Conahp 2021: “Temos que cuidar dos dados da mesma maneira que cuidamos dos nossos pacientes”, diz Guilherme Salgado

CEO do Grupo 3778 participou de plenária de abertura do quarto dia do Conahp 2021 junto a Antonio Marttos, Miguel Lago e Priscila Cruzatti.

               
139
Conahp 2021

A plenária de abertura do quarto dia do Conahp 2021 abordou a transformação digital e o uso de inteligência artificial no Brasil. Participaram o cirurgião da Universidade de Miami, Antonio Marttos, o CEO do Grupo 3778, Guilherme Salgado, o diretor-executivo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IPES), Miguel Lago, e a gerente de Inovação e Saúde Digital do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Priscila Cruzatti.

O médico Antônio Marttos foi o primeiro a ter a palavra. Ele disse que desde que se mudou para Miami, no ano de 2004, teve o privilégio de acessar projetos e pesquisas, ajudando no desenvolvimento de tecnologias. 

Vantagens da tecnologia na saúde

Para ele, a tecnologia na saúde é uma forma de levar o conhecimento padronizado ajudando hospitais em locais remotos, comunidades afastadas e carentes, onde, muitas vezes, há apenas um médico ou nenhum. Assim, nessas situações é possível até mesmo levar a esses locais isolados acesso a um especialista. Segundo ele, se usa a tecnologia para realmente mudar a qualidade de saúde em todo o país.

“Vejo a tecnologia como uma forma muito importante no dia a dia dos hospitais e das equipes de saúde. Não vejo a tecnologia como forma de limitar a atividade de saúde ou do médico nem como forma de substituir o médico. Mas vejo a tecnologia e a inovação como forma de dar mais suporte. É uma ferramenta para ajudar na diminuição de erros, na identificação de problemas mais precocemente, e também no fornecimento de mais acesso aos pacientes”, explicou. 

Ele citou então as possibilidades de consultas remotas podem acontecer. Além disso, falou sobre a capacidade monitorar o paciente em casa com os equipamentos adequados. Dessa forma, em relação a um paciente crônico com diabetes, por exemplo, é possível que os profissionais de saúde monitorem a curva glicêmica e possam intervir antes que o caso fique crítico e que o indivíduo precise ir ao pronto-socorro. 

Conahp 2021

“Tecnologia é uma ferramenta para ajudar profissionais de saúde e hospitais a terem controle de qualidade”, completou.

Qualidade

Assim, ao seguir marcadores de qualidade, cria-se a possibilidade de entender melhor a situação de cada setor dentro de um hospital. Ou seja, pode-se intervir para diminuir casos de infecção hospitalar e melhorar a comunicação com a família.

O objetivo, segundo ele, é usar tecnologia para levar conhecimento e qualidade a toda a rede hospitalar, em pontos remotos do Brasil e também conseguir melhorar o tratamento de pacientes em todos os locais do país.

“Muitas mudanças virão. Muitas tecnologias estão sendo desenvolvidas e cada vez mais o tempo para a mudança será mais rápido. Temos que estar adaptados para isso e temos que usar a revolução da tecnologia para ajudar a melhorar o tratamento para os nossos pacientes”, concluiu.

Evolução lenta e abrupta ao mesmo tempo

O segundo a falar foi Guilherme Salgado, CEO do Grupo 3778, cujas empresas reúnem Inteligência Artificial e ciência de dados para cuidar da jornada do paciente de forma integral. Ele contou que participou recentemente de um evento em Nova York sobre tecnologia onde foi repetido que a transformação digital acontece lentamente e abruptamente. 

“Em um primeiro momento, as novas tecnologias e vão evoluindo lentamente. De repente, acontece uma transformação abrupta que muda completamente o setor e os serviços”, explicou Guilherme Salgado.

De acordo ele, o grande desafio neste momento em relação ao uso de tecnologia é a qualidade do dado para o uso de inteligência artificial. Assim, a qualidade do dado é mais relevante que a quantidade. 

Conahp 2021

“Para falar de Inteligência Artificial em Saúde, precisamos falar de liderança e participação dos profissionais, mas também do cuidado com o dado. Temos que cuidar dos dados da mesma maneira que cuidamos dos nossos pacientes”. 

Dessa forma, para Guilherme Salgado, seria necessário ter uma base sólida, com modelos que cada vez mais transformam e melhoram a assistência ao cuidado, à segurança e à sustentabilidade do setor de saúde.

“Pessoas e tecnologia terão resultados melhores do que só pessoas e só tecnologia. É um ponto muito claro em saúde. Precisa, com o paciente no centro, usar a tecnologia e tomar conta dos nossos dados e do nosso arsenal de ferramentas digitais da mesma forma que a gente quer cuidar dos nossos pacientes, seja no público ou no privado”, enfatizou Guilherme Salgado.

