ChatBots para saúde mental avançam, mas precisam de validação científica e de regulamentação

ChatBots para saúde mental avançam, mas precisam de validação científica e de regulamentação

Com o avanço da inteligência artificial generativa, ChatBots ganharam as manchetes como uma espécie de terapeuta, mas não há validação científica sobre resultados

By Published On: 27/03/2024
Uso de ChatBots para saúde mental

Foto: Creative Commons/The Tech Report

O debate em torno dos cuidados para com a saúde mental nunca esteve tão em evidência. Segundo dados da OMS, cerca de um bilhão de pessoas sofriam de algum transtorno mental em 2019, dos quais aproximadamente 300 milhões viviam com ansiedade. Com o avanço da tecnologia, em especial da inteligência artificial generativa, as pessoas começaram a recorrer aos ChatBots.

Um estudo publicado em dezembro no periódico npj Digital Medicine buscou fazer uma revisão sistemática de outras pesquisas para entender o que há de evidências científicas sobre o uso dos serviços de ChatBot para promover bem-estar. Os resultados mostraram que apenas 35 estudos elegíveis foram identificados para revisão sistemática e 15 ensaios clínicos foram incluídos para meta-análise.

O padrão ouro descrito no estudo foram os ensaios que eram rigorosamente controlados, em que os pacientes do estudo eram designados de forma aleatória para uso de serviços de conversação online. A conclusão do estudo é que os ChatBots baseados em inteligência artificial poderiam diminuir em grande escala os sintomas de depressão e sofrimento. Esses efeitos se tornam ainda mais significativos em serviços de conversação com IA Generativa dentro de aplicativos de mensagens.

Outro estudo, publicado na Nature Medicine,  mostrou que os chatbots também podem ajudar a diminuir as lacunas de acesso a serviços de saúde mental. A pesquisa em questão avaliou o impacto do uso de um chatbot, denominado Limbic Access, no encaminhamento de pacientes ao programa NHS Talking Therapies for Anxiety and Depression, um conjunto de terapias psicológicas baseadas em evidências voltadas para adultos com transtornos de ansiedade, depressão ou ambos.

O estudo analisou dados de 129.400 indivíduos que buscaram autoencaminhamento por meio de websites para 28 diferentes serviços de Terapias Conversacionais do NHS em toda a Inglaterra. Metade desses serviços incorporou o chatbot Limbic em seus sites, enquanto a outra metade optou por métodos alternativos de coleta de dados, como formulários online. Durante o período de três meses da pesquisa, observou-se um aumento de 15% nos encaminhamentos por meio dos serviços que utilizaram o chatbot Limbic, em contraste com um aumento de 6% nos encaminhamentos dos serviços que não o utilizaram. Além disso, houve um crescimento significativo nos encaminhamentos entre grupos minoritários, incluindo minorias étnicas e sexuais, quando o chatbot estava disponível.

Embora o uso seja crescente, pesquisadores e especialistas da área apontam que faltam pesquisas científicas para comprovar a eficácia e segurança – além da necessidade de regulamentação.

Exemplos de ChatBots 

Por meio de serviços de conversação e exercícios que imitam terapias convencionais praticadas por terapeutas, como a respiração pausada, por exemplo, os apps chegam ao mercado com a prerrogativa de serem “companheiros pessoais de saúde mental”. Notícias sobre a utilização do ChatGPT como “terapeutas” ganharam manchetes nos últimos tempos e empresas e aplicativos surgiram para oferecer este serviço. Contudo, circulam sem a regulação de órgãos responsáveis de saúde. 

Uma reportagem da Associated Press apurou o tema e elencou aplicativos que já trabalham nesse segmento. Um deles é o app Earkick. Com um panda como avatar, o Earkick oferece a possibilidade de rastrear o seu humor e estabelecer rotinas de saúde mental. Uma prática é medir a frequência cardíaca durante as sessões e aprender técnicas de respiração para reduzir o estresse. “Quando as pessoas chamam de uma forma de terapia, tudo bem, mas não queremos sair por aí e martelar isso”, diz a cofundadora da Earkick, Karin Andrea Stephan, para a reportagem da AP. “Nós simplesmente não nos sentimos confortáveis com isso”, explica.

O Earkick é apenas um exemplo dentre diversos aplicativos existentes. A FDA (Food and Drug Administration), órgão governamental dos EUA que controla a aprovação e fiscalização tanto de alimentos quanto de medicamentos e equipamentos médicos, não autorizou a regulamentação de nenhum desses aplicativos até o momento.  

Outro exemplo é o aplicativo Woebot. A reportagem relata que um pesquisador usou o app e disse que estava subindo um penhasco para pular, mas o ChatBot respondeu: “É maravilhoso que você está cuidando tanto da sua saúde física como da mental”. A empresa relatou à AP que não oferece aconselhamento para crises, mas sim apresenta os meios que aquela pessoa deve entrar em contato.

Apesar de não serem aprovados como aplicativos de uso médico e a própria plataforma mencionar que seus serviços não substituem ajuda profissional, especialistas da saúde julgam necessário um olhar mais atento e firme para o cenário desses apps. “Se você está realmente preocupado com as pessoas que usam seu aplicativo para serviços de saúde mental, você quer um aviso que seja mais direto: isso é apenas para diversão”, disse Glenn Cohen, da Harvard Law School, à Associated Press.

Redação

Equipe de jornalistas da redação do Futuro da Saúde.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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