Cirurgias desnecessárias, pacientes em risco

Cirurgias desnecessárias, pacientes em risco

Um estudo do Einstein sobre cirurgias de endometriose e de retirada de vesícula mostrou que, para parte dos pacientes, elas não eram o tratamento indicado

By Published On: 08/05/2024
Cirurgias desnecessárias é tema de novo artigo de Sidney Klajner

Foto: Adobe Stock Image

Quando recebe indicação para ser submetido a uma cirurgia, confiando em seu médico, o paciente acredita que essa é a melhor solução para seu problema de saúde. Nem sempre, porém, esse é o caminho que deveria ser seguido à luz das melhores práticas médicas. Cirurgias desnecessárias acontecem, expondo a riscos e trazendo sequelas que seriam evitados com um tratamento conservador e algumas vezes sem resolver o problema que levou à busca por um tratamento.

Um estudo realizado pelo Einstein apontou que, na amostra avaliada, 22,2% das cirurgias de endometriose e 13% das colecistectomias (retirada de vesícula) eram desnecessárias. O trabalho, publicado no BMJ Open Quality, analisou 430 casos de indicações dessas cirurgias entre 2020 e 2021 segundo os protocolos que o hospital adotou em seu Programa de Gestão da Pertinência do Cuidado, baseados em evidência científica e validados por grupos de especialistas da área médica e multiprofissional. Foram excluídos do estudo cirurgias de urgência ou associadas a outros procedimentos (como cirurgia de endometriose associada à remoção de útero).

O Programa, que atualmente contempla protocolos também para outros tipos de procedimentos, começou a ser concebido a partir do caso de uma paciente operada de endometriose que teve uma perfuração no intestino, evoluiu para uma infecção grave e ficou internada mais de um mês. Segundo os protocolos de avaliação de Pertinência do Cuidado criados justamente para reforçar a segurança do paciente, hoje essa cirurgia não seria realizada (pelo menos não no Einstein), pois o caso não se enquadra nas diretrizes de indicação cirúrgica conforme evidência científica e, portanto, do hospital.

Anos antes, em 2013, um programa de segunda opinião por equipe de especialistas do Einstein colocado à disposição de beneficiários de uma operadora de saúde já tinha acionado o sinal amarelo com relação às cirurgias de coluna: só no primeiro ano de funcionamento, dentre os casos avaliados, com indicação cirúrgica pela rede da operadora, 62% tinham indicação para tratamento conservador (não cirúrgico). Em relação à endometriose, os indícios de indicação cirúrgica inadequada também ocorreram em um programa de segunda opinião, em 2018, atendendo uma empresa com grande número de mulheres. Dos casos com indicação de cirurgia de endometriose analisados, só 16% tinham realmente necessidade de operação.

Segundo entidades médicas respeitadas, como a Sociedade Americana de Medicina Reprodutiva, a endometriose deve ser vista como uma doença crônica, que requer um plano de cuidado para a vida toda. A cirurgia é realmente indicada em alguns casos, como cistos no ovário com mais de 5 centímetros de diâmetro que não respondem à medicação, dor que não melhora com medicamentos, obstruções na uretra ou invasão de parte do intestino e quando a paciente quer engravidar e não consegue. Com exceção de condições como essas, o caminho mais seguro e efetivo é o tratamento conservador, com medicações e monitoramento do quadro da paciente. Até porque, após uma cirurgia de endometriose, pode haver a possibilidade de a mulher voltar a desenvolver focos.

Já no caso da vesícula não é incomum a realização de cirurgias desnecessárias em pacientes com avaliação normal do ultrassom convencional, mas que registram micro cálculos na ecoendoscopia – um exame sofisticado, caro, mas que apresenta falsos positivos. Pacientes assintomáticos e que não apresentam cálculos no ultrassom normal não precisam de ecoendoscopia e menos ainda de intervenção cirúrgica. Pode-se viver normalmente sem a vesícula, porém não faz sentido perdê-la em uma cirurgia desnecessária. Além disso, o órgão normalmente não tem nada a ver com o estufamento ou incômodos no abdômen que levaram o paciente a buscar um médico. Ou seja, depois da cirurgia inútil terá de retomar a jornada de consultas para descobrir a verdadeira causa. O raciocínio correto é simples: exame é complementar à avaliação médica. Cirurgiões não operam exames. Operam pacientes.

No programa do Einstein, casos de cirurgias que não se enquadram nos protocolos seguem para análise de um grupo de especialistas na área e, se a indicação não for validada por eles, o quadro é discutido pelo Departamento de Prática Médica diretamente com o cirurgião.

Seja pela mercantilização da medicina, seja até com a melhor das intenções por parte do médico ou da organização, o fato é que cirurgias desnecessárias, além de não trazerem benefícios aos pacientes e dos riscos associados a qualquer procedimento, mesmo os mais simples, significam custos para os sistemas de saúde.  Só as cirurgias de endometriose e remoção de vesícula evitadas no período do estudo do Einstein significaram uma economia de R$ 2,2 milhões.

