Carlos Marinelli, CEO do Fleury: “Nosso objetivo é ser o principal app de saúde”

Em entrevista ao Futuro da Saúde, Marinelli fala dos próximos passos da companhia, inclusive sobre o investimento em frentes além do diagnóstico, a principal área de atuação do grupo.

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Futuro da Saúde estreia em setembro uma nova seção chamada Entrevista do Mês, que trará a visão dos principais líderes e profissionais que atuam em toda a cadeia da saúde. Para a entrevista de estreia, Futuro da Saúde traz as análises e reflexões do administrador Carlos Marinelli, CEO do Fleury, uma das principais empresas do setor de diagnóstico e que está expandindo sua atuação na saúde. Durante a conversa, Marinelli revela como a covid-19 mudou – e tem mudado – a relação das pessoas com a saúde, como a cultura de inovação é importante nestes novos tempos e quais as dificuldades de ampliar a testagem no País.

Marinelli contou ainda dos novos saltos da empresa. Recentemente, o Fleury anunciou a criação do Saúde iD, um ecossistema que pretende atender todas as necessidades de saúde dos médicos e dos pacientes em um só lugar. “O celular é o centro da vida de todos nós – é o repositório de dados, de informações, é onde colocamos a nossa memória de fotos por recordações, a nossa vida financeira, a nossa agenda. Mas a nossa saúde não estava ali. Imagina o quanto você produz de dados da sua própria saúde?”. Confira a entrevista:

Como a covid-19 afetou o Fleury?

Definitivamente, tivemos um período intenso. Colocamos em teste a cultura da companhia e o seu propósito. Foi o momento de escolher caminhos e fazer as coisas acontecerem. É aí que entra a parte de inovação, experimentação e teste. Fizemos quatro anos em quatro meses. Em menos de 30 dias, desenvolvemos um portal que ficou disponível para qualquer médico do Brasil que quisesse fazer uma teleconsulta e tornar aquele espaço o seu consultório virtual. Agora, estamos em um momento diferente da pandemia e estamos desenvolvendo maneiras de conviver com a doença.

Qual foi a principal transformação?

A telemedicina permitiu que as pessoas tivessem acesso ao médico sem ter que se deslocar. Também aumentamos muito o nosso atendimento na casa dos pacientes. De um ano para o outro, houve um crescimento de cerca 70% na quantidade de pessoas que pede para que o atendimento e os exames sejam feitos em casa. Antes, não fazíamos exames de imagem em casa. Hoje, vamos com um ultrassom móvel, portátil. É como se fosse o PC, o notebook e o tablet. Foi um momento intenso, de muita inovação.

A tecnologia tem que estar disponível, mas o cliente também tem que querer usar”

É preciso ter uma cultura muito disposta à inovação? Você sentiu alguma resistência?

Absolutamente nenhuma. Todos sabiam que era necessário trazer novas respostas. É aquela máxima de que o que te trouxe até aqui não é o que vai te levar até lá. As áreas de operações perceberam que, se não mudasse, treinasse, fizesse o preparo, organizasse logisticamente, o atendimento não aconteceria da melhor forma. Além disso, teve toda a parte tecnológica. Hoje, 50% das pessoas já chegam com o check-in pronto. Quem vai fazer o exame já tirou foto da carteirinha, do pedido médico e já chega na unidade para ser atendido. Já estávamos trabalhando nisso, mas a adoção nesse momento de pandemia foi muito intensa. São duas coisas essenciais: a tecnologia tem que estar disponível, mas o cliente também tem que querer usar.

Por causa da pandemia e do lema fique em casa, muita gente deixou de procurar os hospitais e as clínicas para fazer exames de diagnóstico. A pergunta é: com toda essa inovação, você acredita que vai acontecer uma mudança na cultura?

Se você pensa em mobilidade, banco ou comida, você vai olhar para o celular. Por que quando a gente pensava em saúde, olhávamos para o celular para procurar o telefone do médico ou para ligar e marcar uma consulta? A relação do indivíduo com a própria saúde não incluía as possibilidades tecnológicas. E, a partir da pandemia, isso mudou muito. As tecnologias estavam em ebulição e finalmente estamos mais abertos a isso. O celular é o centro da vida de todos nós – é o repositório de dados, de informações, é onde colocamos a nossa memória de fotos por recordações, a nossa vida financeira, a nossa agenda. Mas a nossa saúde não estava ali. Imagina o quanto você produz de dados da sua própria saúde?

Como isso pode transformar a vida das pessoas?

Hoje, se você tem que ir para um novo médico endocrinologista, por exemplo, é sempre preciso começar do zero. O paciente tira o calhamaço de exames que carrega embaixo do braço e passa a se consultar. Uma plataforma de saúde aberta, em que uma pessoa possa conectar todas as informações que já possui, pode mudar essa realidade. A partir do momento que eu tenho essa informação, eu não volto várias casas do jogo. Destravamos as possibilidades tecnológicas relacionadas à saúde com pandemia e não vamos voltar a nos relacionar com saúde da forma como fazíamos antes.

Muitas empresas investiram em telemedicina, mas ainda estamos no começo. Quais são as principais dificuldades para a implementação plena no País?

Passamos por um marco muito complicado na parte da regulação, mas no fundo não era a regulação em si o problema. Os públicos de interesse tiveram que chegar a um consenso. Era isso ou deixar as pessoas desassistidas. O que vai acontecer a partir de agora? Temos que ter a clareza que a telemedicina é uma maneira adicional de ter acessibilidade à saúde. Ela não vem para competir com a consulta, médico, hospital ou clínicas.

“Ao reunir tudo em um mesmo lugar, o modelo de saúde pode ser mais sustentável”

Como a telemedicina contribuiu para o sistema de saúde?

