Carlos Pedrotti, do Einstein: “No futuro, não vamos mais falar ‘telemedicina’. Será apenas medicina”

Carlos Pedrotti, do Einstein: “No futuro, não vamos mais falar ‘telemedicina’. Será apenas medicina”

Em maio de 2022 o Conselho Federal de Medicina (CFM) […]

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By Published On: 26/10/2022

Em maio de 2022 o Conselho Federal de Medicina (CFM) regulamentou o atendimento por meio de telemedicina em caráter definitivo, depois de idas e vindas nos últimos anos – a necessidade de isolamento social por causa da pandemia foi um fator-chave neste processo. Mas muito antes disso a tecnologia já era utilizada com o objetivo de conectar médicos para, juntos, encontrarem melhores soluções principalmente para casos emergenciais, como ressalta Carlos Pedrotti, gerente médico do Centro de Telemedicina do Einstein.

Em entrevista ao Futuro da Saúde, o especialista lembra que há 10 anos, em 2012, quando o Hospital Israelita Albert Einstein implementou a telemedicina na instituição, o uso da telemedicina era caro, desafiador e encontrava muita resistência por parte dos próprios profissionais da saúde.

No futuro, porém, na visão dele, o termo ‘telemedicina’ nem será mais usado, de tão incorporado ao sistema: “O grande próximo passo da medicina será ter o paciente como um agente mais participativo, tomando decisões sobre sua própria saúde. A telemedicina será incorporada à medicina no futuro e não falaremos mais sobre ela, será comum”. Confira os principais trechos da conversa:

Quais foram os maiores desafios encontrados ao implementar a telemedicina há dez anos?

Carlos Pedrotti – O grande problema, no começo, era a conectividade. Realizar uma videoconferência não era trivial como é agora. Hoje temos navegadores HTML que fazem isso, que tornam possível nos conectarmos como estamos fazendo agora. Antes, era preciso aplicações específicas e de um hardware utilizado nas videoconferências corporativas.

Como era essa estrutura específica?

Carlos Pedrotti – Era um servidor que ligava ponto a ponto. Tinha um endereço IP em cada ponta e cada um deles tinha um equipamento, que mandava o sinal codificado, que chegava do outro lado. Era caro, não tinha banda larga disponível e, além da estrutura complexa nos locais de conexão, ainda precisávamos fazer um treinamento da equipe de suporte técnico.

E a tecnologia já funcionava como hoje?

Carlos Pedrotti – Era parecido com o que temos hoje, mas era um médico falando com outro médico através de uma câmera. Nem se imaginava fazer contato direto com paciente. O foco era discutir casos e um médico auxiliar o outro. Por exemplo, um especialista ajudava um médico generalista em uma situação de urgência. Ou um médico mais experiente dava suporte para outro que era recém-formado.

De certa forma a telemedicina já apresentava esse caráter de ampliar o acesso desde o começo, então?

Carlos Pedrotti – Não no sentido de volume de atendimento, porque a ideia era dar conta de uma demanda já existente e melhorar os resultados dos casos. Mas no sentido de especialistas chegando a áreas remotas, isso sim. Nós tivemos a telemedicina instalada em 26 unidades de pronto atendimento em todo o Brasil, em 15 estados diferentes. Começamos, inclusive, em áreas remotas. A única questão era que a região precisava contar com serviço e sinal de internet.

Como você avalia o resultado dessa primeira fase da telemedicina?

Carlos Pedrotti – Fizemos mais de 3 mil atendimentos nesse primeiro formato. Foi um grande aprendizado. Principalmente porque havia muita resistência por parte dos médicos em lidar com aquela novidade em meio a uma rotina que era pesada. Então, no começo, o método era usado menos do que esperávamos, mesmo com visíveis oportunidades de melhoria. Com isso, nós criamos algumas condutas e protocolos que orientavam os médicos a pedir essa ajuda remota. Como os resultados foram melhorando, a procura por esse auxílio se tornou muito mais recorrente e funcionou muito bem. Os médicos do outro lado da tela perceberam que os profissionais do lado de cá – em postos fixos, na sede do Einstein, em São Paulo – não estavam ali para julgar, mas para ajudar.

Um pouco mais para frente, mas ainda antes de 2020, como estava a telemedicina do Einstein antes da pandemia?

Carlos Pedrotti – Nós já víamos que lá fora, especialmente nos Estados Unidos, o atendimento ao paciente via telemedicina estava evoluindo muito. A tecnologia já tinha avançado, tínhamos uma melhor conectividade e, em 2016, fizemos o primeiro piloto de atendimento direto ao paciente, que funcionou muito bem. Mas, na época, nós esbarramos em problemas burocráticos, como a receita digital. Embora a certificação já existisse desde 2001, não havia uma normatização de como deveria ser o trâmite. Em 2016 mesmo, o Einstein começou a desenvolver os protótipos da Receita Digital, com a emissão do ICP-Brasil – que hoje é aceito como padrão adequado para a emissão de receitas virtuais. Mesmo assim, as farmácias não aceitavam as receitas, não estavam preparadas, então tínhamos que entrar em contato, explicar, era mais trabalhoso. E a escala muito menor, de 20 a 30 casos por dia. Na pandemia, esse número aumentou para 2 mil.

Quando a pandemia chegou, você acredita que já estavam mais preparados por já estarem atuando com telemedicina há alguns anos?