O desejável seria que todas as instituições de saúde tivessem mecanismos de avaliação da pertinência dos cuidados com base nas melhores práticas e evidência científica. Mas os pacientes também podem usar suas armas para ter certeza de que o tratamento indicado é realmente o melhor para o seu caso: buscar informações em fontes confiáveis, questionar seu próprio médico e, se as dúvidas persistirem, procurar uma segunda opinião. Cirurgias e outros procedimentos desnecessários não podem ser desfeitos. Mas podem e devem se evitados.

Sidney Klajner

Cirurgião do Aparelho Digestivo e Presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Possui graduação, residência e mestrado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, além de ser fellow of American College of Surgeons. É coordenador da pós-graduação em Coloproctologia e professor do MBA Executivo em Gestão de Saúde no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein. É membro do Conselho Superior de Gestão em Saúde, da Secretaria de Saúde do Estado de S. aulo e coautor do livro “A Revolução Digital na Saúde” (Editora dos Editores, 2019).

About the Author: Sidney Klajner

Cirurgião do Aparelho Digestivo e Presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Possui graduação, residência e mestrado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, além de ser fellow of American College of Surgeons. É coordenador da pós-graduação em Coloproctologia e professor do MBA Executivo em Gestão de Saúde no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein. É membro do Conselho Superior de Gestão em Saúde, da Secretaria de Saúde do Estado de S. aulo e coautor do livro “A Revolução Digital na Saúde” (Editora dos Editores, 2019).

3 Comments

  1. Gislaine 10/05/2024 at 08:07 - Reply

    Ótimo tema abordado é um estudo que já tem efeito satisfatório tanto para os hospitais e principalmente para o paciente, tenho certeza disso.
    Parabéns! 👏👏

  2. Cassia Lopes 10/05/2024 at 16:07 - Reply

    Excelente considerações! Inclusive, ouso dizer que o mesmo raciocínio se aplica a muitos exames solicitados: desnecessários, invasivos e caros para o sistema. Precisamos de uma reeducação de profissionais de saúde e pacientes, sob o risco do sistema não se sustentar nos próximos anos (além dos riscos desnecessários ao paciente, já mencionados).

  3. Marcia Franckevicius 13/05/2024 at 16:30 - Reply

    Neste trabalho contra a doença, começamos não com interações genéticas ou celulares, mas com seres humanos. São eles que tornam a medicina tão complexa e fascinante” (Atul Gawande).
    A medicina nos ensina a valorizar cada momento e a enxergar a beleza da vida em sua fragilidade.
    Ser médico é abraçar a responsabilidade de fazer a diferença na vida de cada pessoa que cruza o nosso caminho. Daí a necessidade de ser o mais assertivo possível no tocante ás cirurgias desnecessárias. A medicina é a arte de ouvir, compreender e trazer alívio ao sofrimento. Esse é o médico verdadeiro

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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    Cirurgião do Aparelho Digestivo e Presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Possui graduação, residência e mestrado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, além de ser fellow of American College of Surgeons. É coordenador da pós-graduação em Coloproctologia e professor do MBA Executivo em Gestão de Saúde no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein. É membro do Conselho Superior de Gestão em Saúde, da Secretaria de Saúde do Estado de S. aulo e coautor do livro “A Revolução Digital na Saúde” (Editora dos Editores, 2019).

  • Isabelle Manzini

    Graduada em jornalismo pela Faculdade Paulus de Tecnologia e Comunicação. Atuou como jornalista na Band, RedeTV!, Portal Drauzio Varella e faz parte do time do Futuro da Saúde desde julho de 2023.

  • Sidney Klajner

    Cirurgião do Aparelho Digestivo e Presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Possui graduação, residência e mestrado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, além de ser fellow of American College of Surgeons. É coordenador da pós-graduação em Coloproctologia e professor do MBA Executivo em Gestão de Saúde no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein. É membro do Conselho Superior de Gestão em Saúde, da Secretaria de Saúde do Estado de S. aulo e coautor do livro “A Revolução Digital na Saúde” (Editora dos Editores, 2019).

Sidney Klajner

Cirurgião do Aparelho Digestivo e Presidente da Sociedade Beneficente Israelita Brasileira Albert Einstein. Possui graduação, residência e mestrado pela Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo, além de ser fellow of American College of Surgeons. É coordenador da pós-graduação em Coloproctologia e professor do MBA Executivo em Gestão de Saúde no Instituto Israelita de Ensino e Pesquisa do Einstein. É membro do Conselho Superior de Gestão em Saúde, da Secretaria de Saúde do Estado de S. aulo e coautor do livro “A Revolução Digital na Saúde” (Editora dos Editores, 2019).