Sempre se ouviu falar das idas desnecessárias ao pronto-socorro. Mas por que isso acontece? Em quais momentos as pessoas conseguiam conversar com um profissional de saúde? Quando eu crio essa acessibilidade de baixar um aplicativo, a história é diferente. Quase 4 milhões de pessoas têm acesso ao aplicativo de telemedicina. Ninguém vai usar o sistema errado se houver facilidade no uso. À medida que você coloca as informações em um sistema, ela passa a ser guardada e somada ao que já foi registrado. Ao reunir tudo em um mesmo lugar, o modelo de saúde pode ser mais sustentável. Sabendo utilizar essa tecnologia de forma contínua na saúde, vamos melhorar sinistro das operadoras, o nível de atenção e cuidado e, inclusive, a interação médico e paciente.

Agora, uma questão mais relacionada à covid diretamente. Desde o começo da pandemia, falamos sobre a importância de testar em massa e as autoridades falavam que isso não era possível por causa das dimensões continentais do País. Por que não conseguimos testar todos?

O teste em massa é caro. A cadeia de insumos é muito grande. Já tivemos várias reuniões falando só sobre cadeia de suprimentos de materiais para os testes. Esta é uma pandemia global e os produtores destes insumos estão sendo demandados globalmente. É verdade que têm várias possibilidades e várias tecnologias, mas o que pouca gente fala é que, cada vez que o fornecedor é trocado, é necessário ter certeza que a qualidade metodológica será a mesma. Além disso, é caro também por outros motivos como os equipamentos, os profissionais especializados e o teste de RT-PCR, pois os protocolos estabelecem o uso de cadeia frio, um processo caro em um país como o Brasil. Outro ponto: vamos supor que sejam disponibilizados os recursos para produzir esse tipo de produto em escala. O que você faz quando a pandemia acabar? Você não tem como aproveitar aquelas tecnologias. Então, há uma lógica econômica na testagem populacional. As pessoas tendem a achar que o teste diagnóstico é você pegar um tubo, enfiar em uma máquina e ela te dá uma reposta. Mas há uma cadeia de variáveis. Desde a maneira que você coleta, a estabilidade da amostra no transporte, a entrada no equipamento, o tipo de insumo, que é enorme. Se você quer manter a melhor informação, você precisa manter o nível essa cadeia com nível de qualidade superior.

O Fleury é parceiro da vacina da Universidade de Oxford, que desenvolveu a vacina inglesa. Qual o papel do Fleury nessa participação?

Fazemos toda a parte de seleção e diagnóstico. Como é uma pesquisa de vacina em fase três, é preciso saber em quem aplicar a vacina e qual vai ser o desfecho. Por exemplo, se a pessoa realmente criou anticorpos detectáveis em relação àquela dose. Também ajudamos a detectar quem já tem anticorpos: a pessoa teve anticorpo porque estava infetada ou foi por causa da vacina? O nosso papel em relação ao diagnóstico é garantir que as pessoas certas estão sendo identificadas, que elas tiveram anticorpos novos a partir do momento que receberam a vacina e, eventualmente, testar as possíveis reações que a pessoa teve ao longo do tempo. Para resumir, nosso papel é determinar se o público alvo está certo, se a vacina surtiu os efeitos necessários e se teve algum tipo de sintoma que não torna a vacina segura para ser aplicada na população.

“O nosso pioneirismo vai ser essa capacidade de ajudar com dados e informações de saúde. E ser cada vez mais digital”

O Fleury foi pioneiro ao disponibilizar resultados de exame na internet em 1997. Foi o primeiro do mundo. Qual o próximo passo do pioneirismo?

A transformação digital deixou de ser algo que vai acontecer e já está acontecendo. No passado, o médico ia na casa do doente. Depois, começamos a colocar os médicos dentro de grandes estruturas, dos hospitais. E então tivemos a burocracia, ter que assinar papeis e ter que falar com várias pessoas. Passamos pelo momento onde o conhecimento estava nessas estruturas físicas e isso está mudando. O médico está vindo para perto do paciente, o diagnóstico está na casa do paciente, os tratamentos menos complexos passam a estar na casa do paciente ou no ambiente ambulatorial, em que ele pode entrar e sair rapidamente. Cuidar da saúde deixa de ser algo que tem um custo alto para as pessoas. Não só em termos de preço, mas de tempo, de experiência e no acolhimento. É algo que pode ser mais acessível. O nosso pioneirismo vai ser essa capacidade de ajudar com dados e informações de saúde. E ser cada vez mais digital.

Como se diferenciar nesse meio? Todos falam de telemedidcina, de paciente no centro, de diagnóstico, do uso de dados.

A saúde digital vai capturar os vários momentos que você tem com a saúde, do medicamento que você toma, o seu peso, a sua frequência cardíaca, a sua caminhada. O Dr. Rui Maciel, que é do nosso conselho, traz ensinamentos do seu passado no Fleury: “É muito simples. É só fazer bem feito”. E o que é fazer bem feito? É ser preciso. Por que somos muito conhecidos pelo diagnóstico? Porque o médico quando analisa não fica em dúvida. Se ele tem dúvida, ele vai ter uma consultoria para falar sobre isso. Fazer bem feito é ser incansável na melhor informação para o indivíduo. Além disso, tem também a questão da experiência. Temos mais de um app de mobilidade ou banco no celular, mas temos aqueles que gostamos mais. O nosso objetivo é ser o principal app de saúde. A ideia é construir uma plataforma aberta que todos possam estar nela e que proporcione uma experiência única de saúde. É estar perto do paciente e do médico, trazendo serviço. E fazendo a curadoria de outros que estão nesse ecossistema. Assim, faço a orquestração de tudo isso para oferecer uma relação melhor com a saúde.

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