Câncer: uma doença infecciosa?

Um estudo realizado em 13 países asiáticos apontou que cerca de 25% de todos os casos de câncer foram associadas a um agente infeccioso

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Infecções crônicas por agentes potencialmente carcinogênicos são reconhecidos como o principal fator de risco para o câncer humano. A fração da população com novos casos de câncer atribuída a agentes infecciosos no mundo foi de 16,1%, indicando que pelo menos esta porcentagem de casos de câncer poderia ter sido prevenida se conseguíssemos controlar ou eliminar determinados agentes infecciosos. Esta fração da população é maior nos países mais pobres (22,9%) e menor nos países mais desenvolvidos (7,4%).

Como exemplo, num estudo epidemiológico realizado em 13 países asiáticos, aproximadamente 25% de todos os casos de câncer e respectivas mortes foram associadas a um agente infeccioso. Fatores como diversidade cultural, econômica e ambiental em diferentes países contribuem para a variação dos agentes infeciosos e sua prevalência na população geral.

Mas afinal quem são estes agentes infecciosos, ditos os “vilões” do câncer?

A Helicobacter pylori , bactéria frequentemente encontrada no estômago nos procedimentos de endoscopia, relacionada a gastrite, úlceras e adenocarcinoma gástrico, pode ser facilmente tratada com antibióticos, desde que feito os exames preventivos. Pasmem, este é o principal agente infeccioso causador de câncer na Ásia.

Na relação abaixo, apresento os “Vilões” do câncer humano.

  • HPV (human papillomavirus) está relacionado a diversos tipos e localizações de câncer: como orofaringe, cavidade oral, colo do útero, vagina e vulva, ânus e pênis;
  • EBV (Epstein-Barr vírus causador da mononucleose) está relacionado ao câncer de nasofaringe, linfoma de Hodgkin e linfoma de Burkitt (crianças na África);
  • HIV relacionado a linfoma não Hodgkin;
  • Helicobacter pylori  (HP), relacionado ao câncer gástrico (carcinoma gástrico), linfoma gastrico;
  • VHB (vírus da hepatite B) relacionado ao câncer do fígado (hepatocarcinoma)
  • VHC (vírus da hepatite C) relacionado ao câncer das vias biliares e fígado (colangiocarcinoma e hepatocarcinoma), linfoma não Hodgkin
  • Herpes vírus 8 e HIV relacionado ao Sarcoma de Kaposi
  • HTLV-1 (Human T-cell lymphotropic virus tipo 1) relacionado à leucemia e linfoma em adultos 

Na figura abaixo apresento a proporção de casos e mortes relacionadas a novos casos de câncer atribuídos a cada tipo de agente infeccioso, na revisão realizada na Ásia.

O HPV

O Helicobacter pylori é o mais comum e o que mais mata os homens e o HPV é o mais letal e comum nas mulheres.

Exemplo recente são os dados do Canadá, onde o número estimado de câncer atribuídos à infecção em 2015 foi maior com o HPV, como maior causador de câncer, seguido do H pylori, lembrando que ambos são controláveis, o primeiro por vacina e o segundo com antibióticos.

Vale já lembrar que hoje temos vacinas para a prevenção da infecção e doença causada pelo HPV, sendo para adolescente de 9 a 14 anos oferecida gratuitamente no Programa Nacional de Imunização. Ou seja, é gratuita nos postos de saúde do Brasil. Para além desta faixa etária, a vacina também está indicada para prevenção de câncer causado pelo HPV, sendo disponível nos serviços privados de vacinação.

Na população vivendo com HIV/aids, a vacina quadrivalente do HPV está disponível gratuitamente na faixa etária de 9 a 26 anos, para ambos sexos, na rede pública.

A infecção por esses agentes, além de ameaçar a vida e impactar a qualidade de vida, impõe um pesado fardo econômico às famílias e sociedade, direta e indiretamente.

Podemos afirmar que todos os casos de câncer do colo uterino são causados pela infecção persistente do HPV. Não existe câncer sem HPV, mas existe HPV sem câncer!

São mais de 100 tipos diferentes de HPV, sendo que 40 deles estão relacionados com potencial oncogênico. O HPV é de transmissão muito fácil, bastando contato direto de pele-pele ou pele-mucosa. A OMS estima que 80% da população sexualmente ativa, teve ou terá em algum momento da vida contato com este vírus. Assim, a melhor forma de prevenção é através da vacinação somada a triagem de câncer com a realização do exame preventivo do Papanicolau.

Hepatite B e C

Em relação ao vírus da hepatite B, o mesmo pode ser transmitido da mãe para o recém-nascido no momento do parto, a partir de gestantes portadoras do vírus, porém devido a atual vacinação universal de todos os recém-nascidos ainda na maternidade, está sendo possível alcançar uma geração livre do vírus da hepatite B, desde que mantenhamos esta importante vacinação. Por outro lado, hoje ainda temos um número expressivo de jovens e adultos-jovens se infectando e transmitindo de forma sexual o vírus da hepatite B.

Sempre é bom lembrar, que dispomos de vacina segura e gratuita para todos os brasileiros, podendo assim reduzir o número de pessoas infectadas e consequentemente o número de pessoas com câncer de fígado. Estima-se que o risco de pessoas cronicamente infectadas com o vírus da hepatite B desenvolverem hepatocarcinoma é 13.5 vezes maior que pessoas não infectadas.

No mesmo caminho, o vírus da hepatite C, que pode ser adquirido basicamente através do sangue e instrumentos contaminados com sangue, está fortemente relacionado a câncer de fígado. Apesar de não dispormos de vacina contra o vírus da hepatite C, hoje dispomos de excelente tratamento, com taxa de cura chegando a praticamente 100% dos casos. Assim, quanto mais diagnosticarmos pessoas portadoras do vírus da hepatite C, mais iremos tratar e, por que não, erradicar este vírus um dia?

HIV/aids

Em relação as pessoas vivendo com HIV/aids, existem 3 tipos de câncer mais comuns neste grupo: Sarcoma de Kaposi, linfomas e carcinoma do colo do útero e carcinoma ano genital. O HIV facilita a replicação de outros vírus causadores de câncer.

O que fazer diante deste cenário?

“Se estas infecções fossem prevenidas e/ou tratadas, estima-se que poderíamos ter uma redução de 23% de câncer nos países menos desenvolvidos do mundo e 7% a menos nos países mais desenvolvidos”

Quando digo “ prevenir”, isso significa vacinar a população para HPV e Hepatite B. Além disso, é importante a orientação e o tratamento da contaminação pelo HIV, vírus da hepatite C, H pylori entre outras.

Adoção de medidas efetivas de longo prazo (incluindo prevenção primária e secundária) para prevenir a infecção dos principais agentes causadores de câncer é uma maneira eficiente de reduzir as taxas de cânceres relacionados à infecção. Ferramentas estão disponíveis para prevenir muitas dessas doenças e devem ser utilizadas.

Assim, com um programa de saúde pública voltado a prevenção com vacinação, uso seguro de seringas, rastreio eficaz de doadores de sangue e órgãos, tratamento antivirais e antibióticos e pratica de sexo seguro, poderia ter um efeito incrível na carga destas e outras doenças mundo afora.

Diante da pandemia do covid-19 temos observado em todo o mundo um descaso em relação às medidas preventivas, e temos grande receio de retroceder processos já bem estabelecidos de prevenção, depois de muitas campanhas de conscientização global.

Referências

He Huang et al.J Epidemiol. 2015; 25(10): 626–638.

Jin-Kyoung Oh et al. , Annals of Global Health 2014;80:384-392

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