Cobertura vacinal: por que as taxas de vacinação estão caindo?

Sociedade Brasileira de Infectologia lançou campanha para conscientizar a população sobre a importância da imunização mesmo em tempos de pandemia

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A Sociedade Brasileira de Infectologia lançou no fim de setembro uma super campanha para conscientizar a população – não apenas ela, mas a sociedade médica também – sobre a importância da imunização mesmo em tempos de pandemia. Os dados dos últimos anos no Brasil mostram que a nossa cobertura vacinal, que sempre foi um exemplo para o mundo inteiro e era motivo de orgulho, com coberturas acima de 95%, vem progressivamente caindo.

Achar que só a pandemia está afetando a cobertura vacinal não é verdade. É claro que isso contribuiu para que as pessoas saíssem menos de casa e atrasassem algumas vacinas, mas agora que há uma retomada, é fundamental que a gente se conscientize da importância dos calendários vacinais. E quando falo de calendário vacinal, não é apenas para crianças, mas também de adolescentes, adultos, idosos, gestantes, profissionais de saúde e demais situações especiais.

Vou explorar alguns motivos para nossas coberturas vacinais estarem mais baixas – e isso não é só no Brasil, há uma tendência mundial nessa queda. Um deles é porque a gente tem um cardápio de vacina fantástico, maravilhoso. Temos um número muito grande de imunobiológicos que podem prevenir várias doenças, inclusive de algumas que já eliminamos. Aqui um parêntese: eliminar significa que em determinada região conseguimos controlar e zerar o número de casos. Erradicar significa que zeramos no globo todo.

Como exemplos, em erradicação a gente pensa em varíola, lá no passado, enquanto em eliminação pensamos no sarampo, que conseguimos até o ano 2000 nas Américas e no Brasil viver em “lua de mel”. Isso durou alguns anos, mas devido à diminuição dessa vacinação de várias faixas etárias, infelizmente tivemos a ressureição do sarampo, uma doença potencialmente grave que pode ser fatal, em especial nas crianças.

Outro motivo da redução da cobertura vacinal é que mais de 50% das mulheres brasileiras hoje trabalham fora e, com isso, o tempo que elas têm para levar seus filhos nos postos de vacinação – e são 38 mil postos no Brasil – coincide com o horário de trabalho, pois estes locais estão abertos das 8h às 17h de segunda a sexta-feira. Então ela acaba tendo que perder um dia de trabalho para levar seu filho para tomar vacina.

Além disso, as fake news têm atrapalhado bastante. Temos redes sociais com informações brilhantes, riquíssimas, mas também temos a disseminação de notícias falsas que muitas vezes complicam. Para aquelas pessoas que estão na dúvida, que hesitam sobre a importância da vacinação, se elas recebem uma mensagem, uma fake news, falando alguma inverdade, como colocação de chip pela vacina ou uma vacina causando outras doenças – e não é questão de não ter comprovação, mas sim uma informação mentirosa –, essas pessoas acabam não indo tomar as vacinas.

Outro ponto é que muitas mães perguntam aos pediatras sobre doenças, por exemplo, a difteria. Só que um pediatra de 40 anos para baixo nunca viu uma difteria, então como ele tem percepção da gravidade de uma doença que não está no dia a dia dele? É diferente de meningite, que todos nós temos essa percepção sobre a gravidade, mas a difteria também pode matar. Só que graças ao sucesso da vacinação não vemos mais difteria. Precisamos lembrar, contudo, que o Corynebacterium diphtheriae, que é o causador da difteria, ainda circula na Venezuela, Haiti, Guianas, ou seja, temos sim o risco da reintrodução dessa bactéria no nosso meio caso a gente realmente não preste atenção nas nossa cobertura vacinal.

Outra causa é a falta de campanha. Quando foi a última campanha de fato nacional, bem-feita, envolvendo a população, o público-alvo, falando nas redes sociais sobre isso? Temos que usar hoje toda a parte de mídia digital a nosso favor. E isso a gente não tem visto, não vemos campanha de vacinação. Tudo bem, teve o Covid-19, mas nem por isso temos que deixar de lembrar do resto, porque na hora que você retoma, imagina toda essa população voltando a frequentar escolas, voltando ao trabalho? Essa população volta muito mais vulnerável, suscetível a essas doenças.

Então a ideia da SBI é criar de forma inédita uma campanha de conscientização. É para lembrar que as gestantes têm vacinas que são para o bem dela e seu futuro bebê, para evitar prematuridade, doenças graves – agora com o Covid-19 vimos muitas gestantes com doença grave. É para lembrar que os idosos têm calendário próprio. Que adultos e adolescentes também.

A campanha nasceu realmente para resgatar a importância desse tema, fazer esse alerta de que as pessoas podem não estar tão atentas e sensibilizar os próprios médicos, não só os infectologistas, mas também de outras áreas, sobre a importância da imunização e falar isso com seus pacientes. Há estudos que mostram que quando médicos indicam uma vacina, a tendência de que o paciente de fato a tome aumenta muito.

Temos esse poder da comunicação e do esclarecimento e temos que exercer isso para a saúde de todos. No tempo em que a gente vivia sem vacinas, a expectativa de vida era de 43 anos, porque a mortalidade infantil era muito alta. Esse fato mudou completamente com o advento das vacinas. Isso, aliado aos antibióticos e à água potável, são as três medidas de saúde pública que tiveram maior impacto na história da humanidade.

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