Transformação digital e SUS

O terceiro a falar foi Miguel Lago, que é diretor-executivo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IPES). Segundo ele, o Brasil tem ambição muito grande, já que é o único país do mundo com mais de 100 milhões de habitantes a oferecer saúde universal e gratuita a todos os cidadãos. Entretanto, ao mesmo tempo, investe apenas 4% do PIB em saúde pública, enquanto países europeus com menos de 100 milhões de habitantes muitas vezes investem cerca de 7% do seu PIB em saúde pública. 

Conahp 2021

“A questão da transformação digital no setor da saúde é uma necessidade para sobrevivência do nosso sistema público de saúde”.

Ele defendeu que o SUS já faz muito bem o atendimento de atenção básica. “O que precisa para tornar o SUS mais eficiente é que a atenção básica seja mais resoluta. A tecnologia é uma transformação digital que seria fundamental para contribuir com esse aumento de resolutividade da atenção básica”, avaliou.

Digitalização x transformação digital

Quarta a expor, a gerente de Inovação e Saúde Digital do Hospital Alemão Oswaldo Cruz, Priscila Cruzatti, falou sobre a diferença entre digitalização e transformação digital. 

Conahp 2021

“A transformação digital não significa simplesmente digitalizar os processos que acontecem no dia a dia. Transformar eles em eletrônicos, sem mudar nada, não é transformação digital”, explicou.

Para explicar, usou o exemplo das mudanças bancárias dos últimos anos, com novas formas de fazer movimentações financeiras, inclusive por aplicativos de troca de mensagens. “São novas formas de se fazer. O mundo digital torna possível coisas diferentes. 

Priscila também explicou o conceito de saúde digital. Segundo ela, “significa transformação cultural de como as tecnologias disruptivas que fornecem dados digitais sejam acessíveis a cuidadores e pacientes, levando a uma relação médico-paciente de igual nível, com a tomada de decisão compartilhada e a democratização  do atendimento”. 

Barreiras para a transformação digital

De acordo com Priscila, algumas barreiras para se avançar na transformação digital são custo, infraestrutura, conflitos entre os interesses e desafios regulatórios. Mas a principal questão, segundo ela, é o fator mudança. “Pessoas adoram novidades, mas mudar é difícil”.

Para transpor essas barreiras, seria preciso focar mais nos pacientes e nos profissionais de saúde e nas suas reais necessidades. 

“O grande pulo para a transformação digital da saúde é quando conseguimos conversar, trabalhar em conjunto e ter no centro da mesa o que realmente importa. Aí sim teremos chances de transpor os demais desafio”.

Priscila disse ainda que apesar de estarmos falando do aspecto digital da transformação, isso vai impactar no que se entende atualmente como equipe de profissionais de saúde. Isso porque são eles que realmente atuam no setor de saúde. Assim, está sendo criado um novo mercado para outros profissionais de outros segmentos especializados na saúde para darem suporte. E os profissionais de saúde estão se apropriando também desse conhecimento para conseguirem interagir e construir. 

“A gente vai ter uma equipe multidisciplinar, mais ampla, com outras áreas que ainda não são tão óbvias. Acho que isso é muito interessante para quem gosta de novidade, de aprender outras coisas, vai ser forma de poder expandir. Não é um trabalho individual, é um trabalho em grupo, que vai trazer novos saberes”, concluiu.

Prontuário eletrônico

Os palestrantes falaram também sobre o futuro do prontuário eletrônico. Para Antônio Marttos, nos Estados Unidos inicialmente houve uma grande resistência dos médicos em relação a esse tipo de implementação. “É uma mudança cultural. Haverá uma barreira cultural inicialmente, mas só vai dar certo se mostrar que funciona”, disse.

Para Guilherme Salgado, a curto prazo o prontuário eletrônico deverá continuar sendo utilizado mais como local de registro do que como uma fonte realmente de interoperabilidade e conexão. E não apenas por motivo cultural, mas também pela necessidade de investimento em infraestrutura. Isso porque esses sistemas não foram pensados originalmente para interoperabilidade. 

“A gente fala em mineração de dados. A própria palavra mineração já mostra a dificuldade”, disse. 

Entretanto, ele diz que os próprios prontuários já estão se modificando para trazer novos produtos com algum grau de interoperabilidade. Isso estaria aparecendo mais como um novo produto do que como um prontuário em si. 

“Já se tem tecnologia para fazer a interoperabilidade. A questão não é a capacidade tecnológica. Mas, por outro lado, tem o investimento e a questão cultural. Desde a coleta até o uso e o compartilhamento de verdade”, avaliou. 

