa.

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“A inovação passou a ser direcionada para resolver os problemas que temos, de forma que a gente possa medir essa precisão e essa evolução”.

Entretanto, ele observou que com o passar do tempo e a urgência da pandemia passando, muitos setores já não recebem mais tão bem a inovação.

Qualidade dos dados

Para o diretor clínico do Hospital Porto Dias (HPD), Diogo Dias, um dos principais avanços que a sua instituição teve durante a pandemia foi em relação à qualidade dos dados coletados e analisados. 

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“O uso de ciência de dados e Inteligência Artificial em outras indústrias foi uma ruptura. Na nossa indústria, isso precisa de uma outra ruptura, que é a estruturação e a organização dos dados que temos disponíveis, principalmente assistenciais”.

Dias contou que havia uma vontade antiga de aprimorar as bases de dados utilizando novas tecnologias, que acabava sempre sendo adiada. Porém, com o caos instalado devido à pandemia, as bases de cadastros que possuíam passaram a gerar um incômodo maior. 

“Percebemos que tinha uma coisa de baixa expectativa e acurácia do que estávamos vendo. Então, alocamos uma equipe para garantir a integridade dos cadastros e a integridade dos dados, principalmente relacionados à Covid. Dessa forma, Conseguimos construir ferramentas fantásticas que permitiram mudar o jogo.

Ele disse que a gestão correta de dados foi importante não apenas para gerenciar a situação de pacientes com Covid-19, mas toda a cadeia de suprimentos. No ponto mais crítico, chegaram a ter 100 pacientes em ventilação mecânica. Isso fez com que a organização de dados fosse essencial para dar conta.

“Além de ter os dados organizados e ferramentas na mão das pessoas, precisamos que todo mundo esteja na mesma página e use efetivamente aquelas ferramentas, o que exige um trabalho de educação continuada. É realmente um processo adicional que precisa ser incorporado no dia a dia dos hospitais”.

Sobre os palestrantes

Diogo Dias é médico e diretor Clínico do Hospital Porto Dias (HPD). Especialista em Gestão de Sistemas de Saúde pelo HCFMUSP/FGV, é responsável pelo Programa Cirúrgico do HPD e pela construção de Modelos Assistenciais que suportem Assistência à Saúde de Alta Complexidade. Também atua como CEO na Delta Innovation Hub.

Joel Formiga é country manager na MphRx. Também presta serviços de consultoria na estruturação e construção de negócios digitais em saúde e atua como professor nos cursos de pós-graduação em tecnologia na Saúde tanto do Sírio Libanês quanto do Hospital Albert Eintein. No passado, Joel Formiga teve uma carreira executiva internacional na IBM, tendo sido Diretor do Setor Público para a América Latina. Ainda dedicou quatro anos à gestão pública, liderando inovação digital em Saúde na Capital e depois no Estado de SP.

Marco Bego é diretor executivo do instituto de radiologia do InovaHC. Também atua como diretor executivo do Instituto de Radiologia do Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo. Ele é graduado em Engenharia Elétrica. É mestre em otimização e automação de processos pela Escola Politécnica da Universidade de São Paulo.

Conahp 2021

Realizado pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), o Conahp 2021 tem como proposta repensar a saúde da próxima década. Entre 18 e 22 de outubro, os principais especialistas do setor discutiram “Saúde 2030: Desafios e Perspectivas”.

Na segunda-feira, dia 18, o evento online contou com plenárias de Emmanuel Fombu e Robert Kaplan. Também houve um debate com mediação da jornalista especializada em saúde e diretora do portal Futuro da SaúdeNatalia Cuminale. Participaram: Fernando Torelly; Hilton Mancio; Leandro Reis; Manoel Peres; e Paulo Ishibashi.

Na terça, dia 19, o evento contou com um encontro sobre construção do modelo assistencial integrado que gera valor. Em outro momento, foi discutida a importância da saúde baseada em dados. Também houve debate sobre os principais gargalos para a ampliação dos planos de saúde no Brasil. Mediado por Natalia Cuminale, contou com a participação de Gabriel Portella, José Cechin e Maurício Ceschin.

Na quarta, dia 20, os destaques ficaram para a plenária sobre gestão pública na pandemia e cooperação entre público e privado , com o médico e ex-ministro Nelson Teich e o médico e professor Gonzalo Vecina, e para a plenária com o físico Fritjof Capra. Já a mesa de debates do dia, mediada por Natalia Cuminale, tratou sobre os desafios para implantação da atenção básica. Participaram Erno Harzheim, da Clínica Salute, e Miguel Cendoroglo, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Já no dia 21, o congresso teve um encontro que discutiu a transformação digital e o uso de inteligência artificial. Em outro, o tema foi tecnologia associada à força de trabalho na saúde e os desafios de usabilidade. Com mediação de Natalia Cuminale, uma mesa de debates tratou sobre as dificuldades para incorporar novas tecnologias no Brasil. Participaram Diogo Dias, Hospital Porto Dias, Franco Pallamolla, ABIMO, e Walban Damasceno, ABIMED.

Futuro da Saúde

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