Como o nosso cérebro conta o tempo?

O cérebro é capaz de moldar o conhecimento pregresso e imaginar tanto o passado remoto como o futuro, com base na ciência e nas experiências vividas

197

Muitas vezes é difícil nos situarmos com precisão sobre fatos e eventos, mas apesar disto, como foi que nós humanos nos enfiamos nesta armadilha cognitiva que é contar o tempo?

Há  duzentos mil anos, os Homo Sapiens coletavam e caçavam alimentos, e agregavam em seus grupos um maior número de indivíduos se comparados às demais espécies de Homo  que viviam neste período.

Por serem mais evoluídos cognitivamente, geralmente levavam vantagem sobre os outros e, quando se encontravam, os aniquilavam ou  os absorviam como parte do grupo, conforme citações de livros como Sapiens de Yuval Noah Harari e Neandertal de Francois Savatier.

Nossos ancestrais foram se fixando a terra e aprendendo a cultivá-la, passando de coletores a agricultores há  12.000 anos. Nesta época adotam a prática de contar o tempo, pois a semeadura e a colheita dependiam disto.

Pronto, a armadilha estava montada e desde então vivemos atrás de sóis, primaveras e outonos, anos, meses, minutos e segundos!

Desde as civilizações pré-colombianas, passando pelos pensadores gregos, como Platão , Aristóteles,  os humanos entendiam o tempo como um fenômeno cíclico da natureza, assim como as marés, estações do ano, dia e noite entre outros e  consideravam estes fenômenos como circulares, símbolo da forma da perfeição, adotado pelos gregos. É bom citar que os egípcios e babilônios, também viam o tempo de forma cíclica, seja pelo ciclo de cheias e vazantes do rio Nilo, seja pelas festas de ano novo no solstício de primavera na Babilônia, atual Iraque.

A religião inicialmente reforçava a ideia cíclica, com semana de 7 dias  (tempo da criação do mundo), as datas dos cultos ( domingo) e festas ( páscoa, natal entre outras) , mas paradoxalmente foi a mesma religião através  do cristianismo que mudou a  forma cíclica de entender o tempo para a forma linear.

Isto ocorre no momento em que  Constantino em 321 d.C. , torna a  data da crucificação de Cristo fixa e os eventos a partir de então seriam contados temporalmente, tendo este evento como referência. Os fatos passam a ser considerados, como ocorrendo antes ou depois de Cristo.

Estava criada a ideia de linearidade do tempo!

Desde então  a angústia do homem de conviver com o  pensamento sobre o infinito bem como com a  dificuldade neural de processar e catalogar fatos de forma exata em seu cérebro, passam a criar um novo desafio, entender o que é o tempo!

O cérebro e a fantástica máquina do tempo

Como o nosso cérebro processa a função tempo e como convive com esta variável no nosso cotidiano pós-moderno?

Esta maravilhosa máquina biológica permite que nós, os humanos sejamos os únicos a termos a capacidade de reconstruir e imaginar o passado, assim como  projetar o futuro. Podemos moldar o  conhecimento pregresso e imaginar tanto o passado remoto como o futuro, com  base na ciência e nas experiências vividas.

Esta capacidade passa necessariamente por uma área cerebral denominada neocórtex. É a camada do cérebro que se desenvolveu mais recentemente nos mamíferos. No ser humano, isto ocorreu há cerca de 1 milhão de anos.

Quanto mais cheio de reentrâncias cerebrais, mais evoluído é o animal, tanto que no rato o neocórtex é praticamente liso e nos humanos atinge o maior nível de reentrâncias, chamados também de giros cerebrais.

O neocórtex aloja-se principalmente no lobo frontal e é responsável pela capacidade que temos de planejar e agir racionalmente.

É o que nos coloca no topo da cadeia evolutiva. Esta condição nos possibilita planejar o futuro, como, por exemplo, imaginar e executar, com todo grau de dificuldade, o projeto espacial, a construção das mais fantásticas máquinas e soluções para a convivência social. 

Nos permite também datar adequadamente sítios arqueológicos e montar o quebra-cabeça da história da humanidade.

O lobo frontal  de nossos cérebros possibilita que cientistas do presente e do passado, como Leonardo da Vinci, assim como escritores e visionários como Júlio Verne, criem estórias de ficção maravilhosas, que muitas vezes, se não de modo completo, podem tornar-se realidade.

Neste momento de nossa evolução o cérebro humano é a única máquina que nos permite viajar no tempo.

Quem sabe um dia isto se materialize. Imaginemos  que andar de avião era algo impensável para um camponês da Idade Média.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor insira seu comentário!
Digite seu nome aqui