Clínicas populares querem ser a “terceira via” da saúde

Clínicas populares querem ser a “terceira via” da saúde

O Brasil conta atualmente com 49,8 milhões de beneficiários de […]

By Published On: 24/08/2022
Clínicas populares ampliam negócios e buscam atender órfãos dos planos de saúde e do SUS.

O Brasil conta atualmente com 49,8 milhões de beneficiários de planos de saúde, de acordo com o último dado divulgado pela Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), no início de agosto. Isso representa 23,5% da população. O restante, mais de 160 milhões de pessoas, conta com o sistema público. No entanto, com um orçamento abaixo do necessário para garantir atendimento de forma rápida e integral, o Sistema Único de Saúde (SUS) acaba deixando parte da população desassistida. Esse é o público-alvo das clínicas populares.

Essas empresas vêm ganhando cada vez mais força no Brasil justamente pelo vácuo deixado pelas operadoras e pelo SUS. Com a promessa de realizar exames e consultas a preços baixos, em média 100 reais, esse modelo começa a expandir seus negócios com aumento dos serviços oferecidos – inclusive com vacinas e cirurgias -, possibilidade de franquias e até criação de novas marcas.

Muito popularizada no sudeste do país pelo dr. consulta, hoje as clínicas populares ganham novos concorrentes, como o AmorSaúde e o Acesso Saúde, que juntas somam mais de 400 unidades ao redor do Brasil. Contudo, existem diversas críticas que rondam esse mercado. Uma delas é sobre a falta de continuidade do cuidado, já que está atrelado ao serviço pago pontualmente. Outra, recai sobre os “cartão de desconto”, pacotes de atendimentos oferecidos por essas clínicas, proibidos pela regulamentação do Conselho Federal de Medicina (CFM).

Clínicas populares no vácuo do SUS

“As clínicas populares têm proliferado no vácuo do SUS, no espaço que a saúde pública não tem conseguido dar conta das necessidades da população. Muitas pessoas utilizam essas clínicas para acessar alguns métodos diagnósticos que têm fila e não são tão caros, e entregam ao médico do SUS”, explica Rosana Onocko, presidente da Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco).

Consultas com médicos especialistas também é uma das vertentes mais procuradas pela população nessas clínicas, que têm dificuldade em ter acesso pelo sistema público, seja pela alta demanda ou falta de profissionais em diversas regiões do país. Onocko acredita ser compreensível a busca, mas alerta que a falta de integralidade no cuidado é um dos principais pontos de atenção:

“À primeira vista parece uma boa solução, mas em termos sanitários é ruim. Os especialistas destas clínicas não têm articulação com a atenção primária: não dão retorno, não passam informe, cada um mexe na medicação, principalmente dos idosos. Quando você pega o caso clínico completo para ver depois, tem uma sobreposição ou excesso de medicamentos”.

Por não ter um prontuário único ou sistema integrado com o SUS e a saúde suplementar, o histórico do paciente depende de exames e prontuários que o mesmo leve na consulta, assim como o relato dele ao médico. Isso se torna um problema maior ao pensar que, diferente do sistema público ou dos planos, as pessoas só buscam as clínicas esporadicamente, sem ser a sua via principal de acesso.

Na visão da Abrasco, a solução para esse fenômeno é o fortalecimento do SUS, aumentando o orçamento necessário para prestar um serviço mais amplo a população, sem depender de soluções paliativas. “Se a gente fizer o SUS melhorar elas vão perder o nicho de mercado que ocupam. Se você pode ter um bom atendimento, com segmento, continuidade do cuidado e integralidade, por que vai pagar do bolso quando pode ter isso por direito?”, conclui a presidente.

Cartão de benefícios

Cartão de descontos ou benefícios são aqueles que, ao se associar, uma pessoa tem acesso a um número específico de consultas ou exames por um custo baixo, que em alguns casos chega a 20 reais. Por regulamentação do Conselho Federal de Medicina (CFM), as clínicas populares não podem vender esses cartões aos usuários. Entretanto, encontram brechas na lei, se associando a um parceiro ou criando uma empresa em paralelo para administrá-los.

As entidades ligadas aos planos de saúde estão entre as principais críticas do modelo, já que não são regulados pela ANS, não tem uma cobertura mínima obrigatória como as operadoras e, em casos de problemas, os usuários não podem recorrer à agência, apenas a órgãos de defesa do consumidor e à justiça.

Antonio Carlos Brasil, fundador da Acesso Saúde, uma rede de franquias de clínicas populares, acredita que as críticas são justas, mas o problema não está nos cartões de desconto, e sim na regulamentação das operadoras: “Imagina um plano de saúde oferecer consultas de especialidades, limitadas a 3 ou 4 vezes, que custe 40 reais? Eles estão sofrendo hoje em razão da amarração que ocorreu com a ANS, que limitou. Veja o tanto de operadoras antes de 1999 e hoje”.

Segundo o empresário, a obrigatoriedade de cobrir uma gama de procedimentos impede que as operadoras ofereçam planos de saúde que tenham um menor preço, que consiga atingir a camada da população que utiliza as clínicas populares, e ofereçam menos serviços. Mesmo que exista a proposta de criar planos mais acessíveis, através dos modelos ambulatoriais, depende de mudanças na regulamentação.

Criando acesso

“70% da população não tem plano de saúde e cerca de 30% possivelmente pode pagar por consultas e exames com preços mais acessíveis. Nascemos desse nicho na região metropolitana, passamos para a capital e nos transformamos em franquias”, aponta o fundador da Acesso Saúde.

