Cloroquina é a solução para combater o coronavírus?

O Ministério da Saúde incluiu a cloroquina e a hidroxicloroquina no protocolo de tratamento para pessoas com sintomas leves de covid-19

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Era uma vez um país enorme, com um povo caloroso, feliz, mas com uma grande desigualdade social. Um belo dia, em meados de março, logo depois do Carnaval – a festa mais esperada pelo tal povo brasileiro – as autoridades de saúde tiveram a notícia da chegada de um vírus. As pessoas se preocuparam. Muitas se trancaram em casa. Muitas perderam o emprego. Muitas ficaram doentes. Muitas morreram. Eis que o presidente da República concluiu que um remédio mágico, a cloroquina, pode curar a população. Não pensou duas vezes e pediu para o exército fabricar mais comprimidos. Parte do povo brasileiro, com vontade de se curar e com a necessidade de se sentir protegido no meio do caos, apoiou. Afinal, quem não quer que tudo volte logo ao normal? Os remédios foram então autorizados pelos militares, que comandam a saúde. E a população se curou. O Brasil foi o primeiro país do mundo que apostou na solução mágica e conseguiu sair da crise. O país decolou, as pessoas ficaram saudáveis e todos foram felizes para sempre.

Como queria que essa historinha fosse verdade. Acho que todos queriam. Ontem fui dormir pensando como falaria sobre a cloroquina/hidroxicloroquina aqui. Fiquei pensando em explicar os estudos científicos. Pensei em apontar o número de pesquisas realizadas ao redor do mundo com outros remédios. O resumo de tudo é: não há até o momento evidência consistente do benefício do uso dessa medicação para covid-19. Isso já foi dito pela Organização Mundial da Saúde; em um documento assinado por diversos pesquisadores; e admitido pelo próprio presidente da República em seu Instagram ontem – “ainda não existe comprovação científica”. Pelo contrário: o que já foi apontado foi o risco de efeitos colaterais como arritmias, que podem ser fatais.

Bolsonaro e Trump resolveram apostar na cloroquina/hidroxicloroquina como potencial resposta ao coronavírus. Nos EUA, nem mesmo Trump, apesar de ter dito recentemente que toma o medicamento, defende mais a cloroquina com tanto empenho. Aqui no Brasil, faltam dados oficiais da utilização da cloroquina, mas muitos hospitais já o utilizam em protocolos de pesquisa que estão em andamento. Há também relatos de médicos particulares receitando o medicamento para casos leves. Pessoas que guardam caixinha em casa, caso seja necessário. Temos até briga na internet entre cloroquiners x ciência.

Agora já foi. O protocolo foi divulgado e quem tiver sintomas leves poderá receber o remédio mediante a assinatura de um termo de consentimento. Será preciso fazer uma análise cautelosa depois. É só fazer uma conta simples: 80% dos infectados apresentam a forma leve ou moderada da doença, segundo dados científicos, e melhoram sem necessidade de intervenção. Se todas essas pessoas receberem a combinação do medicamento e melhorarem, significa que a cloroquina as curou? Ou elas melhoraram sozinhas? Sem pesquisa, impossível saber.

Há um cenário que pode levar para um final de filme de terror. E se as pessoas que tomam o medicamento não se beneficiam e, na verdade, sofrem com efeitos colaterais? E se as pessoas se sentirem mais seguras com o medicamento e diminuem os cuidados para não transmitir o vírus? E se os cientistas descobrem outra solução mais interessante, mas deixamos de prestar atenção nisso porque estamos focados no uso de outro medicamento? E se estamos gastando recursos públicos, já escassos, com o medicamento errado? Esse é um conto com vários finais alternativos – e nenhum deles parece bom.

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