Carlos Pedrotti – Esse número de atendimento só foi possível com a criação de mecanismos que automatizam esses processos e nós já havíamos automatizado alguns deles, estávamos usando uma plataforma robusta. De 2016 a 2019, o avanço foi calmo e lento, porém consistente. Em 2020, aceleramos e estávamos preparados para oferecer qualidade em escala.

Quais foram os desafios da pandemia?

Carlos Pedrotti – Logo no início da pandemia, contratamos 300 médicos em duas semanas. E tivemos que treinar todos eles no sistema e fornecer certificados. Ainda assim, a pessoa não fazia o atendimento em casa, mas aqui no hospital. Conseguimos liberar o home office alguns meses depois, quando vimos que a situação estava estável e que seria possível suportar o atendimento com menos supervisão. Mas existiam longas filas para atendimento, principalmente nas épocas de pico, como no final de dezembro de 2021 e janeiro de 2022, quando a demanda aumentou em 200% e tivemos que dobrar a equipe em pouco tempo, com escassez de médicos disponíveis. Em junho de 2022, quando houve um novo pico, nós já sabíamos como lidar e praticamente não teve mais fila.

Foi preciso desenvolver novas tecnologias nessa época da pandemia?

Carlos Pedrotti – Não, o sistema que tínhamos era suficiente. Nessa época da pandemia, a tecnologia, na verdade, nunca foi o obstáculo, mas sim os processos de atendimento, adaptar as tecnologias existentes para criar uma jornada de atendimento adequado. Uma consulta via telemedicina não é como uma chamada no WhatsApp, que é só ligar. É um fluxo de atendimento complexo, você precisa saber quem é a pessoa, se ela tem convênio médico, se é elegível para o serviço. Precisa também ter um médico, uma escala. Aí no meio da consulta a conexão caía e a pessoa que foi atendida voltava para o fim da fila. Eram problemas de processo. Sem contar a segurança. Você precisa garantir que a receita chegue ao paciente e, mais importante ainda: ter a certeza de que um paciente não vai receber a receita errada, por exemplo.

Pensando já no pós-pandemia, o que vem pela frente?

Carlos Pedrotti – Um ponto negativo da pandemia, no sentido da tecnologia, é que a crise sanitária forçou os prestadores de serviço de telemedicina a permanecerem focados em atender casos emergenciais. A meu ver, precisamos de iniciativas de acompanhamento à distância de pacientes crônicos, atenção primária, pós-alta, reabilitação e saúde mental. Agora, nosso desafio é ampliar o portfólio. Não é só telemedicina, tem que ter tele-enfermagem, telenutrição, telepsicologia, tem que englobar todos os profissionais de saúde que consigam fazer esse trabalho de forma remota.

Quais são os benefícios dessa expansão?

Carlos Pedrotti – Vai beneficiar o sistema de saúde como um todo: oferecer mais acesso, dar conforto e equidade aos pacientes, reduzir custos e até mesmo oferecer bem-estar ao profissional de saúde, que vive uma rotina muito intensa e desgastante.

A chegada de novas tecnologias, como o 5G, vai impactar a telemedicina?

Carlos Pedrotti – Estamos com expectativas interessantes para o 5G, creio que veremos inúmeras aplicações de saúde à distância. Mas, sinceramente, as principais aplicações do 5G ainda estão para ser desenvolvidas, então, para mim, o maior benefício que a tecnologia trará a curto prazo será a ampliação da malha 4G para lugares remotos, para o norte do país, escolas e estradas. O 4G já é suficiente para o atendimento que temos hoje. Como os ganhadores dos leilões de frequência, em contrapartida, precisarão investir na distribuição de conectividade, o maior ganho, por enquanto, será poder chegar a mais pessoas.

E para um futuro mais distante, qual é a expectativa?

Carlos Pedrotti – Em médio prazo, acredito que veremos a fusão do atendimento presencial e virtual, teremos uma transição fluida entre os dois modelos, otimizando as estruturas físicas hospitalares. O atendimento começará no virtual e terminará no presencial e vice e versa. Acredito, também que, em cinco ou dez anos, não vamos mais falar ‘telemedicina’. Vamos falar apenas ‘medicina’, porque essa fluidez será natural, será o padrão. Telemedicina e medicina serão uma coisa só. E, para mim, uma das próximas fronteiras da medicina será o paciente ocupar uma posição mais participativa, com inputs dele mesmo ou uso de devices inteligentes por meio dos quais será possível interagir com os dados médicos. Médico e paciente terão acesso a um mesmo prontuário universal e poderão interagir com ele e entre si, essa é a minha visão do futuro da medicina.

Ana Carolina Pereira

Jornalista formada pela Universidade Presbiteriana Mackenzie. Ao longo de sua carreira, passou por veículos como TV Globo, Editora Globo, Exame, Veja, Veja Saúde e Superinteressante. Email: ana@futurodasaude.com.br.

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NATALIA CUMINALE

Sou apaixonada por saúde e por todo o universo que cerca esse tema -- as histórias de pacientes, as descobertas científicas, os desafios para que o acesso à saúde seja possível e sustentável. Ao longo da minha carreira, me especializei em transformar a informação científica em algo acessível para todos. Busco tendências todos os dias -- em cursos internacionais, conversas com especialistas e na vida cotidiana. No Futuro da Saúde, trazemos essas análises e informações aqui no site, na newsletter, com uma curadoria semanal, no podcast, nas nossas redes sociais e com conteúdos no YouTube.

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