Conahp 2021: “Precisamos de um projeto de informação nacional para a saúde”, diz Teich

Médico e ex-ministro participou de plenária junto do também médico e professor Gonzalo Vecina

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Conahp 2021 - Gestão em tempos de incerteza - Nelson Teich e Gonzalo Vecina

A análise de informações e a colaboração entre os setores público e privado são elementos importantes para uma boa gestão em saúde. Esses tópicos foram abordados em profundidade na tarde desta quarta-feira, 20, pelo ex-ministro Nelson Teich e o médico sanitarista Gonzalo Vecina na plenária “Gestão em tempos de incerteza e desconhecimento e a capacidade de colaboração entre os setores público e privado”, que faz parte da programação da Conahp 2021.

Em sua fala, o médico e ex-ministro Nelson Teich frisou a importância de colher e lidar com informações, não somente em situações como a de uma pandemia, mas também para a gestão em saúde de um modo geral.

Conahp 2021 Nelson Teich

“Nossa capacidade de colher informação não acompanhou a evolução do sistema. Precisamos de um projeto de informação nacional para a saúde e ele precisa integrar o sistema público e suplementar. A única coisa que pode ajudar no direcionamento do sistema é a informação, porque ela vai permitir que você enxergue o que está acontecendo”.

Entretanto, ele diz que a falta de informação não ocorre por falta de vontade, mas por falta de competência. “Informação é uma das coisas mais difíceis de obter”, ressaltou. 

Nelson Teich também frisou a importância da velocidade da informação. Em uma situação de pandemia, o sistema tem que ter capacidade de gerar informação rápida. Quando a Covid-19 surgiu, não se conhecia a doença, que não tinha tratamento nem prevenção. 

“A Covid trouxe sobrecarga para o sistema, realçou as fragilidades. Nenhum sistema está preparado para sobrecarga. Não tem recurso financeiro para ociosidade. Por isso, tem que trabalhar com a maior eficiência possível”.

Sistema de saúde

Teich falou ainda sobre o problema da sobrecarga do sistema também em outras áreas da saúde, já que todas as atenções foram para a Covid-19. Ele lembrou que houve cerca de 200 mil mortos no Brasil pelo coronavírus em 2020. Entretanto, outras 1,3 milhão de pessoas também morreram, e não houve atenção às causas disso.

“A mesma ineficiência que vimos já existia em relação a outras doenças, mas isso foi se acomodando de uma forma que não agride as pessoas”, disse.

Segundo ele, ninguém consegue se preparar para uma pandemia quando ela surge. Por isso, ou se tem um sistema eficiente, ou não consegue se adaptar. 

“A gente não aprendeu com a Covid. O sistema teve melhoras, mas ainda é muito próximo do início da pandemia”, avaliou Teich. “O sistema não está melhor preparado. Tem que entender o que a Covid-19 mostrou para a gente e ajustar isso para novas pandemias. Fazer com que o sistema seja mais eficiente para todo mundo”, completou.

Teich disse falou que a Covid trouxe uma percepção da incerteza da informação. Isso porque se vê que até mesmo dados de eficácia de uma mesma vacina são totalmente diferentes em dois países. Ou até mesmo a mesma vacina, no mesmo lugar, com resultados diferentes dependendo da época. 

O ex-ministro também disse não acreditar que o país esteja preparado para lidar com uma possível nova variante que ponha em risco os avanços conquistados pela vacinação.

“Preparação é a capacidade de rapidamente reduzir a transmissão. Um gestor tem que mapear os possíveis cenários. A doença não está 100% controlada, e chance de uma nova onda acontecer é pequena. Mas, se acontecer, tem que estar preparado para isso. E não me parece que se tem preparação para isso”, disse Teich.

Iniciativas entre setor público e privado

Em sua fala, Gonzalo Vecina concordou com a questão da informação abordada por Teich e falou da importância das iniciativas entre o setor público e privado. 

Conahp 2021 - Gonzalo Vecina

“Administrar é a capacidade de mobilizar recursos para atingir objetivos”. 

Entretanto, para ele, com o estado tudo é mais difícil. “Não se compra, se licita. Não se contrata, se concursa. É um tempo imenso. Precisa usar a capacidade da iniciativa privada”, avaliou.

Gonzalo Vecina explicou que público não é o que é estatal. “A saúde é pública, seja feita pelo estado ou pelo setor privado. O setor privado fazer algo no lugar do setor estatal é privatização? Na minha opinião não é. Mesmo se tiver lucro”.

Sobre regulação, ele disse que muitas vezes quem é regulado se sente asfixiado e que é contra a regulação excessiva. Entretanto, afirma que muita gente do setor farmacêutico reclama da Anvisa, mas prefere com a Anvisa do que sem.

Já sobre a pandemia, Gonzalo Vecina falou sobre os erros e criticou o governo do presidente Jair Bolsonaro. “Não trabalhamos o principal princípio da saúde pública de isolar pacientes que podiam transmitir uma doença, que tudo indicava que era infecto-contagiosa. Já se sabia que o isolamento era necessário. A doença ficou à vontade porque a hipótese do líder era essa: quanto mais casos, mais rápido a gente vai sair dessa doença”, disse. 

Para Gonzalo Vecina, a tecnologia é a resposta para lidar com o problema de falta de verba. “A crise não acabou. Há tempo de aprender e de usar a tecnologia que estamos construindo, como o Machine Learning e Database. Dados sobre saúde populacional utilizando essas tecnologias são essenciais, mas precisamos aprender a usar. Algumas instituições têm esse conhecimento, mas precisamos levar isso para a frente”.

Sobre os palestrantes

Gonzalo Vecina é médico e professor da Faculdade de Saúde Pública da Universidade de São Paulo (FSP/USP) desde 1988. Mestre em Administração pela EAESP/FGV, foi  fundador e presidente da Anvisa de 1999 até 2003. Também já atuou como secretário municipal de Saúde de São Paulo e como CEO do Hospital Sírio-Libanês. É coautor, com Ana Malik, do livro Gestão em Saúde, da editora GEN, já na segunda edição. 

Nelson Teich é ex-ministro da Saúde, oncologista e consultor na área da saúde. É mestre em Economia da Saúde pela Universidade de York, no Reino Unido, tem MBA em Gestão de Saúde pela Universidade Federal do Rio de Janeiro e é membro do board do Brazilian Journal of Health Economics. Também é colunista do Futuro da Saúde.

Conahp 2021

Realizado pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), o Conahp 2021 tem como proposta repensar a saúde da próxima década. Entre 18 e 22 de outubro, os principais especialistas do setor discutem “Saúde 2030: Desafios e Perspectivas”.

Na segunda-feira, dia 18, o evento online contou com plenárias de Emmanuel Fombu e Robert Kaplan. Também houve um debate com mediação da jornalista especializada em saúde e diretora do portal Futuro da SaúdeNatalia Cuminale, com a participação de: Fernando Torelly, Hcor; Hilton Mancio, Tacchini Sistema De Saúde; Leandro Reis, Rede D’Or São Luiz; Massanori Shibata Junior, Grupo NotreDame Intermédica; Manoel Peres, Bradesco Saúde e Mediservice; e Paulo Ishibashi, Americas Serviços Médicos.

Na terça, dia 19, o evento contou com encontros sobre construção do modelo assistencial integrado que gera valor e importância da saúde baseada em dados. Também houve debate sobre os principais gargalos para a ampliação dos planos de saúde no Brasil. Mediado por Natalia Cuminale, contou com a participação de Gabriel Portella, José Cechin e Maurício Ceschin.

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