A rede criada em 2006 hoje conta com 40 unidades e tem a meta de realizar 280 mil consultas e 900 mil exames em 2022, e atualmente conta com 1,735 milhão de clientes ativos. De acordo com Brasil, a empresa foi precursora no ramo e em se tornar franquia, em 2012:

“Existiam clínicas populares, mas eram consultórios de médicos aposentados em suas casas. Falar em 2006 que abriria uma clínica particular, com preço mais acessível, era loucura. Em Curitiba, 80% dos médicos dependiam da Unimed. Convidei mais de 70 médicos e apenas 10 aceitaram. Não entendiam, achavam que a conta não ia fechar”.

Ele defende que o sucesso do modelo está em ter um custo fixo com uma renda variável, e por isso não pretende expandir para outros segmentos, como hospitais ou planos de saúde. Atualmente, a empresa está focada em fortalecer a sua marca de produtos naturais, o seu programa de orientação por telefone ou vídeochamada e a proposta de novas franquias com tamanhos de 50 e 150 metros quadrados.

“Entendemos que não estamos só nos grandes centros, precisamos diminuir a localização e fazer com que aquele médico possa ter uma clínica e atender o público. O mercado, em razão da competitividade, tem muita gente hoje, mas a população ainda tem dificuldade de buscar um profissional médico”, defende Antonio.

O meio do caminho

Com 380 unidades espalhadas pelo país, a AmorSaúde é a maior rede de clínicas populares no Brasil. Seu modelo de franquias permitiu a expansão massiva, que realiza cerca de 1,2 milhão de consultas médicas por mês, além de exames e atendimentos odontológicos.

“As clínicas populares são uma terceira modalidade que veio para ficar e a tendência é crescer cada vez mais. Diversos players internacionais estão apostando em serviços de saúde e healthtechs para serem uma nova opção de acesso à população. Não só nos Estados Unidos, mas em outros países”, aponta Beatriz Brisotti, diretora de operações da empresa.

Com o tamanho da rede, a AmorSaúde já tem realizado parceria com grandes laboratórios, como Dasa, Hermes Pardini e DB Diagnósticos. Agora, está em negociação com três operadoras de saúde para ser um prestador de serviços aos beneficiários, o que pode melhorar a relação entre as clínicas e os planos de saúde.

“Hoje a relação com as operadoras está muito mais saudável. A gente vem começando a estabelecer algumas parcerias, como rede credenciadas dessas operadoras. Eles vêm nos procurando, pois dentro das clínicas temos excelentes estruturas, então tudo que temos dentro das unidades são equipamentos de última geração”, explica a diretora.

A AmorSaúde é ligada a um cartão de benefícios e seus associados representam 87% do total de consultas realizadas pela clínica. No total, 5 milhões de famílias estão incluídas, que representam cerca de 25 milhões de pessoas, de acordo com dados da empresa.

O foco no momento é entrar em cidades com menos de 100 mil habitantes e ampliar os serviços, oferecendo cirurgias eletivas, que possuem longas filas e baixa risco aos pacientes, a preços populares. Atualmente, cinco delas estão disponíveis ao público (amígdalas, catarata, hérnia, varizes e vesículas) e são realizadas em hospitais parceiros.

“As clínicas populares conseguem hoje de fato levar o acesso à saúde e democratizar a saúde a toda a população. Cada vez mais vamos ter essa vertente de crescimento desse novo modelo dessa terceira via de atendimento à saúde, porque com isso conseguimos atender às necessidades básicas da população”, conclui Beatriz.

dr. consulta e o próximo passo

Buscando deixar para trás o termo “clínica popular”, o dr. consulta mira novos objetivos para a sua rede. Com mais de 30 centros médicos entre São Paulo e Rio de Janeiro, a empresa já oferece a parte de consultas, exames e cirurgias, mas está investindo no cuidar.me, uma healthtech de planos de saúde, mirando estruturar uma rede “semi-verticalizada”. No entanto, ela ainda atua em parceria com um clube de benefícios, similar a outras clínicas populares.

“Acabamos de fazer uma rodada de investimentos de R$170 milhões e ele vem muito no sentido de acelerar e consolidar a expansão desse nosso ecossistema completo de saúde. Vem para alavancar nosso modelo assistencial, serviços prestados, linhas de cuidado, gestão de saúde. Estamos falando em acelerar nossa plataforma de tecnologia para trazer mais eficiência”, explica Bruno Reis, diretor de operações do dr. consulta.

Assim, a empresa visa a melhorar ainda mais os preços finais ao consumidor e diminuir os gastos com a saúde, controlando todas as etapas dos custos dentro do plano. O cuidar.me conta atualmente com 7 mil vidas e é um dos principais focos da companhia. De acordo com Reis, o sucesso da clínica permitiu que ela tivesse o seu próprio plano de saúde.

Além disso, a chegada da pandemia de Covid-19, ainda em 2020, permitiu que a empresa criasse novos produtos, como telemedicina, vacinas e exames à domicílio. Houve ainda um aumento expressivo em relação à saúde mental: em 2022, houve 30% mais procura por consultas relacionadas em comparação ao ano anterior.

“Muito pela pandemia, tivemos uma conscientização das pessoas em cuidar da saúde e ter uma prevenção. É o que a gente quer: cuidar e ter muito claro essa gestão dos cuidados do paciente, e não só buscar um médico quando está doente. Tivemos alguns testes com outros planos e sempre se mostrou muito eficiente. Então sempre colocamos na mesa: por que não investirmos em um plano de saúde do dr. consulta?”, afirma o diretor.

Rafael Machado

Jornalista com foco em saúde. Formado pela FIAMFAAM, tem certificação em Storyteling e Práticas em Mídias Sociais. Antes do Futuro da Saúde, trabalhou no Portal Drauzio Varella. Email: rafael@futurodasaude.com.br

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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