Miguel Lago concordou que a interoperabilidade é fundamental. Porém, disse que o maior desafio é o engajamento dos profissionais de saúde em relação ao seu preenchimento. 

Dados centrados no paciente

Mais cedo, em sua fala inicial, ele havia dito que uma grande vantagem do Brasil frente a outros países é que já temos um prontuário eletrônico presente em mais da metade dos municípios. Entretanto, além de problemas de conectividade nas Unidades Básicas de Saúde e de usabilidade e interoperabilidade do sistema, a grande questão seria que os dados não são centrados no paciente.

“Para que a gente consiga ganhar em eficiência e ganhar em qualidade, precisa cada vez mais ter processos que são calcados a partir não do fornecedor de saúde nem do prestador de serviço, e sim do paciente”, afirmou. 

Já Priscila Cruzatti disse que interpreta o prontuário eletrônico como uma ferramenta ou um elemento na transformação digital. Porém, para ela, seria necessário colocar o que mais importa no centro da mesa.

“A gente acaba discutindo interoperabilidade e prontuário, mas esquece de pensar o que realmente vai atender às necessidades dos profissionais de saúde que estão atendendo aquele paciente naquele momento e ao longo do seu ciclo de vida”, enfatizou.

Assim, seria essencial pensar no que é importante para aquele paciente em relação ao dado que foi armazenado aí. Segundo ela, é preciso que pacientes e profissionais de saúde assistenciais participem desde a concepção e o desenvolvimento das soluções.

Sobre os palestrantes

Antonio Marttos é cirurgião brasileiro de trauma  e atendimento na Universidade de Miami. Também é intensivista do Hospital Jackson Memorial, também em Miami.

Guilherme Salgado é médico e empreendedor, sendo CEO do Grupo 3778. As empresas do grupo reúnem Inteligência Artificial e ciência de dados para cuidar da jornada do paciente de forma integral.

Miguel Lago é diretor-executivo do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IPES). Fundou e presidiu a rede de mobilização Meu Rio e o Nossas, laboratório referência em civic-tech na América Latina. 

Priscila Cruzatti é gerente de Inovação e Saúde Digital do Hospital Alemão Oswaldo Cruz. Tem experiência de mais de 10 anos na área hospitalar e de saúde. Gerenciou projetos para Secretaria Municipal de Hospitalar de São Paulo, International Finance Corporation, UCB Pharma, Hospital das Clínicas, entre outros.

Conahp 2021

Realizado pela Associação Nacional de Hospitais Privados (Anahp), o Conahp 2021 tem como proposta repensar a saúde da próxima década. Entre 18 e 22 de outubro, os principais especialistas do setor discutiram “Saúde 2030: Desafios e Perspectivas”.

Na segunda-feira, dia 18, o evento online contou com plenárias de Emmanuel Fombu e Robert Kaplan. Também houve um debate com mediação da jornalista especializada em saúde e diretora do portal Futuro da SaúdeNatalia Cuminale. Participaram: Fernando Torelly; Hilton Mancio; Leandro Reis; Manoel Peres; e Paulo Ishibashi.

Na terça, dia 19, o evento contou com um encontro sobre construção do modelo assistencial integrado que gera valor. Em outro momento, foi discutida a importância da saúde baseada em dados. Também houve debate sobre os principais gargalos para a ampliação dos planos de saúde no Brasil. Mediado por Natalia Cuminale, contou com a participação de Gabriel Portella, José Cechin e Maurício Ceschin.

Na quarta, dia 20, os destaques ficaram para a plenária sobre gestão pública na pandemia e cooperação entre público e privado , com o médico e ex-ministro Nelson Teich e o médico e professor Gonzalo Vecina, e para a plenária com o físico Fritjof Capra. Já a mesa de debates do dia, mediada por Natalia Cuminale, tratou sobre os desafios para implantação da atenção básica. Participaram Erno Harzheim, da Clínica Salute, e Miguel Cendoroglo, do Hospital Israelita Albert Einstein.

Já no dia 21, além deste encontro com Antonio Marttos, Guilherme Salgado, Miguel Lago e Priscila Cruzatti, também merece destaque a plenária que discutiu a tecnologia associada à força de trabalho na saúde e os desafios de usabilidade. Com mediação de Natalia Cuminale, uma mesa de debates tratou sobre as dificuldades para incorporar novas tecnologias no Brasil. Participaram Diogo Dias, Hospital Porto Dias, Franco Pallamolla, ABIMO, e Walban Damasceno, ABIMED.

Futuro da Saúde

Futuro da Saúde é a mídia oficial do Conahp 2021. Acompanhe a cobertura dos principais painéis aqui, nas redes sociais do Futuro da Saúde (Instagram e  Linkedin). Você também pode assinar a nossa newsletter se quiser acompanhar os conteúdos do portal.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui