Como os cigarros eletrônicos se tornaram uma ameaça no combate ao fumo

De acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS), o número de usuários desses dispositivos aumentou em 485% de 2011 para 2019, passando de 7 milhões de pessoas para 41 milhões.

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Como os cigarros eletrônicos se tornaram uma ameaça no combate ao fumo

Ao longo das últimas décadas, o combate ao tabagismo teve conquistas marcantes, como a proibição do fumo em lugares fechados e o fim das propagandas de cigarro, encerradas em 2001. Porém, enquanto os cigarros tradicionais passaram a ser mal vistos ao longo dos anos, os cigarros eletrônicos, com adição de sabores e com fumaça de vapor, tornaram-se atrativos, principalmente para o público jovem. “São os novos vilões do século XXI”, nas palavras da cardiologista Jaqueline Scholz, que é também diretora do Programa de Tratamento do Tabagismo do Instituto do Coração (INCOR-Hospital das Clínicas da USP).

No aspecto social, os novos produtos têm utilizado o mesmo método da versão tradicional para atrair o público “O padrão de propaganda é o mesmo: jovens, carros, velocidade, mulheres bonitas. A mesma estratégia que envolveu o cigarro é utilizada nesses novos produtos”, explica a cardiologista.

cigarros eletrônicos

Mas, para compreender a questão dos cigarros eletrônicos, é necessário relembrar do momento em que apareceram. Em 2010, passou a ser vendido como alternativa para quem gostaria de fumar nos ambientes fechados sem incomodar outras pessoas. Junto a isso, a versão eletrônica também foi associada a uma maneira de largar o hábito de fumar.

A venda de cigarros eletrônicos foi proibida no Brasil pela Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) em 2009. Além disso, a importação ou propaganda também e proibida. Mesmo assim, seu uso tem sido cada vez maior, visto que há o comércio fácil e ilegal destes produtos na internet. A Organização Mundial da Saúde (OMS) estima que o número de usuários desses dispositivos aumentou 485% de 2011 para 2019. Desse modo, passou de 7 milhões de pessoas para 41 milhões.

Queda na procura por tratamento

Com o crescimento da quantidade de usuários nos últimos anos, preocupa os especialistas a queda de 66% na procura por tratamento para parar de fumar durante a pandemia no Brasil. A informação foi divulgada neste mês pelo Instituto Nacional de Câncer (INCA) no relatório “Tratamento do Tabagismo no SUS Durante a Pandemia de Covid-19 – Resultados”. Dados do instituto apontam ainda que o tabagismo pode estar matando cerca de 162 mil pessoas anualmente. Além disso, gera um custo de 125 milhões de reais para o país.

Durante a crise sanitária de 2020, o fumo se tornou ainda mais frequente, segundo pesquisa da FioCruz. A informação coletada no primeiro semestre do ano passado indica que 30% dos homens e 38% das mulheres passaram a fumar mais de 10 cigarros por dia. Dados do Vigitel de 2019 estimam que total de fumantes com 18 anos ou mais no Brasil é de 9,8%. O hábito é visto em pelo menos 12,3% dos homens e 7,7% das mulheres.

O que desperta o vício

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Quando falamos de dependência, a primeira associação é quanto à parte química deste processo. Mas segundo a cardiologista, “o que desperta o vício é a questão social: o convívio, a permissividade, estar em uma faixa etária onde esse ato é bem visto e há possibilidade de fácil consumo”.

O critério para considerar alguém como dependente ou não de uma substância é verificar o controle sobre aquele uso. Além de se tornar refém das substâncias, o tabagismo também pode acarretar em uma série de complicações para a saúde mental e para a física. Por exemplo, o risco de ter um AVC ou infarto é duas vezes maior para os adeptos deste hábito. 

O cigarro tradicional costuma apresentar até 4 mil componentes e destes, cerca de 40 possuem potencial cancerígeno. No formato eletrônico, somam-se 100 componentes, entre eles a nicotina. “Dentre as drogas, a nicotina é a que mais causa dependência. Além do indivíduo não ter controle sobre ela, ele se sentirá mal quando tentar parar”, reforça Scholz.

O risco dos cigarros eletrônicos para as pessoas jovens

Para a neurociência, o cérebro só termina de se formar aos 24 anos. Isso quer dizer que a utilização precoce de qualquer droga contribui para um risco maior de se tornar dependente dela. “A vulnerabilidade está na faixa etária. Quanto mais restritivas as políticas públicas, fazendo com que o consumo seja feito após a maturação do cérebro, mais chances há de conseguir utilizar uma droga psicoativa e não se tornar refém dela”, explica Scholz. Com isso, há também o fato da saúde mental ser uma grande influenciadora da situação. Ansiedade, estresse, depressão e outros elementos pode aumentar a inclinação para uma dependência. Assim, a especialista conta que a aderência tem começado cada vez mais cedo, entre os 14 e 15 anos.

Scholz defende que as restrições são uma tática importante. Com a Lei Antifumo, a cardiologista viu um aumento na procura por tratamento dos jovens entre 20 e 30 anos. A especialista conta que essa é uma forma de incentivar as pessoas a tentar largar o hábito.

Antigamente, a principal motivação para parar de fumar era a limitação imposta por alguma outra doença. Porém, hoje em dia o grande objetivo é de fato sobre combater o vício, em uma tentativa de reduzir os possíveis riscos de desenvolver uma doença cardiovascular ou câncer.

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Estratégias para parar de fumar

Nos mais de 30 anos de experiência no tratamento contra o tabagismo, a cardiologista Jaqueline Scholz indica que os métodos mudaram. Existem diversos elementos para ajudar neste processo, como medicamentos, adesivos, chicletes, relógios inteligentes, psicoterapia e outros recursos. Apesar do arsenal anti-tabagismo, combater as associações que o cérebro faz também é importante.

Fumar cigarros eletrônicos ou tradicionais no sofá, no carro, tomando café, bebida alcóolica e outros são alguns dos exemplos mais frequentes de situações que podem ser um gatilho para os fumantes. No InCor, uma das estratégias para auxiliar aqueles que desejam cortar o hábito é mudar a sensação do ato de confortável para como se fosse um castigo. Isso é feito permitindo que a pessoa fume, mas somente em situações pouco confortáveis. Por exemplo, estando de pé, parado e olhando para uma parede. 

“Tirar ele dos contextos nos quais ele associou a vida inteira facilita o processo, porque o cigarro começa a ficar evidente e isso incomoda. A combinação com o medicamento impede o prazer de fumar. Com isso, fumar perde o sentido e o fumante passa a perceber que ele está no controle da situação”, explica a cardiologista.

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